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Segurança pública precisa acompanhar a corporativa

Que bom seria se a gestão pública tivesse a consciência, a preocupação e a ação sobre segurança como vejo em boa parte das empresas que visito

A recente morte de mais um trabalhador na obra do estádio do Corinthians, em São Paulo, pode reacender as discussões sobre segurança, não apenas na construção dos estádios, mas também em toda aparelhagem e estrutura que ainda precisam ser concluídas para a Copa do Mundo – pela falta de planejamento, que acabou gerando uma correria para tentar concluir o que for possível.

Há, porém, uma reflexão que deve ser feita sobre a situação da segurança nas empresas, em contraste com a pública. Independentemente de acidentes que ocorrem aqui e ali, que bom seria se a gestão pública tivesse a consciência, a preocupação e a ação sobre segurança como vejo em boa parte das empresas que visito.

A preocupação com a segurança nas companhias aumentou muito no decorrer dos anos, tanto no Brasil quanto no mundo. Hoje, cada vez mais, as empresas percebem que é necessário trabalhar também para reduzir os riscos inerentes aos processos produtivos, tanto por respeito à vida, mas também porque isso pode representar custos/desperdícios absolutamente desnecessários.

Outro dia, por exemplo, eu estava em uma empresa e tive a atenção chamada de forma dura, mas educada, por um segurança da portaria, sobre os procedimentos para caminhar nas faixas de pedestre dentro da companhia.

Consciente e nitidamente seguindo um planejamento de segurança, ele me alertou sobre a necessidade de circular com o farol do carro ligado e ainda acentuou a norma de não ultrapassar a velocidade máxima de 20 quilômetros por hora dentro da empresa.

Em outra, estavam há quase dois anos com “zero” acidente resultando em afastamentos. Em 2013, porém, tiveram três, sendo que dois resultaram em um dia de ausência de um colaborador, e o terceiro, sua ausência de algumas horas.

Para tanto, a empresa fez a lição de casa. Utilizou bastante tempo na definição de um plano estratégico para segurança, analisando causas, identificando situações de riscos, definindo metas, contramedidas e envolvendo, em tudo isso, gerentes e supervisores.

Assim, identificou em todas as atividades realizadas pela organização as possibilidades de risco, desde a operação da menor máquina até a movimentação de materiais, os armazenamentos e mesmo as atividades administrativas.

Outro exemplo dessa preocupação corporativa com a segurança são empresas que obrigam visitantes e fornecedores de primeira viagem a assistirem a um vídeo, seguido de um “teste” para medir o quanto foi assimilado sobre as normas e cuidados.

Fora das empresas, porém, em meio aos espaços públicos, gerenciados por diferentes governos, a preocupação com a segurança não parece ser tão forte.

É só dar uma olhada em nossas estradas interestaduais. Nem falo aqui das esburacadas e mal sinalizadas – quando existem sinais. Mas mesmo nas mais modernas e importantes não é incomum para viajantes costumeiros como eu encontrar “cones” abruptamente e inesperadamente colocados em uma das pistas, significando o fim da linha e a junção com outra. Nesses locais, então, é comum ver os sinais de pneus causados por freadas bruscas, o que sinaliza que ali ocorrem riscos constantes de acidentes que podem ter sido fatais.

Sem contar dos riscos de assaltos, roubos, tiroteios etc., cada vez mais comuns em nossas cidades.

Nesse contexto, a grande verdade é que o “ambiente público” hoje é assustadoramente cheio de riscos que permeiam o nosso dia a dia, em contraste com o ambiente privado em que mais e mais crescem a consciência, as normas, as políticas e as estratégias de gerenciamento e minimização de riscos.

Nem sempre foi assim, claro. No campo corporativo, o Brasil já chegou a ser um dos países com maior quantidade de acidentes. Mas o setor privado reagiu, fruto, inclusive, de maior pressão das legislações de segurança.

Nos anos 80, isso foi muito forte, por exemplo, na construção civil, que era alvo frequente de críticas por ser um setor em que muita gente morria no trabalho.

Em resumo, a impressão que se tem hoje é que a consciência das empresas sobre segurança aumentou muito, embora nem tanto nas pequenas organizações.

Estive recentemente no Chile com executivos do setor de mineração que procuram implementar os conceitos do pensamento enxuto (lean).

Foi curioso perceber a dúvida que eles tinham sobre o quanto o pensamento enxuto, que busca uma melhor eficiência nos processos por meio da eliminação de desperdícios e maior agregação de valor, poderia atrapalhar esforços que estavam sendo feitos para melhorar a segurança dos trabalhadores do setor.

Logo, porém, ficou claro para eles que não há nenhuma incompatibilidade nisso, muito pelo contrário. Estávamos falando da mesma coisa, pois para o pensamento enxuto (lean) não é possível ter uma busca por eficiência sem ter pleno respeito às pessoas, principalmente pelo maior “valor” que elas têm: a vida.

Nesse sentido, é bom deixar claro que a preocupação com a segurança não deve ser um simples “programa” ou “algo a mais” que uma empresa faz. Isso deve estar, sim, totalmente incorporado no DNA, nas práticas e nos valores cotidianos da organização.

E se conseguíssemos reproduzir na vida pública o que já acontece hoje em grande parte das grandes empresas e seus ambientes de trabalho, teríamos uma sociedade muito mais segura, melhor e mais produtiva também.

Fonte: Revista Época NEGÓCIOS

Fonte: Época Negócios
Publicado em 01/04/2014