Cultura e Liderança

5 insights sobre liderar para a segurança psicológica de todos


Neste difícil momento para todos, as pessoas são desafiadas a lidar com todos os tipos de dificuldades, desde manter o controle emocional e psicológico durante o isolamento até aprender a lidar com as novas tecnologias, que se tornaram tão essenciais em nossas vidas pessoal e profissional. Neste cenário, através do respeito pelas pessoas, o líder lean possui um papel essencial para ajudar seus liderados em suas jornadas.

Robson Gouveia
Tamiris Masetto

O Lean Institute Brasil inaugurou a série de encontros online “Liderar com Respeito”, inspirada no conceito essencial da liderança lean e no seu conjunto de qualificações, modelo mental e de valores. O primeiro webinar, realizado no dia 22 de abril, tratou sobre “A liderança humanizada no fortalecimento da segurança psicológica nas empresas”. Com a mediação de Robson Gouveia, do LIB, seis líderes de diferentes setores explicaram como suas empresas estão lidando com esta crise, compartilharam dicas e experiências vivenciadas em suas jornadas e refletiram sobre o papel que eles e todos os outros líderes precisam assumir para ajudar seus liderados nestes incertos e turbulentos tempos.

Voluntariamente, seis líderes de renomadas empresas e grupos brasileiros integraram o painel do webinar:

  • Carol Sarmento – Diretora de marketing na UniSociesc.
  • Carolina Marra – Vice-presidente de pessoas na Ânima Educação.
  • Solange Sobral – Vice-presidente de operações na CI&T.
  • Claudio Lisondo – Agile coach na Roche.
  • Gleiber Morato – Diretor de execução da produção no Grupo Globo.
  • Ricardo Orefice – Ombudsman no Banco Itaú.

Durante as conversas, os participantes compartilharam de forma leve e bem-humorada opiniões e histórias que trazem consigo lições para ajudar todos os líderes de todos os níveis durante a quarentena imposta como forma de conter o avanço da Covid-19 e depois dela mantendo os aprendizados e novas formas de trabalho que possam surgir. Neste artigo, reunimos quatro dessas lições para que todos possam refletir sobre o que podemos fazer para ajudar nossos liderados neste novo cenário.

Lição 1: Entenda o contexto e as limitações das pessoas

Trabalhar de casa é um desafio para todos, tanto para aqueles que não possuem nenhuma experiência com essa forma de trabalho e estão tendo que aprender tudo em pouco tempo quanto para aqueles que, apesar de já terem experiência com o home office, precisam agora entender e aprender a trabalhar com pessoas que estão apenas iniciando sua jornada nesse novo normal.

As pessoas têm diferentes tipos de limitações, e o líder precisa aprender lidar com isso da melhor forma possível, apoiando seus liderados em sua caminhada, tentando entender suas dificuldades neste novo contexto, ajudando cada um a se sentir mais confortável e psicologicamente seguro trabalhando de casa e promovendo o trabalho em equipe.

Como Solange Sobral disse, “não existe liderança com respeito se não houver liderança humanizada, e quando você começa a entender a dificuldade e a limitação de cada uma das pessoas que estão trabalhando consigo, você começa a exercitar a liderança humanizada, a liderança com respeito. Liderar com respeito é liderar seres humanos, e não só colaboradores”.

Os líderes precisam pensar em todas as limitações que os colaboradores terão neste novo cenário, até mesmo nas pequenas coisas, como na cadeira que o colaborador usa em casa. Entender as realidades em que seus liderados estão inseridos é vital para fazer que todo colaborador se sinta acolhido e para dar as condições adequadas para que eles possam alcançar o sucesso.

É importante também ressaltar que o líder não é um super-herói; eles não existem (e nem precisam existir). O líder também enfrenta limitações nestes cenários, e é importante que ele esteja aberto a aprender, agora mais do que nunca; todos estão aprendendo, e, juntos, líder e liderados podem desenvolver as soluções para alguns problemas que nunca antes foram enfrentados.

Por fim, Gleiber Morato afirma que “o liderar com respeito, embora agora se faça ainda mais necessário por conta da angústia que todos estão vivendo, não é apenas para este momento, mas para o dia a dia da empresa”. Quando a quarentena acabar e retomarmos as atividades regulares, é importante que o líder leve para si tudo que está aprendendo nesta fase pela qual estamos passando.

