MANUFATURA

Escassez de talentos: indústria precisa aprender a formar o que não consegue mais contratar

Flávio Battaglia, Iris Cristina Pierini Bonfanti e Ricardo Itikawa
Escassez de talentos: indústria precisa aprender a formar o que não consegue mais contratar
Porque a carência de pessoal qualificado não é apenas um problema externo, mas evidencia deficiências de gestão, exigindo modelos capazes de transformar a rotina operacional num sistema de aprendizagem, amadurecimento e sucessão de lideranças

A indústria brasileira convive hoje com uma escassez real de talentos. Contratar profissionais qualificados se tornou mais difícil, caro e incerto. No entanto, o mercado, sozinho, não consegue resolver tudo. Nesse caso, parte do problema está dentro das próprias empresas, na forma como elas desenvolvem pessoas, promovem lideranças e geram aprendizados nesse processo. 

Há dados relevantes que ajudam a dimensionar esse desafio. Segundo o mais recente Mapa do Trabalho Industrial, elaborado pelo Senai, o Brasil precisará qualificar cerca de 14 milhões de trabalhadores em ocupações industriais entre 2025 e 2027. No plano global, a Pesquisa de Escassez de Talentos 2025, da ManpowerGroup, mostra que 74% das empresas enfrentam dificuldade para encontrar profissionais qualificados. No mercado brasileiro, esse índice chega a 81%. 

Quando a escassez é tratada apenas como uma dificuldade externa, a resposta a ela tende a se concentrar em recrutamento, remuneração e apelo da marca empregadora. Tudo isso importa. Porém, nenhuma dessas frentes substitui a competência interna para transformar a experiência em aprendizagem compartilhada. O conhecimento tácito em prática estável. E bons profissionais em gestores consistentes. 

Essa discussão ganha peso neste momento em que digitalização, automação, inteligência artificial, análise de dados e novos modelos de trabalho alteram rapidamente as exigências sobre as organizações industriais. 

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que lacunas de habilidades são vistas como a principal barreira à transformação dos negócios por 63% dos empregadores. O mesmo relatório indica que 85% das empresas pretendem priorizar o upskilling de suas equipes. Para a manufatura, encontrar gente qualificada já não basta. É preciso criar condições para desenvolver internamente competências de forma consistente. 

O advento da inteligência artificial reforça essa urgência. Ela pode ampliar a capacidade analítica, acelerar o acesso à informação, automatizar atividades repetitivas e apoiar decisões. No entanto, seu valor depende, em grande medida, da qualidade do sistema humano que a utiliza. Onde faltam método, clareza sobre os desafios, disciplina de gestão e aprendizagem, a tecnologia tende a potencializar também as fragilidades existentes. 

A agenda global de gestão já identifica claramente essa tensão. O Work Trend Index 2025, da Microsoft, descreve uma lacuna crescente de capacidade nas organizações: 53% dos líderes afirmam que a produtividade precisa aumentar, enquanto 80% da força de trabalho global declara não ter tempo ou energia suficientes para realizar seu trabalho. A pressão por desempenho cresce em um ambiente no qual equipes, processos e chefias frequentemente já operam no limite. 

Na indústria, essa pressão recai de modo particular sobre os níveis intermediários. Supervisores, coordenadores, líderes de célula, encarregados e gerentes de primeira linha estão no “ponto” em que a estratégia encontra a rotina. Cabe a eles traduzir metas em comportamento, acompanhar padrões, apoiar equipes, resolver desvios, absorver novas tecnologias e preservar a estabilidade operacional. Quando esse nível é mal preparado, a execução perde consistência exatamente onde deveria ganhar força. 

Ao longo do tempo, consolidou-se na indústria brasileira o hábito de promover os melhores técnicos, operadores ou especialistas como forma de reconhecimento e retenção. A decisão parece lógica em uma primeira leitura. Valoriza-se quem entrega bons resultados operacionais e se reduz o risco de perder esse profissional para a concorrência. A fragilidade aparece quando essa passagem ocorre sem formação adequada, como se liderar fosse uma extensão natural do bom desempenho técnico. 

Liderança exige outra natureza de contribuição. Envolve desenvolver equipes, sustentar padrões, remover obstáculos, formar sucessores e melhorar continuamente o sistema de trabalho. Um excelente técnico pode se tornar um ótimo gestor, mas essa transição não acontece por simples mudança de cargo. Depende de acompanhamento, prática deliberada, exposição progressiva a responsabilidades gerenciais e clareza sobre o que se espera desse novo papel. 

