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“Trabalhar aprendendo” é a chave para gerar qualificação necessária às empresas

Flávio Augusto Picchi
“Trabalhar aprendendo” é a chave para gerar qualificação necessária às empresas
Para isso acontecer, as companhias devem construir um ambiente de permanente aprendizado - para as pessoas e para as próprias empresas

"Trabalhar apreendendo" é a melhor forma de gerar qualificação



O Brasil vai precisar qualificar 9,6 milhões de trabalhadores até 2025 para atender as necessidades das empresas. Isso é o que previu o Mapa do Trabalho Industrial 2022-2025, divulgado recentemente pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Claro que necessidade similar, ou maior, está também no setor de serviço.

Qualificar as pessoas para o trabalho sempre foi um desafio não só para as companhias, mas para a sociedade como um todo.

Nesse caso, há um papel essencial da gestão. E temos um “olhar lean” muito específico sobre isso que, em resumo, evidencia que uma das melhores formas de qualificar os indivíduos é criando condições para que eles possam concretamente aprender trabalhando.

No sistema lean, antes de uma pessoa começar a efetivamente trabalhar num determinado posto, ela precisa passar por um treinamento muito mais intenso e maior do que ocorre nas organizações com gestão mais tradicional. A ideia é que, antes de assumir seu cargo, ela tenha um aprendizado profundo sobre o que vai realizar.

Esse treinamento, porém, não pode ser apenas teórico ou conceitual. Ele ocorre no que chamamos de dojo, termo utilizado em artes marciais que significa um local que simula postos de trabalho, onde a pessoa vai aprender fazendo, na prática, a atividade que vai realizar.

Em seguida, quando começar a trabalhar de fato, o aprendizado não para; ao contrário, ele se intensifica ainda mais.

Na gestão lean, os processos de trabalho ocorrem no que chamamos de células, que são grupos pequenos que fazem determinados tipos de processos, sejam em fábricas ou escritórios.

Um conceito lean de formação implica em desenvolver a multifuncionalidade. As pessoas de uma célula, podendo desempenhar diferentes atividades, conseguem redistribuir o trabalho da forma mais produtiva, o que gera flexibilidade para atender a diferentes demandas e situações.

Além disso, o líder (que precisa estar no gemba, vendo de perto o trabalho de sua respectiva célula) tem maior capacidade de acompanhar de forma muito mais próxima as atividades de cada um e, assim, apoiar as pessoas para que aprendam a cada dia.

Outro conceito tipicamente lean que gera aprendizado cotidiano é o que chamamos de cadeia de ajuda.

Por exemplo, quando uma pessoa percebe um problema, ela aciona um andon, um dispositivo que deve deixar claro para todos – líderes e liderados – que há um desvio que precisa ser resolvido.

Isso, então, desencadeia um processo de ajuda a quem revelou o problema, para que o desvio possa ser investigado e analisado quanto às causas raízes, gerando experimentação de soluções, seguindo o método científico.

E por falar em problemas, são justamente os problemas que se tornam uma usina de aprendizado numa empresa que segue a gestão lean. Nesse sistema, a base do trabalho de todas as pessoas é buscar, cotidianamente, revelar e resolver desvios de forma estruturada.

Por exemplo, através do Gerenciamento Diário, em que as equipes se encontram cotidianamente para discutir e resolver problemas de forma organizada. Ou em ações kaizen, que são melhorias rápidas e pontuais em determinados processos, sempre feitas por times…
Esses processos e diversos outros fundamentos do sistema lean geram profundos aprendizados cotidianos, que vão se disseminando e solidificando como um conhecimento coletivo na organização.

Treinamentos em formatos tradicionais continuam tendo seu papel, mas a prioridade e a ênfase na forma lean de desenvolver pessoas traz várias vantagens. Ela ocorre de maneira prática, muito mais integrada ao trabalho e baseada na interação cotidiana dos líderes com as equipes, na resolução de problemas concretos. Com isso, é possível construir um ambiente de permanente aprendizado das pessoas e da organização.

Publicado em 02/06/2022

Autor

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.