Lição 2: Pratique a escuta ativa para criar um ambiente psicologicamente seguro

A única forma de realmente entender as necessidades de seus liderados é escutando-os e fazendo conexões com eles de maneira genuína. Para criar essa conexão com o time, é importante abrir canais de comunicação e de feedback para facilitar a interação.

Como Claudio Lisondo afirma, “sem conversa, não existe acordo. Tudo começa por entender os outros, por escutar”. Para que os líderes cheguem à conclusão sobre o que é melhor para seus colaboradores, é necessário que eles conversem, pois só assim saberão do que eles precisam. Ao escutar seus colaboradores, o líder pode ajustar as políticas da empresa de acordo com a necessidade de cada um. Trocar o VR por um VA, por exemplo, pode ser uma medida que agregará valor para o colaborador, já que ele provavelmente não terá muitas oportunidades de utilizar o VR em restaurantes durante a quarentena, mas o líder só terá certeza sobre isso se conversar com seus liderados.

O trabalho remoto, por home office, força as pessoas a terem que se conectar mais e a tomar decisões conjuntas. Através da abertura fornecida pela liderança, permitindo que as pessoas falem sem receio, é possível criar um ambiente de segurança psicológica em que todos se sentirão confortáveis para contribuir. Mas criar esse tipo de ambiente exige que o líder escute ativamente, efetivamente prestando atenção a o que sua equipe tem a dizer. Também é necessário prestar atenção nos detalhes, pois eles importam; o fato de conversar por vídeo, por exemplo, em vez de por texto, ajuda a criar um sentimento de segurança psicológica nas pessoas, já que elas se sentem mais confortáveis em compartilhar o que estão pensando.

O ser humano se sente seguro quando sente que pode ser quem ele realmente é. Criar um bate-papo semanal, por exemplo, em que as pessoas possam trocar as dificuldades do momento, tanto no âmbito pessoal quanto no de trabalho, pode ser uma forma de garantir a criação desse ambiente psicologicamente seguro. Ao contrário do que muitos pensam, é importante também que o líder participe do bate-papo, expondo suas dificuldades, o que demonstra vulnerabilidade à equipe, deixando as pessoas mais confortáveis a se abrirem.

Contudo, de nada adianta fazer isso se o líder não quiser realmente fazer. Para criar um ambiente de segurança psicológica, é crítico que isso seja feito de forma intencional. As pessoas têm que saber que podem falar e perguntar o que quiserem.

Lição 3: Empodere as pessoas para que elas resolvam os problemas

O valor de qualquer empresa está realmente nas pessoas; elas precisam assumir as responsabilidades e resolver os problemas, pois quem está na linha de frente é que realmente conhece o trabalho e que provavelmente saberá dizer a melhor forma de resolvê-los. No trabalho remoto, cada indivíduo passa a ter um valor ainda maior; o líder precisa prestar atenção na diversidade, ter um olhar de humildade e valorizar o papel de todos.

Para fazer isso, o líder precisa dar a elas o espaço de que precisam para que possam ter sucesso em seu trabalho, empoderando-as de todas as formas que puder. Citando a fala de Carol Sarmento, “o grande papel do líder é fazer com que as pessoas acreditem em si mesmas e dar autonomia para que elas possam resolver os problemas”. Existem diversas formas de fazer isso, como criando workshops de kaizen para incentivá-las a trazer soluções.

Na UniSociesc, por exemplo, existe a semana do kaizen, em que grupos de trabalho eram criados para superar um desafio posto pela liderança. A equipe deveria buscar soluções e apresentar para todos na semana seguinte. Muitas vezes, as soluções eram simples, como mudar a forma de fazer o trabalho; entretanto, o mais importante da semana do kaizen não eram as soluções em si, mas a colaboração criada nos grupos e a liderança que naturalmente surgia nos integrantes.

O papel da liderança nesse cenário é exatamente o oposto do que muitos pensam; os líderes não devem assumir o protagonismo, mas apoiar seus colaboradores a assumir esse papel, tornando-se até desnecessário em muitas situações. As pessoas têm o conhecimento; se o líder confiar nelas, certamente muitas soluções criativas surgirão.

