3P – Passaporte para a Universidade do Sistema Toyota de Produção


Desenvolvimento de produtos e processos
Alvair Silveira Torres Jr. - 21/09/2005

Nesse artigo, o autor destaca a ferramenta 3P como um passo a frente no sistema de melhoria contínua e verdadeiro passaporte para a "Universidade Toyota".

No final do ano de 1996 eu participava de um kaizen com o consultor japonês Chiiro Nakao, discípulo de Taiichi Ohno e atual vice-presidente da Consultoria Shin-Gijutsu. Nosso grupo tinha o objetivo de melhorar o desempenho de uma linha de produção e demonstrava sérias dúvidas sobre a possibilidade de repetir os outros ótimos resultados de kaizens anteriores. Parecia que a fonte estava secando. Na tarde do segundo dia Nakao entrou em nossa sala e começou a explicar a ferramenta do 3P, usada pela Toyota naqueles momentos em que são necessárias mudanças na natureza dos processos, com o intuito de remover os obstáculos que estão enraizados no chão-de-fábrica e dificultam a melhoria contínua.

Admirado, mas ao mesmo tempo com sentimento de surpresa, perguntei a Nakao porque somente naquele momento ele comentava sobre aquela maravilhosa ferramenta. Seguindo o tradicional simbolismo japonês respondeu-me: "Você estava no jardim da infância, passou para a escola fundamental, depois segundo grau, agora, com 3P, pode entrar na Universidade."

De acordo com o tradicional processo de aprendizado dos japoneses, com cada coisa a seu tempo, ele considerou que só a partir daquela ocasião é que poderíamos entender e aplicar o 3P em toda sua plenitude.

3P- Production Preparation Process

Ao final dessa breve história, mas ilustrativa, resta-nos esclarecer no que consiste o 3P e seu passaporte para a "Universidade Toyota". Trata-se da designação de um método para desenhar processos de produção lean, ou, simplesmente, obter soluções aos problemas de fluxo de criação do valor na produção, tendo como consequência a radical inovação do estado atual. Criam-se processos naturalmente lean, isto é, que por natureza não apresentam limitações ao fluxo e ao sistema de puxar a produção.

O método consiste em dirigir um grupo multidisciplinar de áreas que representem e integrem necessidades dos mais diferentes enfoques sobre produto/processo/custos/equipamentos, visando desenvolver por completo processos com os princípios lean embutidos.

1) Na primeira etapa o grupo desenha no mínimo 7 alternativas de processamento que venham a facilitar os elementos básicos do sistema: Fluxo contínuo, Produção puxada e Autonomação.

2) Os processos alternativos são então postos sob avaliação de 14 quesitos de um sistema lean avançado. Cada alternativa de processo recebe uma nota em cada quesito. As três melhores alternativas, segundo a pontuação total recebida do grupo, passam para a etapa da simulação.

3) Na simulação, muito diferente dos processos ocidentais que utilizam softwares ou a virtualidade, o grupo deve aproximar-se do mundo físico e realizar simulações em escala real. O melhor processo, a ser escolhido, será aquele cujo conceito foi devidamente simulado e revelou-se mais próximo ao atendimento pleno dos quesitos do sistema, além do que, obteve desempenho superior aos outros conceitos de processos simulados.

Observem que nos referimos sempre ao conceito de processo lean, isto é, não definimos o tipo de máquina antes da simulação. A definição de quaisquer equipamentos é uma consequência do conceito desenvolvido e escolhido na simulação. De fato, antes da máquina devemos nos preocupar com a posição do produto, movimentos relativos entre produto e ferramentas, formas de carga e descarga, agentes físicos empregados, superfícies e características geradas.

A definição da máquina como última etapa no 3P é daquelas sutilezas do Sistema Toyota que Womack e Jones ajudaram-nos a desvendar com a idéia da ferramenta do tamanho certo, não necessariamente referindo-se só a máquinas, mas a todo tipo de solução que deve evitar desperdícios, combatendo-se a tendência pelo mais veloz, mais atual, mais eficiente, através da busca de processos naturalmente enxutos com a velocidade e os padrões que atendam a demanda.

Por outro lado, devido a essa maior amplitude de intervenção do método, erroneamente alguns passaram a entendê-lo como aplicado apenas para novos produtos. Na verdade, o 3P se aplica a todo e qualquer sistema, maior ou menor, cujos kaizens encontrem limitações, ou, cujos obstáculos à evolução do sistema, os chamados monumentos ao desperdício, precisam ser removidos por uma ação mais radical: máquinas geradoras de desperdício, processos que restringem o fluxo, sistemas com baixa autonomação, máquinas de baixa confiabilidade, logísticas erráticas e, evidentemente, novos investimentos em produtos ou fábricas.

Limitar a aplicação do 3P aos produtos novos é perder a oportunidade de uma evolução mais acentuada do sistema. Empresas praticantes do 3P divulgam economias de 30 a 50% em investimentos de capital e de 20 a 40% nos custos de manufatura.


Idéias concorrentes

Na verdade, ao ver o 3P como um estágio de aplicação do lean, equivalente à "Universidade", a metáfora do prof. Nakao nos faz refletir sobre o método, cuja observação em detalhe revela-nos um conceito que julgamos uma regra de ouro: as idéias concorrentes.

Em artigo da Harvard Businnes Review no final de 1999, Spear e Bowen propuseram um roteiro com quatro regras básicas para entender o Sistema Toyota e perceberam muito bem, dentro de uma perspectiva ocidental, que os japoneses como que criaram um roteiro de trabalho científico com base em hipóteses e experimentos, com mapas de experiências desenhados para atingir um estado desejado. Entretanto, de acordo com nossa metáfora da Universidade do 3P, esse roteiro pode ficar estagnado e confinado a experimentos baseados em um só conceito de como as coisas devem ser fabricadas, ou a uma classe de processos de máquinas e de estruturas ainda herdadas do paradigma anterior, limitando assim o alcance de melhorias propostas pelo lean. Ora, dentro de uma linguagem simbólica, é na Universidade que aprendemos sobre diversas teorias concorrendo para explicar o mesmo fenômeno. Não é apenas Newton que explica a força da gravidade, considerada hoje pelos físicos apenas como uma teoria útil para o macrocosmos, mas, na verdade, recebe a concorrência de outras teorias para explicar o fenômeno da atração entre corpos de massa: quântica e das supercordas.

Analogamente, é nisso que o 3P contribui para a cientificidade do lean: um método que busca a concorrência de idéias, submetidas ao crivo da avaliação de quesitos do sistema de produção. Assim como faz o cientista que pesquisa e avalia diversas hipóteses, no 3P sete alternativas - no mínimo - são levantadas e as 3 melhores são simuladas, ou, dizendo de outra forma, fazemos experimentos cujos resultados é que definirão o melhor conceito, o processo e até o produto, e por fim, a máquina que dê conta do sistema.

Essa sutileza metodológica é que provoca uma inversão dos procedimentos tradicionais, de tal forma que primeiro definimos o conceito, o núcleo do processo, depois o processo completo, o lay-out e ao final é que pensamos na máquina. Uma máquina que assumirá o tamanho certo para o processo. Sem desperdícios.

Sem dúvida o 3P é um convite para decolar com o lean para outras esferas do sistema sem perder a integração dos elementos. É a oportunidade de pensar em outros processos, em outros desenhos de produto, em outras tipos de máquinas, e mais adiante, em outras formas de gerir o negócio. As inscrições estão abertas.

Boa sorte!!!!!!!


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