Quando a promoção é feita sem esse cuidado, a empresa cria uma “dupla perda”. Enfraquece uma competência técnica que antes estava plenamente aplicada na operação e entrega a condução de pessoas, processos e decisões a alguém que ainda não foi preparado para essa responsabilidade. O novo líder passa a lidar com conflitos, prioridades, indicadores, crises e escolhas complexas sem necessariamente ter desenvolvido repertório para isso. 

A consequência costuma ser uma liderança capturada pela urgência. Em vez de de desenvolver pessoas, distribui demandas. Como não consegue investigar causas, administra sintomas. E em lugar de construir estabilidade, responde ao que aparece. Aos poucos, sua agenda passa a ser determinada pelo calor da operação, mas não por uma rotina clara de gestão. 

Os sinais dessa fragilidade raramente aparecem de uma vez. Surgem em retrabalhos recorrentes, falhas de comunicação entre turnos, decisões tomadas com informações incompletas, variabilidades toleradas como normais, equipes que deixam de sugerir melhorias e bons profissionais que começam a procurar oportunidades fora da empresa. Depois, esses sinais se acumulam em perda de confiança, deterioração do clima, aumento da rotatividade e maior dependência de contratações externas. 

Nesse ponto, a falta de talentos deixa de ser apenas uma condição do mercado e passa a ser reforçada pelas escolhas da própria organização. A empresa reclama da falta de gente preparada, mas nem sempre percebe que seu modelo de gestão também produz essa ausência quando não atua para desenvolver suficientemente quem já está dentro. 

Sob a ótica lean, esse quadro revela um dos desperdícios mais graves: o intelectual. A companhia remunera profissionais capazes de pensar, aprender e contribuir, mas mantém um ambiente que limita autonomia, iniciativa e capacidade de resolver problemas. Esse desperdício aparece no silêncio das equipes, na baixa participação em melhorias, na apatia diante de questões recorrentes e na distância entre quem decide e quem conhece de fato o trabalho. 

IA torna esse desperdício ainda mais sensível. Quanto mais dados, algoritmos e automação entram na operação, mais importante se torna o julgamento humano capaz de formular boas perguntas, interpretar informações, compreender contextos e aprender com os resultados. Sem esse julgamento, a tecnologia pode aumentar a velocidade da resposta sem melhorar a qualidade da decisão. 

Por isso, a saída não está em substituir a discussão sobre gestão por uma discussão sobre tecnologia, nem em imaginar que recrutamento resolverá sozinho uma carência que também é organizacional. A indústria precisa elevar a maturidade de seus sistemas de desenvolvimento humano. Tem de formar líderes com método, criar ambientes de aprendizagem na rotina e converter situações reais da operação em conhecimento coletivo. 

É aqui que a maneira lean oferece uma contribuição particularmente relevante. Em sua forma mais madura, lean não é apenas um conjunto de ferramentas para melhorar produtividade, fluxo ou eficiência. É uma arquitetura de gestão que desenvolve pessoas enquanto aperfeiçoa processos. Seu valor está em criar rotinas, padrões, conversas, indicadores e comportamentos que aproximam a liderança da realidade e fazem da operação um espaço contínuo de aprendizagem. 

Nessa lógica, o líder é, antes de tudo, alguém que ensina. Não se limita a cobrar resultados ou distribuir tarefas. Observa o trabalho, prepara a equipe, sustenta padrões e ajuda as pessoas a compreenderem melhor os desafios que enfrentam. Essa mudança de papel desloca a liderança do comando episódico para a formação cotidiana de capacidade. 

Nesse contexto, o gemba, por exemplo, não é apenas o local onde o trabalho acontece. É uma disciplina de aproximação com a realidade antes da tomada de decisão. Lá, o líder observa, escuta, faz perguntas, testa hipóteses e ajuda a equipe a desenvolver raciocínio crítico sobre o próprio processo. A gestão deixa de se apoiar apenas em relatórios ou percepções distantes e passa a aprender com o trabalho real, no local em que ele acontece. 

A “matriz de habilidades” cumpre outra função essencial ao tornar visíveis as lacunas de competência. Com ela, a empresa consegue planejar a evolução dos profissionais, reduzir decisões de promoção baseadas em favorecimentos pessoais ou urgência e compreender onde existem riscos de dependência excessiva de poucos especialistas. Em um ambiente de mudança tecnológica acelerada, essa visibilidade deixa de ser apenas útil e passa a ser decisiva, criando espaço para multifuncionalidade e desenvolvimento individualizado. 

