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"Mais e melhor lean" para aumentarmos a produtividade de nossas empresas e de nosso país

Flávio Augusto Picchi e Flávio Battaglia
"Mais e melhor lean" para aumentarmos a produtividade de nossas empresas e de nosso país
Ano de debates nacionais é momento importante para repensarmos como a melhoria da produtividade, estagnada há anos, é fundamental para o desenvolvimento do Brasil. E como o sistema lean pode alavancar esse objetivo

O ano que começa promete ser de intensos desafios. E até pelo processo eleitoral que se aproxima, teremos oportunidades para discutir e quem sabe aprofundar possíveis soluções para enfrentar problemas antigos e cada vez mais estratégicos para o Brasil.

Um deles é certamente a necessidade de se aumentar o crescimento econômico do país. A economia brasileira patina há tempos. Nosso Produto Interno Bruto (PIB), por exemplo, cresceu a uma taxa média de 0,3% ao ano na última década, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Claro que se trata de um problema com múltiplas causas, tanto históricas, como o chamado custo Brasil ou as infraestruturas precárias, quanto as mais atuais e emergentes, como as dificuldades impostas pela pandemia.

No entanto, há um fator que está diretamente ligado às empresas: a estagnação da produtividade.

Trata-se de um indicador em que o Brasil também anda de lado há anos. Pesquisa recente da FGV mostrou que a produtividade brasileira cresceu apenas 1% de 1995 a 2018. Ganho de produtividade em nível nacional significa aumentarmos nossa capacidade de gerar riqueza e ampliar investimentos, público e privados.

Nesse sentido, cabe refletir: como a gestão pode ajudar as organizações para que elas possam dar um efetivo e real salto de produtividade tão necessário hoje ao Brasil? Seguem alguns pontos para nossa reflexão.

 

Lean em mais empresas... e melhor!

Em primeiro lugar é preciso intensificar a disseminação lean pelas organizações.

Embora esse modelo de gestão já não seja mais uma novidade, boa parte das companhias brasileiras sequer iniciou a jornada lean. E, é claro, quanto mais organizações de todos os setores “descobrirem” o lean, maior será o incremento de produtividade de nosso país.

Para tanto, é preciso intensificar e ampliar a disseminação. E cabe aos executivos em funções de alta liderança buscar essa informação, entender em profundidade a maneira lean de fazer gestão, criar meios para introduzir e desenvolver as estruturas organizacionais necessárias para levar as práticas lean para todos os níveis e funções das organizações.

No entanto, não é mais suficiente apenas termos mais empresas que adotam lean. É necessário também um salto de qualidade. Muitas companhias que hoje implementam o lean estão em fase inicial. E mesmo as que já estão há mais tempo na jornada ainda precisam aprofundar e consolidar a transformação.

Nesse sentido, é preciso superar definitivamente a “visão instrumental” ou, por exemplo, aquela que vê o sistema lean como o responsável por promover “melhorias pontuais”.

Muito diferente disso, é necessário ver a adoção desse modelo como a mudança estratégica de todo o sistema de gestão da empresa. A companhia precisa “respirar lean”, tendo esse modelo como fundamento, do topo à base. Como início, meio e fim.

 

Lean como elemento transformador das cadeias produtivas

Mais poderoso do que adotar o sistema lean numa empresa específica é pensar esse processo de forma mais abrangente, ou seja, ao longo de uma cadeia produtiva inteira. Para isso, é preciso trabalhar para implementar esse modelo de ponta a ponta.

Por exemplo, numa cadeia de produção industrial, adotar a gestão lean de forma integral, desde os produtores das matérias-primas, passando por toda logística intermediária, pelas diferentes fases de transformação até a comercialização e distribuição dos produtos aos clientes finais.

Para isso, é necessário que os agentes da cadeia tenham essa visão macro e trabalhem para isso. Em termos práticos, uma jornada lean se tornará muito mais eficiente se, por exemplo, uma empresa atuar para, além de seus próprios domínios, ampliar a transformação junto a seus fornecedores e parceiros.

 

Lean como fator estratégico para inovação

A capacidade de inovar se tornou não só um fator estratégico, mas também de sobrevivência básica para a maior parte das organizações. Cada vez mais os consumidores estão exigindo ou preferindo empresas que inovam em seus produtos, serviços e formas de relacionamentos, oferecendo novas e mais completas experiências.

Processos mais robustos e eficazes de inovação ocorrem quando há uma mentalidade de gestão que propicie isso. Por exemplo, criando e fortalecendo uma cultura dentro da organização que estimule todas as pessoas a resolver problemas de maneiras criativas e sustentáveis.

 Isso pode acontecer de forma sistemática em diversos níveis, por exemplo, quando todos, cotidianamente, questionam o que é valor para o cliente e reavaliam a maneira como trabalham, assim como os processos nos quais estão inseridos, buscando, juntos, melhorar tudo isso. Essa é a essência do lean. Ela cria mecanismos diários de avaliação do que o cliente espera e mobiliza todos para pensarem novas e melhores formas de atendê-lo.

 

Processos mais eficientes com lean

Melhorar os processos continuamente é a chave para aumentar a produtividade. Para tanto, ainda não inventaram um caminho melhor: potencializar a capacidade humana de resolver problema e aperfeiçoar processos de maneira consistente ao longo do tempo.

Isso significa trabalhar para que toda a empresa, todos os dias, revele e compartilhe desafios, buscando idealizar e experimentar soluções pelo método científico, tendo sempre como base a busca por criar mais valor para o cliente.

Essa é a face mais visível do lean, com todas as suas técnicas e abordagens para gerar resultados comprovados e propiciar verdadeiros saltos de produtividade em organizações dos mais variados setores.

 

Lean para o desenvolvimento das pessoas

Para realizarmos tudo isso, há um caminho também já conhecido, mas pouco trilhado: desenvolver as pessoas para que cada integrante de uma organização seja um “motor” para o aumento da produtividade.

Precisamos de líderes que abandonem definitivamente o estilo “comando e controle” e mergulhem no desafio de desenvolver pessoas. Ou seja, líderes que, com o respeito necessário, busquem ouvir, entender e apoiar liderados nesse processo da evolução permanente.

Por outro lado, é preciso haver liderados que rejeitem posturas passivas de se acomodar aos mesmos processos de sempre, aceitem os desafios de rever seus trabalhos e busquem ativamente expor problemas, entender profundamente suas causas e experimentar soluções criativas, inovadoras e mais efetivas.

Esses são somente alguns pontos de reflexão para esse importante debate num ano de discussões sobre as grandes questões nacionais. No atual contexto brasileiro, a baixa produtividade é um dos problemas que afetam o desenvolvimento econômico e social, impactando a qualidade de vida de todos.

Nesse sentido, melhorar a gestão não é apenas algo restrito ao universo corporativo. Trata-se também de um imperativo social. E a comunidade lean tem grande contribuição a dar nesse sentido.

Publicado em 08/02/2022

Autores

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.
Flávio Battaglia
Vice-presidente do Lean Institute Brasil

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