TI

A jovem firma alcançando o potencial do lean no mundo digital


A empresa de desenvolvimento de software Theodo é um exemplo único de uma empresa digital que abraçou completamente o lean e entendeu seu potencial. Conversamos com seus jovens CEO e CTO.

Enoît Charles-Lavauzelle
Fabrice Bernhard

Planet Lean: O que significa inovação para Theodo?

Benoît Charles-Lavauzelle: Para nós na Theodo, toda melhoria significa inovação. Realmente tem a ver com respeitar o trabalho de todos: uma mudança efetiva é difícil e todo avanço que conseguimos merece ser chamado de inovação. O que estamos dizendo em contrapartida? Que muitas das melhorias que nosso pessoal inventa não são tão boas e significativas quanto poderiam ser?

Esse é um debate interessante. A inovação é disruptiva ou incremental? Não sei a resposta exata para isso, mas acho que toda inovação - mesmo a mais disruptiva - é o resultado de incontáveis processos e elementos (tecnologia, por exemplo) nos quais nossos cérebros se inspiram. Sorrio toda vez que vejo pessoas sendo super segredistas sobre “essa ideia para o novo negócio disruptivo” que elas tiveram apenas para chamar essa futura empresa revolucionária de “o uber da” qualquer indústria que seja.

PL: Empresas jovens e digitais como startups normalmente não sabem muito sobre lean. Por que você acha que isso acontece?

Fabrice Bernhard: Com seu livro “A Startup Enxuta”, Eric Ries tornou a palavra “lean” muito popular no mundo digital. Apesar da startup lean estar muito longe dos princípios lean tradicionais, no momento, os dois conceitos se tornaram sinônimos no mundo das startups e das empresas digitais. E isso é um grande mal-entendido!

BCL: Acho que podemos usar essa situação a nosso favor entretanto, tentando esclarecer o que o lean defende e ajudar as startups a enxergar como ele pode apoiá-las.

FB: Outra coisa (que discutimos com Michael Ballé) é que o lean ajuda as empresas a escalonar e crescer em rentabilidade, mas não temos certeza se um ambiente de capital de risco como a Silicon Valley particularmente compatível com o lean enquanto abordagem.

BCL: Esse é um ponto interessante. Capitalistas de risco não se importam com o desperdício. Na verdade, eles vivem com isso todo o tempo: seus empregos são investir em, digamos, 10 empresas de uma vez, nove das quais invariavelmente entrarão em colapso. Isso é louco! 


Aplicar o lean à codificação é, na verdade, muito difícil, pois enxergar o trabalho é difícil


Para voltar a sua pergunta, contudo, acho que existe outra coisa que torna difícil para empresas digitais entender completamente o “verdadeiro” lean: o fato de que aplicá-lo à codificação é, na verdade, muito difícil, pois enxergar o trabalho é difícil. Ninguém ainda entendeu - não tenho certeza se alguém já tentou, ainda mais o tanto que estamos tentando -, mas, na Theodo, esperamos entender como codificar tão bem quanto a Toyota fabrica carros. Fale conosco mais uma vez daqui a um ano, e esperançosamente teremos conseguido alguns avanços.


Na Theodo, esperamos entender como codificar tão bem quanto a Toyota fabrica carros


PL: Estaremos de olho em vocês! Enquanto isso, entretanto, o que você aprendeu sobre a contribuição que o lean pode fazer para empresas digitais?

BCL: O mundo digital tem mais desperdício que você pode imaginar. Recentemente, estava conversando com alguém que trabalha para um grande banco francês, quem me disse que acabaram de descobrir que apenas 25% das funcionalidades de seu aplicativo era regularmente usadas por seus clientes.


No mundo digital, precisamos do lean, porque ainda estamos na idade média


No mundo digital, precisamos do lean, porque ainda estamos na idade média. Não temos que reinventar a roda - o lean foi trazido com sucesso para quase já todos os outros setores -, mas precisamos entender como criar mais valor para os clientes e como melhorar de forma mais rápida enquanto empresas de software. O modelo atual não é sustentável, e não há dúvidas de que a codificação será muito diferente daqui alguns anos.

FB:  Aqui está outra coisa interessante: mais e mais pessoas estão agora falando sobre codificação em termos de “artesanato de software” em vez de “desenvolvimento de software”, como uma forma de reconhecer a natureza não estruturada de nosso trabalho. Essa ideia realmente me ajudou a conectar os pontos, já que leio mais e mais livros sobre transformações lean: de fato, o que temos no momento são grupos de artesãos sem uma estrutura própria. O que precisamos a seguir, entretanto, é tanto o artesanato como a estrutura… e o lean é a única forma para chegarmos lá.

BCL: Verdade. De fato, isso é o que o kaizen significa para nós: uma abordagem estruturada para inovação baseada em equipe que acontece em paralelo com o alcance do domínio total do trabalho.

PL: O que a comunidade lean poderia fazer para atrair mais do público jovem e ajudá-los a enxergar o tamanho da contribuição que ele pode dar a startups?

BCL: Em primeiro lugar, entender melhor o que a Amazon, o Facebook, a Apple e a Google estão fazendo. Essas são as empresas sobre as quais os jovens estão interessados em escutar, e elas estão fazendo muito do pensamento lean, ainda que não no mesmo nível de maturidade que a Toyota. A Amazon é, talvez, o melhor exemplo, como aprendemos em uma recente entrevista do Planet Lean com Marc Onetto (em inglês).

PL: Como desenvolvedor de software, o scrum é necessariamente uma grande parte da forma que vocês organizam o trabalho. Baseado no que você aprendeu até agora, quais são as deficiências do scrum que o lean pode superar?

BCL: Tem tantas! O movimento ágil cobre uma pequena parte do que o lean pode permitir que uma empresa faça. Usamos muito disso em nossa empresa, mas também temos muita consciência sobre onde ele fracassa. Por exemplo, uma equipe de scrum pode trabalhar com lotes menores de código, mas isso ainda é lote. Eles podem fazer retrospectivas, mas não aprendem solução estruturada de problemas. Eles podem (com razão) acreditar que equipes autônomas sejam melhores do que uma gestão problemática, mas eles não se engajam em um verdadeiro kaizen  de equipes. A lista continua.


Fundamentalmente, o que o lean te dá que o movimento ágil não consegue é uma base para a aprendizagem


FB: Concordo. Fundamentalmente, o que o lean te dá que o movimento ágil não consegue é uma base para a aprendizagem. Foi isso que percebemos na Theodo, e é nisso que estamos construindo nosso trabalho.

Benoît Charles-Lavauzelle é cofundador e CEO da Theodo. Fabrice Bernhard é  CTO na Theodo.

Fonte: Planet Lean.


Publicado em 28/02/2018

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