CONSTRUÇÃO

Novo ciclo da infraestrutura exigirá maturidade de gestão

Novo ciclo da infraestrutura exigirá maturidade de gestão
Com reaquecimento das grandes obras e predomínio de capital privado, setor terá exigências inéditas, competição rigorosa e menos tolerância a desperdícios; lean passará de “alternativa” à “condição estruturante” para mitigar riscos operacionais, estabilizar execução e proteger retorno sobre o investimento.

No Brasil, o setor de infraestrutura dá sinais claros de que ingressa em um dos maiores ciclos de investimento das últimas décadas. Após anos de estagnação, os aportes voltaram a ganhar tração. Segundo o “Barômetro da Infraestrutura”, da EY-Parthenon, em parceria com a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), divulgado em fevereiro de 2026, os investimentos totais atingiram R$ 280 bilhões em 2025, um novo recorde nominal, após R$ 260,6 bilhões em 2024. As projeções mais consistentes apontam para R$ 300 bilhões já em 2026.

Em termos proporcionais, contudo, o país ainda investe cerca de 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura, patamar inferior aos 4% ou mais que países que modernizaram a logística sustentaram por períodos prolongados. O estoque atual de investimentos em infraestrutura equivale a aproximadamente 36% do PIB brasileiro, frente a uma média mundial próxima de 60%. Para reduzir esse hiato, seriam necessários investimentos superiores a 4% do PIB por pelo menos duas décadas. O movimento atual, portanto, não caracteriza exuberância. Trata-se de recomposição.

A mudança estrutural mais relevante está na origem dos recursos. Aproximadamente 84% dos R$ 280 bilhões investidos em 2025 vieram da iniciativa privada, viabilizados por concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Esse dado altera profundamente a lógica de execução. Quando o capital privado assume protagonismo, a disciplina financeira deixa de ser retórica. Margens são acompanhadas por credores, agências de rating e fundos institucionais. Desvios de prazo ou custo impactam diretamente o retorno sobre os investimentos (ROI) e a capacidade futura de novas captações de capital.

A literatura internacional sobre megaprojetos, consolidada em estudos liderados pelo professor Bent Flyvbjerg, da Universidade de Oxford, mostra que nove em cada dez obras de infraestrutura no mundo registram atrasos ou estouros orçamentários relevantes. Em projetos de transporte, os desvios médios superam 28%; em ferrovias, aproximam-se de 45%. No Brasil, experiências recentes confirmam desvios médios superiores a 20% em empreendimentos complexos. Ao mesmo tempo, a construção civil permanece entre os setores com menor ganho acumulado de produtividade nas últimas décadas.

Nesse ambiente de alta competitividade, projetos complexos, clientes exigentes e margens pressionadas, eficiência operacional deixa de ser diferencial competitivo e se torna requisito contratual. Mais do que eficiência, impõe-se a busca por eficácia estratégica: entregar não apenas a obra física, mas um ativo economicamente sustentável ao longo de 25 a 35 anos, com riscos controlados, exigências ESG atendidas e ROI preservado.

Antes da obra: engenharia e suprimentos como sistema integrado

Estima-se que entre 70% e 80% do custo final de um ativo de infraestrutura seja definido antes da mobilização do canteiro. Decisões tomadas na fase de engenharia, que começam com concepção, especificações técnicas, escolha de materiais e soluções construtivas, determinam a viabilidade econômica do projeto. Quando a engenharia não incorpora “construtibilidade”, custos e prazos realistas desde o início, os problemas emergem na execução sob a forma de retrabalho, paralisações e aditivos. Em contratos estruturados sob lógica privada, tais desvios afetam diretamente o equilíbrio econômico-financeiro.

Práticas como Target Costing (custo-alvo) e Engenharia de Valor, estruturadas dentro de uma abordagem lean, permitem alinhar contratantes, projetistas, gerenciadoras e fornecedores em torno de parâmetros técnicos e financeiros definidos desde o edital ou a modelagem da PPP.

O foco deixa de ser a simples compressão do investimento inicial e passa a ser a construção de um ativo economicamente equilibrado ao longo de todo o seu ciclo de vida, considerando custos de manutenção, eficiência energética, durabilidade e impacto ambiental. Decisões tomadas nessa fase definem não apenas o CAPEX, ou seja, os investimentos em bens de capital, mas a trajetória futura de geração de caixa do empreendimento.