Lição 4: Aproxime-se de seus liderados neste momento em que eles mais precisam

O líder precisa ter empatia, o que não significa se colocar no lugar do outro, mas compreender que você precisa ouvir, buscar entender e respeitar as limitações de cada pessoa. Vivemos uma pandemia. É natural que as pessoas se sintam inseguras neste momento por conta de todo o contexto em que estamos inseridos. As pessoas estão com medo; por isso, é importante que cada uma procure coisas que a ajude – seja meditação, seja um hobby, o que quer que seja que funcione para ela.

Mas este momento é também uma oportunidade, pois ele evidencia o impacto que cada pessoa tem nas outras com cada uma de suas atitudes e as diversidades presentes nos grupos de trabalho. Isso pode ser um propulsor para que as pessoas se conectem mais, mas, para isso, o líder precisa liderar pelo exemplo, sendo transparente, reconhecendo que ele não possui todas as respostas, perguntando como as pessoas estão se sentindo e tentando entender pelo que cada um está passando.

Como Carolina Marra disse, “a gente fica exausto no final do dia, pois em via de regra estamos mais produtivos. As pessoas estão se reinventando”. O cenário atual é desgastante para todos, e o líder precisa estar lá para seus liderados, compartilhando a carga que estão suportando sobre os ombros.

Ricardo Orefice adiciona que “a separação entre o lado pessoal e o trabalho não existe em determinado contexto, pois somos indivíduos únicos. Os líderes não deve tentar separar o indivíduo do colaborador, pois se ele está com um problema pessoal sério, ele precisa de apoio, e a liderança tem um papel de se conectar e ajudar”.

O momento está exigindo um esforço enorme por parte de todos, e as pessoas estão mais unidas. Se o líder estiver junto com os liderados, com um propósito único comum, as pessoas estarão mais abertas a participar e compartilhar.

Algumas dicas dos líderes

O encontro encerrou-se com os líderes compartilhando algumas dicas a partir de sua vivência e experiência liderando durante a quarentena:

  • Carol Sarmento – Aprenda, reinvente-se e esteja junto. Pratique a gestão colaborativa e utilize-se das ferramentas disponíveis para colaborar à distância. Faça as pessoas se sentirem acolhidas.
  • Carolina Marra – Seja mais generoso consigo mesmo. A pressão é muito grande neste contexto. Muita informação está sendo jogada muito rapidamente em todos nós. Dê um passo atrás e respire. É importante tomar as decisões que precisam ser tomadas, mas podemos dilatar o tempo. Antes de concluir, precisamos compreender.
  • Solange Sobral – Não pare no tempo. Neste momento incerto, é importante pensar na saúde do colaborador e das pessoas em geral; também é importante pensar na saúde do caixa, para não ter que demitir ninguém. Entretanto, é vital continuar olhando para frente, investindo em inovação.
  • Claudio Lisondo – Ria de si mesmo. Utilize-se do humor para seguir em frente; a crise mostra o que realmente somos, tanto o nosso melhor quanto o nosso pior lado. Cada interação é uma pequena batalha.
  • Gleiber Morato – Tenha uma comunicação assertiva. Estamos sendo forçados a aprender rapidamente. Por isso, é necessário planejar o que desejamos passar em termos de informação. Ouvir mais e planejar melhor a comunicação é a única forma de ter certeza de que estamos sendo eficientes. Quando os problemas acontecem, a informação tem que chegar completa para todos.
  • Ricardo Orefice – Pratique a colaboração. Neste momento, todos estão focados em ajudar. Esteja próximo, ajude e colabore com as pessoas. O líder precisa reconhecer mais cada atitude. Cada esforço faz a diferença. Celebre as pequenas conquistas e não se esqueça de perguntar como as pessoas estão.

Para Robson Gouveia, do LIB (quem organizou e será responsável pelas próximas edições da série “Liderar com Respeito”): “falar sobre liderança com grandes líderes e iniciar esta série com tantos amigos e enorme audiência foi seguramente uma enorme satisfação. