GERAL

Porque a IA exige processos mais humanos

Flávio Battaglia e Erasto Meneses
Porque a IA exige processos mais humanos
Ao automatizar atividades e ampliar capacidade de análise, a Inteligência Artificial redefine o trabalho gerencial ao expor os limites da forma como a gestão é conduzida e abrir espaço para uma atuação mais próxima das pessoas

Já faz algum tempo que a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa futurista para grande parte das empresas. Hoje, atua como mais um motor de transformação. Contudo, em meio ao deslumbramento com algoritmos, ainda há um dilema muito atual: como utilizar esse poder digital sem sacrificar o que há de melhor nas conexões humanas, como a empatia e a confiança? Para compreender esse problema e responder a essa pergunta, é preciso, primeiro, entender o que uma IA deve ser e o que ela não pode ser. 

Isso é nevrálgico porque, em geral, o papel do gestor tradicional, ainda predominante em muitas empresas, está sobrecarregado por atividades burocráticas, redundantes e sem conexão clara com a criação de valor. Esses trabalhos persistem não por necessidade real, mas por inércia organizacional, falta de visibilidade sobre os processos e dificuldade em distinguir, no cotidiano, o que de fato contribui para o resultado. O efeito é previsível: uma parcela relevante do tempo e da energia da gestão é consumida sem retorno proporcional.

Estima-se que entre 30% e 50% das atividades de um gestor tradicional possam ser eliminadas ou substituídas pela IA, sem maior complexidade, nos próximos anos. Sob a ótica lean, essa estimativa é consistente com a natureza do trabalho gerencial atual: uma parcela relevante do tempo ainda é consumida pela consolidação de informações, acompanhamentos manuais, cobranças e reuniões de status. Trata-se, em essência, de atividades transacionais, com baixo conteúdo decisório e alta repetição, portanto, amplamente passíveis de digitalização. 

O ponto crucial, entretanto, não é o percentual de tarefas eliminadas, mas o que deve permanecer: a capacidade de priorizar problemas, aprofundar o entendimento sobre eles, desenvolver pessoas e dar clareza aos propósitos. É nesse campo que a IA não substitui a liderança. Seu papel é outro: ajudar a revelar as limitações de modelos ainda presos a rotinas repetitivas e abrir espaço para uma atuação mais exigente, voltada à construção de sistemas de aprendizagem. Nesse sentido, a IA não substitui o líder, mas eleva o nível de exigência ao tornar mais visíveis as fragilidades da sua condução. 

Essa mudança, no entanto, esbarra em um modelo mental ainda dominante, baseado em comando e controle. É esse referencial que define como o trabalho é organizado e como a tecnologia é incorporada no dia a dia. Quando essa lógica prevalece, a IA tende a ser utilizada como uma camada adicional de eficiência, mas aplicada sobre estruturas que permanecem inalteradas. O resultado é previsível: ganha-se velocidade, mas não se transforma a forma como a gestão atua. 

O diferencial deixa de estar na execução e se desloca para a qualidade do olhar: na forma como os problemas são definidos, nas perguntas que orientam a análise e no critério usado para interpretar as respostas. É nesse terreno que a IA encontra a liderança lean. Sem esse movimento, o gestor segue operando a partir dos mesmos referenciais, ainda que com novas ferramentas à disposição. A tecnologia avança, mas sua lógica de atuação permanece inalterada. 

Nesse contexto, o tempo “liberado” pela IA tende a ser rapidamente reocupado por novas demandas e camadas adicionais de coordenação. Esse movimento é menos tecnológico e mais organizacional, pois na ausência de critérios claros sobre o que deve ou não ser feito, o espaço disponível é “naturalmente” preenchido. 

Para romper esse padrão, é necessário redesenhar o papel do gestor. O ganho não está no tempo em si, mas na capacidade de fazer escolhas mais criteriosas sobre onde intervir, o que eliminar e o que desenvolver. Sem essa mudança, a capacidade adicional gerada pela tecnologia se dispersa, sem impacto relevante na qualidade da gestão. 

Para tanto, é preciso reconhecer que a distância entre apoio tecnológico e distanciamento humano é tênue e, muitas vezes, imperceptível. O uso da IA se torna prejudicial quando passa a substituir a conexão direta entre líderes e equipes. Ao se apoiar exclusivamente em “dashboards”, o gestor se afasta do gemba. A interface do software ganha espaço, enquanto a conversa, a escuta ativa e a observação direta perdem lugar. A precisão dos dados não pode substituir a presença. Sem contexto ou conexão com a realidade da operação, números tendem a conduzir a decisões inevitavelmente equivocadas. 