Na cadeia de suprimentos, o Mapa de Fluxo de Valor (MFV) torna visíveis ineficiências que frequentemente permanecem ocultas no ciclo de compras: da cotação à negociação, da formalização contratual às aprovações em múltiplas alçadas. Em obras lineares que atravessam estados com regimes tributários distintos e exigências regulatórias específicas, a complexidade administrativa introduz variabilidade relevante no fluxo de materiais e serviços. Essa variabilidade não afeta apenas o cronograma; ela gera custo indireto, mobilizações desnecessárias e consumo de contingências financeiras, impactando a rentabilidade do projeto tanto quanto os desafios técnicos de campo.

O Gerenciamento Diário (GD), estruturado de forma multidisciplinar já na fase preparatória, cria um mecanismo sistemático de monitoramento e resolução rápida de desvios, reforçando a estabilidade do fluxo de insumos críticos. Em projetos com frentes geograficamente dispersas, como rodovias, ferrovias e linhas de transmissão, pequenas rupturas logísticas tendem a se amplificar. Ao tornar problemas visíveis em tempo real e estabelecer rotinas de correção imediata, o GD reduz a probabilidade de paralisações, preserva a cadência produtiva e protege o cronograma contratual.

Variabilidade operacional: logística, clima e escala territorial

A dimensão continental do Brasil impõe desafios logísticos estruturais. Em obras rodoviárias ou ferroviárias, deslocamentos internos entre canteiros e frentes de trabalho podem consumir até 25% da jornada produtiva, sobretudo em regiões de acesso complexo. Quando o sistema de planejamento é frágil, perdas por espera, movimentação desnecessária e reprogramações emergenciais deixam de ser eventos pontuais e passam a compor o custo recorrente da operação. O resultado é variabilidade elevada, redução de produtividade efetiva e pressão direta sobre prazo e margem.

A abordagem lean não trata essa variabilidade como fatalidade geográfica, mas como falha de sistema. Ferramentas como o Last Planner System (LPS) e a Linha de Balanço estruturam o planejamento a partir do compromisso das equipes de campo, permitindo balancear recursos, reduzir conflitos entre frentes e estabelecer fluxo contínuo de execução. Mais do que produzir cronogramas detalhados, elas aumentam a confiabilidade das promessas operacionais e elevam o Percentual de Planos Concluídos (PPC) — indicador que, em implantações maduras, pode superar 80%. A consequência direta é menor replanejamento emergencial, maior previsibilidade diária e redução consistente da variabilidade que corrói prazo e margem.

Eventos climáticos adversos, como chuvas intensas, calor extremo e enchentes sazonais, introduzem incerteza adicional em cronogramas já pressionados. Sem mecanismos estruturados de resposta, interrupções pontuais rapidamente se tornam efeitos em cadeia sobre frentes subsequentes. O planejamento de curto prazo com a programação semanal e o GD atuam como sistema de contenção, permitindo reprogramações táticas, realocação de equipes e priorização de atividades sem comprometer o plano macro do empreendimento.

Da mesma forma, a aplicação do conceito de just-in-time à gestão de materiais pesados, como vigas pré-moldadas, dormentes e aduelas, reduz capital imobilizado em estoque e diminui a exposição a perdas logísticas. Em contratos de longo prazo, menor estoque não representa apenas eficiência operacional, mas melhoria direta na estrutura financeira do projeto e maior proteção do fluxo de caixa.

Integração entre lean e Building Information Modeling (BIM)

A digitalização amplia o alcance do sistema de gestão ao transformar informação técnica em instrumento de controle econômico. A integração entre lean e o Building Information Modeling (BIM) permite simular custos, prazos e interferências ainda na fase de projeto, conectando o planejamento ao modelo 4D e antecipando conflitos antes que se materializem no canteiro. Estudos nacionais em projetos lineares indicam que essa integração pode reduzir retrabalho em até 30% ou 40% e elevar de forma consistente a previsibilidade dos cronogramas.

Em concessões de longo prazo, cada retrabalho evitado ainda na fase virtual preserva contingências financeiras e protege o ROI ao longo de décadas. A metodologia BIM Integrada a um sistema lean disciplinado transforma previsibilidade técnica em estabilidade econômica e reduz de forma consistente a exposição ao risco contratual.

Produtividade, mão de obra e estabilidade do canteiro

Levantamentos recentes indicam que cerca de 90% das empresas do setor enfrentam dificuldades para contratar ou reter profissionais qualificados. A idade média da força de trabalho aproxima-se dos 40 anos, sem renovação proporcional capaz de sustentar o ritmo do novo ciclo de investimentos. Esse desequilíbrio demográfico introduz risco estrutural de capacidade produtiva. Nesse contexto, elevar a produtividade por trabalhador deixa de ser objetivo operacional e passa a ser imperativo econômico para preservar prazos, controlar custos e proteger margens.

O trabalho padronizado, aliado a planejamento confiável e à remoção sistemática de restrições operacionais, cria ambientes mais estáveis e previsíveis. Organizações que conseguem antecipar obstáculos e reduzir variabilidade diária registram menor absenteísmo e maior retenção de profissionais qualificados. A estabilidade do sistema diminui improvisações e sobrecarga episódica, fatores que frequentemente aceleram rotatividade. Nesse contexto, produtividade deixa de ser apenas variável técnica de eficiência e passa a constituir elemento estratégico de atração e permanência de talentos.

Liderança e disciplina operacional

A consistência de um sistema lean depende, em última instância, da qualidade da liderança. Mais do que supervisionar operações, líderes assumem a responsabilidade de estruturar o sistema de gestão, garantindo coerência entre diretrizes estratégicas e execução cotidiana. Técnicas como o Pensamento A3, o ciclo PDCA e a prática contínua de kaizen disciplinam a resolução científica de problemas e fortalecem decisões baseadas em fatos.

Nesse contexto, a presença frequente no gemba, o local onde o valor é efetivamente gerado, torna-se elemento central da governança operacional. Não se trata de visitas ocasionais, mas de prática contínua de observação direta, diálogo técnico e verificação empírica das condições reais de trabalho. É no gemba que inconsistências se tornam visíveis antes de se converterem em atrasos ou consumo de contingências financeiras. A proximidade reduz assimetria de informação, acelera correções e fortalece a responsabilidade técnica em todos os níveis.

Governança, métricas e criação de valor sustentável

Com a predominância do capital privado, indicadores deixam de ser instrumentos internos de controle e passam a compor a arquitetura formal de governança do projeto. Métricas como o Índice de Desvio de Prazo (IDP), o Índice de Desvio de Custo (IDC) e o Retorno sobre o Investimento (ROI) projetado versus realizado são acompanhadas por comitês de investimento, credores e, em muitos casos, por estruturas independentes de auditoria. Elas não apenas registram desempenho; sinalizam risco e influenciam decisões futuras de financiamento.

Indicadores de processo, como o Percentual de Planos Concluídos (PPC), cumprem função igualmente estratégica. Sua deterioração costuma anteceder desvios econômicos relevantes, permitindo intervenções corretivas antes que impactos financeiros se consolidem. Governança eficaz depende dessa integração entre métricas operacionais e resultados econômicos.

A redução sistemática de desperdícios de materiais, retrabalho e consumo energético conecta eficiência operacional às exigências ambientais, sociais e de governança (ESG). Menor utilização de recursos implica menor emissão, menor geração de resíduos e menor exposição regulatória e reputacional. Em um mercado no qual critérios ESG influenciam alocação de capital e precificação de risco, desempenho operacional consistente passa a integrar diretamente a avaliação financeira do empreendimento.

Que não desperdicemos essa oportunidade!

O ciclo atual de infraestrutura no Brasil não é apenas volumoso. É estruturalmente distinto. Com predominância de capital privado, contratos passam a operar sob lógica de risco e retorno ajustado. Em concessões de 25 a 35 anos, cada desvio na fase de implantação compromete a trajetória futura da geração de caixa. Gestão estruturada, nesse contexto, não é agenda interna de melhoria contínua. É mecanismo de proteção do fluxo financeiro, da credibilidade contratual e do custo de capital.

Empresas que entregam previsibilidade reduzem percepção de risco. E risco menor se traduz em financiamento mais competitivo, maior capacidade de alavancagem e vantagem estratégica sustentável. O novo ciclo da infraestrutura brasileira será, acima de tudo, de seleção organizacional. A maturidade gerencial deixará de ser atributo desejável e se tornará condição de permanência.

Infraestrutura é ativo estratégico nacional. Viabilizar economicamente isso dependerá, cada vez mais, da capacidade das organizações em operar com método, disciplina e visão sistêmica. Quem internalizar essa lógica consolidará posição nos próximos anos. Quem não o fizer enfrentará, inevitavelmente, erosão competitiva.

Fonte: Lean Institute Brasil
Publicado em 04/03/2026

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