Desenvolvimento de produtos e processos

Três estratégias para reutilizar o conhecimento do produto


Desenvolver novos produtos de forma mais rápida que os competidores pode definir o sucesso ou o fracasso de uma empresa. Os autores compartilham três estratégias para reutilizar nosso conhecimento de engenharia e construir uma vantagem competitiva.

José Roberto Ferro
Fernando Rodrigues

O mercado altamente competitivo de hoje requer que as empresas se engajem em um desenvolvimento mais rápido de tecnologias ao mesmo tempo em que mantêm os custos sob controle, a fim de lidar com uma pressão cada vez maior das demandas de clientes cada vez mais elaboradas. 

Reutilizar o conhecimento é uma das abordagens mais úteis para reduzir os ciclos de tempo de lançamento no mercado, para diminuir riscos e custos e para aumentar as chances de sucesso. 

Como podemos ver, se compararmos uma abordagem que não foca em reutilizar o conhecimento previamente desenvolvido (A) com outro que enfatiza a reutilização do conhecimento (B), podemos enxergar duas alternativas claras emergindo ao final do desenvolvimento do ciclo do Produto A, que é o momento de desenvolver um novo produto (Produto B): 

  • O conhecimento gerado com o desenvolvimento do Produto A não foi capturado e utilizado. A empresa provavelmente terá de aprender a preencher todas as lacunas desde o começo, resultando em um processo muito mais lento e caro. 
  • O conhecimento do Produto A foi capturado e armazenado, então é possível criar o (novo) Produto B sem ter que começar do zero, resultando em um lançamento muito mais rápido através da reutilização do conhecimento. 

Estratégias para o conhecimento reutilizável

Identificamos três principais estratégias para aprender como reutilizar, de forma consistente e efetiva, o conhecimento criado nos desenvolvimentos anteriores: utilizar o conhecimento que vem de fora da empresa, utilizar o conhecimento que vem de dentro da empresa ou esforços para reutilizar o conhecimento no contexto de geração de um conhecimento completamente novo. 

  1. Utilizar o conhecimento fora da empresa. Outras empresas do mesmo mercado ou até mesmo de setores muito diferentes podem ser a fonte do conhecimento. Tentar alcançar esses competidores para acelerar nossa curva de aprendizagem é uma estratégia reativa comum, frequentemente a forma mais rápida de identificar e implantar tecnologias maduras que possam ser utilizadas no desenvolvimento de um novo produto. Por exemplo, uma tecnologia utilizada no setor aeroespacial pode ser usada para reduzir o tempo e o investimento no desenvolvimento de um produto para a indústria de óleo e gás. O lado negativo desta abordagem é que essas tecnologias são normalmente de domínio público e raramente fornecem uma vantagem competitiva única. 
  2. Implantar o conhecimento interno adquirido com os desenvolvimentos anteriores. O conhecimento bem compreendido e testado nos desenvolvimentos anteriores permite que você imediatamente alavanque e reutilize os processos e tecnologias maduros que são parte da propriedade intelectual da empresa. Há muitos exemplos disso, como empresas automotivas que compartilham o mesmo chassi em diferentes carros de sua linha. Apesar de haver muitos benefícios instantâneos, essa abordagem não traz novidades por ser uma tecnologia que já existe no mercado e que pode ser copiada pelos competidores. 
  3. Estimular a reutilização do conhecimento dentro da geração de novos conhecimentos. Ao utilizar a abordagem de inovação da engenharia simultânea com múltiplas alternativas (SBCE) — um sistema que gera múltiplas soluções possíveis durante o processo de desenvolvimento (o oposto do sistema tradicional baseado em uma única alternativa) —, é possível criar avanços potenciais dentro de ciclos múltiplos de desenvolvimento. Como na engenharia simultânea com múltiplas alternativas várias ideias são desenvolvidas ao mesmo tempo, cada novo desenvolvimento cria diversos novos conceitos que não serão adequados para a situação em questão. Essas soluções podem, entretanto, continuar sendo trabalhadas e testadas para serem reutilizadas em ciclos futuros de desenvolvimento de novos produtos. Esta abordagem dá à empresa a maior chance de desenvolver uma vantagem competitiva e até mesmo criar uma revolução no mercado.

O corpo de conhecimento que construímos deve ser de fácil acesso, visível e fornecer informações claras, o que se torna crítico quando, por exemplo, precisamos entender os efeitos no design de um parâmetro específico sendo alterado.

Uma boa solução para capturar o conhecimento de forma fácil de usar é representada pelas curvas de trade-off (ToC). Isso nos ajuda a definir a melhor alternativa na presença de elementos conflitantes, quando a escolha de uma opção impacta a outra. Isso permite que uma equipe reutilize o conhecimento que poderia ser perdido. O exemplo de trade-off abaixo ilustra os limites de um sistema de escapamento de carro específico entre o nível de ruído e a pressão traseira, que reduzem o desempenho do motor. Em uma folha simples, os engenheiros podem avaliar os dois parâmetros e selecionar o que se encaxaria melhor em seu projeto.

ALGUMAS RECOMENDAÇÕES

A reutilização do conhecimento deve ser um elemento-chave de qualquer estratégia de desenvolvimento de produto para criar um novo valor para os clientes. As empresas devem torná-la uma prática comum em seu trabalho de desenvolvimento, sempre considerando as oportunidades de reaproveitar o conhecimento existente e desenvolvendo algo novo somente quando necessário.

O melhor momento para avaliar essas oportunidades e definir uma estratégia de reutilização é a fase de estudo, quando as principais decisões e suposições são tomadas. É quando uma pequena equipe se concentra em entender profundamente as necessidades e os problemas do cliente e apresenta ideias em torno da nova visão do produto e dos recursos específicos desejados. O resultado deste trabalho é o Concept Paper (em inglês).

Após definir a visão do produto, o escopo e os recursos, o líder do projeto – junto com os patrocinadores seniores – pode decidir quais experimentos devem ser realizados para gerar o aprendizado necessário, quais serão as fontes de conhecimento (internas ou externas) usadas e quanto conhecimento pode ser reutilizado para fornecer o máximo valor para o cliente.

Uma fase sólida de estudo pode definir a agenda para a reutilização do conhecimento e reduzir as chances de desperdícios e incerteza prejudicarem o desenvolvimento de um novo produto quando o que precisa ser aprendido não foi claramente definido.

Fonte: Planet Lean.

Sobre os autores

José Roberto Ferro é o fundador do Lean Institute Brasil.

 

Fernando Rodrigues é Gerente do Sistema de Engenharia e Front End na TechnipFMC.


Publicado em 28/08/2020

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