O efeito mais crítico desse processo não é imediato, mas cumulativo. À medida que a interação direta fica reduzida, as equipes passam a atuar com interpretações fragmentadas da realidade. Problemas deixam de ser compreendidos em profundidade e passam a ser tratados de forma superficial. Com o tempo, enfraquece-se a capacidade coletiva de aprender e aperfeiçoar o trabalho. Nesse ambiente, decisões se apoiam cada vez mais em sinais “indiretos”, abrindo espaço para intervenções que parecem precisas, mas carecem de fundamento prático. 

Com isso, surge uma sensação recorrente de desalinhamento, com sinais claros desse descompasso. A informação se torna amplamente disponível, mas perde conexão com os significados mais complexos que carrega. Feedback continua existindo, porém tendem a se tornar superficiais, genéricos e excessivamente padronizados, no pior sentido do termo, sem a nuance necessária ao desenvolvimento humano. Esse ambiente enfraquece a confiança e limita o aprendizado coletivo, criando uma dinâmica muito mais fria e distante. 

Essa “frieza” aumenta quando se confunde precisão com compreensão. A IA é eficiente para medir e correlacionar, mas não acessa, por si só, contextos, propósitos ou a complexidade do esforço envolvido. O erro crítico do gestor é tratar métricas como verdades absolutas ou como sentenças finais. Elas devem ser pontos de partida. Para quê? Para ampliar o diálogo, aprofundar a interação, orientar investigações e incursões ao gemba. Métricas devem abrir conversas, não as encerrar. Quando um número substitui o diálogo, a organização perde contato com as pessoas e enfraquece sua capacidade de aprender a partir do trabalho real. 

Esse tipo de distorção expõe um limite importante do uso da tecnologia. Cultura organizacional não se forma a partir de ferramentas; ela emerge das escolhas cotidianas, das interações e da forma como o trabalho é conduzido. A IA pode capturar sinais e padrões, mas não substitui a experiência compartilhada que sustenta esses comportamentos. Avaliar essa integração exige, portanto, muito mais do que indicadores isolados. É preciso observar se o uso da tecnologia está fortalecendo o entendimento comum, a qualidade das interações e a capacidade de aprender a partir do trabalho real. 

Esse equilíbrio se revela em sinais observáveis no dia a dia. Há segurança para expor problemas e erros? As interações são abertas e orientadas à compreensão ou se limitam a trocas transacionais e defensivas? A liderança está presente no gemba ou opera à distância? E as ferramentas, estão a serviço da eliminação de desperdícios, da melhor resolução de problemas e da criação de valor, ou se tornaram um fim em si mesmas? As respostas a essas questões indicam se a IA está ampliando a qualidade do ambiente ou reforçando barreiras entre as pessoas. 

Nas empresas, acumulam-se exemplos de usos mal orientados da tecnologia, que acabam por aprofundar exatamente os problemas que se pretendia resolver. Ao mesmo tempo, começam a surgir experiências mais consistentes, que demonstram ser possível integrar IA e gestão de forma mais coerente. 

Na gestão, a tecnologia não se limita à simples adoção, mas exige uma revisão da forma como o trabalho é estruturado. O papel do gestor se desloca para organizar o trabalho de modo que a tecnologia apoie a análise e as pessoas conduzam a resolução de problemas e a tomada de decisões. Ao reduzir a carga de atividades automatizáveis, abre-se espaço para aquilo que não pode ser delegado. 

O sucesso não estará em dominar algoritmos, mas em saber utilizá-los para estar mais presente, com mais empatia, confiança e foco no que realmente importa: as pessoas. A IA amplifica a lógica de gestão existente. Se a gestão for distante, ela ampliará esse distanciamento. Se for humana e orientada ao aprendizado, atuará como catalisador. A escolha não é da tecnologia, mas do que queremos para nossa gente.

Fonte: Lean Enterprise Institute
Publicado em 08/04/2026

Autores

Flávio Battaglia
Presidente do Lean Institute Brasil
Erasto Meneses
Head de Lean Digital & Financial Services no Lean Institute Brasil

Leia também