O “trabalho padronizado” cria as bases para a estabilidade gerencial. Define rotinas essenciais para que líderes acompanhem processos, apoiem equipes e cuidem da formação das pessoas. Sem essas rotinas, a liderança tende a ser consumida pelo “quem grita mais alto”. Com elas, ganha condições de observar melhor, apoiar melhor e agir antes que pequenos desvios se transformem em crises. 

O “pensamento A3” contribui ao elevar a qualidade do raciocínio gerencial. Ele orienta líderes a estruturar problemas, examinar fatos e dados, investigar causas, propor contramedidas e aprender com os resultados. Em uma época marcada por excesso de informação e respostas instantâneas, essa disciplina protege a organização do achismo e da tentação de confundir rapidez com boas decisões. 

As rotinas de “gerenciamento diário” completam essa lógica ao criar uma cadência estruturada de diálogo, priorização e escalonamento de problemas. Quando bem conduzido, o GD fortalece a cadeia de ajuda, organiza a conversa sobre desempenho e suporte, e permite que dificuldades operacionais, humanas e decisórias sejam tratadas antes de se acumularem. 

Essas práticas ganham força quando operam juntas no cotidiano. O gemba aproxima a liderança da realidade. A matriz de habilidades dá visibilidade às lacunas e à evolução das equipes. O trabalho padronizado cria disciplina. O A3 melhora a qualidade do pensamento. O gerenciamento diário sustenta a conversa, a ajuda e o aprendizado. Juntas, criam um sistema para formar pessoas enquanto a empresa melhora seus processos e seu desempenho. 

Essa mudança exige também outra forma de medir qualidade da gestão. Produtividade, qualidade, segurança e OEE continuam fundamentais, mas não são suficientes para revelar a saúde do sistema de liderança. A companhia precisa acompanhar sucessores preparados, evolução de habilidades críticas, tempo médio de capacitação para novas funções, participação em melhorias, qualidade das mentorias e maturidade das rotinas gerenciais. Sem esses sinais, a formação de líderes permanece no campo das intenções. 

Também é necessário cuidar da governança das promoções. Critérios claros de evolução, políticas transparentes de desenvolvimento e regras objetivas de meritocracia reduzem o espaço para decisões tomadas apenas pela conveniência do momento. Quando os colaboradores compreendem o que se espera deles e percebem justiça no sistema, tendem a investir mais no próprio crescimento e a construir vínculos mais consistentes com a organização. 

A escassez de talentos, portanto, mede também a maturidade gerencial das empresas. A falta de profissionais qualificados existe e não deve ser minimizada. Porém, a incapacidade de preparar quem já está dentro da organização é uma decisão, ainda que muitas vezes tomada por omissão. 

A indústria que depende apenas de contratar líderes prontos ficará cada vez mais exposta às oscilações do mercado de trabalho. A que aprende a formar lideranças cria uma competência própria, mais difícil de copiar e sustentável ao longo do tempo. 

Essa talvez seja uma das contribuições mais atuais do lean. Ele mostra que reter talentos não é apenas oferecer cargos, salários ou promessas de crescimento. É criar um ambiente, no qual as pessoas aprendem, contribuem, resolvem problemas e percebem que evoluir tem relação direta com o desempenho da organização. 

Em um contexto de IA, automação e rápida transformação das competências, essa mensagem ganha ainda mais força. A vantagem competitiva não virá apenas de máquinas melhores, algoritmos mais sofisticados ou contratações mais agressivas. Dependerá da capacidade de criar sistemas em que líderes ensinam, equipes aprendem e problemas reais se transformam em conhecimento organizacional. 

Quando isso acontece, a empresa deixa de apenas reagir à escassez de talentos. Passa a construir a própria capacidade de formar pessoas, fortalecer equipes e sustentar resultados. Na prática, transforma desenvolvimento humano em vantagem competitiva permanente.

Fonte: Lean Institute Brasil
Publicado em 06/05/2026

Autores

Flávio Battaglia
Presidente do Lean Institute Brasil
Iris Cristina Pierini Bonfanti
Head para Indústrias de Processos no Lean Institute Brasil
Ricardo Itikawa
Head para Manufatura no Lean Institute Brasil

Leia também