A filosofia lean segue conquistando o interesse e o entusiasmo de empresas de novos setores e atividades econômicas. Ao longo de mais de três décadas, temos testemunhado a disseminação dos conceitos lean partindo da indústria automobilística e se espalhando por todo o setor industrial, até, mais recentemente, atingir o setor de serviços.
Embora ainda tenhamos poucos exemplos de entendimento profundo e aplicação em toda a empresa, mesmo em empresas pioneiras, notamos a crescente expansão do lean para novos setores.
Em abril de 2012, já havíamos abordado essa expansão das fronteiras. Havíamos identificado algumas novas áreas promissoras em que tinha um interesse crescente, a saber, startups, TI, saúde, serviços financeiros e médias e pequenas empresas.
Nesses setores, temos efetivamente testemunhado significativo progresso.
O movimento do lean startup e a disseminação do lean no setor de TI, tanto como área ou departamento de grandes empresas como o próprio setor (software etc.), têm avançado no Brasil. O leanmail anterior mostrou como está sendo construído o conhecimento lean no setor de TI, partindo de várias abordagens e enfoques, assim como alguns exemplos concretos (1).
Já a área da saúde tem visto florescer iniciativas lean no Brasil e em vários países do mundo. Lançamos o livro "Em Busca do Cuidado Perfeito", do Dr. Carlos Frederico Pinto, com exemplos concretos de uma clínica brasileira. O crescente interesse e os resultados favoráveis das experiências iniciais nos leva a crer que o movimento lean na saúde vai se consolidar e continuar crescendo (2). Esperamos, inclusive, poder avançar na administração pública do setor de saúde, onde as oportunidades e necessidades são ainda maiores.
A disseminação na área de serviços (financeira, de seguros, CSCs etc.) segue se consolidando, com o aprendizado das empresas se fortalecendo, e os resultados iniciais impressionando a direção dessas empresas.
Já a expansão em médias e pequenas empresas, muitas vezes, depende de iniciativas da área de compras ou “supply chain” de grandes empresas procurando ampliar a competitividade de sua cadeia de fornecimento mais do que iniciativas dessas próprias empresas.
Em todos esses novos setores para o lean, os promissores resultados iniciais sugerem que essa dinâmica tenderá a se reforçar no futuro.
Mais recentemente, temos notado iniciativas se multiplicando em outros setores que não havíamos notado antes, como tem sido a acentuada expansão no setor de construção civil e os primeiros experimentos no setor público no Brasil.
Há mais de uma década, tem havido um esforço lean na indústria de construção em vários países. Com um enfoque inicial limitado, muito focalizado em algumas ferramentas lean, mais recentemente essas iniciativas têm se aprofundado e abordado os vários processos na construção. É possível que ocorra grande progresso nesse setor nos próximos anos.
Por outro lado, os primeiros experimentos no setor público no Brasil começam a ocorrer (3). Em outros países, as experiências se proliferam (4). Apesar de existir uma pressão forte da sociedade reclamando uma maior eficiência do setor público em geral, isso ainda não foi capaz de ser traduzido na criação de uma “plataforma para mudança” efetiva dentro do setor. Ainda parecemos viver a fase inicial de ceticismo, em que emergem as ideias do “aqui é diferente”, “lean não se aplica aqui” etc.
As empresas desses novos setores serão beneficiadas pelo aprendizado dos setores mais amadurecidos em lean ao mesmo tempo em que, elas próprias, têm desenvolvido algumas iniciativas específicas que podem beneficiar até mesmo os setores mais maduros.
O poder do lean como filosofia e estratégia de negócios (5) torna-se mais visível agora, na crise do setor automotivo que, no primeiro semestre, caiu em 20%, no mercado, enquanto as vendas da Honda e Toyota, empresas referência em lean cresceram cerca de 10%. As outras montadoras ainda tendem a utilizar primordialmente apenas as ferramentas, em particular na manufatura.
Continuamos preocupados com o ritmo lento da disseminação além das áreas de operação. Esperamos poder ampliar as iniciativas nas áreas de vendas e marketing, compras e desenvolvimento de produtos e que a relação entre lean e o meio ambiente (“lean & green) se torne cada vez mais explícita (6).
Acreditamos que a tendência de espalhar a filosofia lean pela empresa toda tende a crescer nos próximos anos, inclusive nesses novos setores que estão expandindo as fronteiras do lean e que um entendimento cada vez maior dos princípios e premissas essenciais deve acontecer.
José Roberto Ferro
Presidente
Lean Institute Brasil
PS1: O Lean Summit IT, que será realizado no dia 28 de outubro em São Paulo, vai trazer alguns dos mais importantes especialistas em Lean IT no mundo, como Mary Poppendieck, Pat Reed, Tom Poppendieck, entre outros, além de vários casos concretos de aplicação, como das empresas CI&T, Spotify, Dell, Embraer e Lean IT 101.
PS2: O II Lean Summit Saúde, que acontecerá no dia 3 de dezembro, trará novos casos e exemplos, além da contribuição de Kim Barnas, autora do livro “Além de Heróis”, nosso próximo lançamento previsto para novembro.
PS3: A experiência inicial da IMA (Informática de Municípios Associados), ligada à prefeitura de Campinas, será apresentada no Encontro Lean Campinas, que acontecerá no dia 17 de setembro, juntamente com apresentações dos casos da 3M, CSC Camargo Correia, GKN, Bosch, Siemens e WABCO.
PS4: Publicamos vários exemplos de aplicação lean no setor público em vários países na minha coluna, “Enxuga Aí”, na revista Época Negócios Online: "Gestão pública tem jeito", "Política pode melhorar com a gestão empresarial", "Governo simples, rápido, melhor e menos gastador. Brasil? Não, Ohio!", "Lean na gestão pública: A experiência dos países baixos", "Lean na gestão pública: O caso Melbourne".
PS5: Veja artigo publicado na Época Negócios Online: "Por que Toyota e Honda vencem na crise".
PS6: 6. A apresentação da GKN no Encontro Lean Campinas focalizará no tema lean e sustentabilidade.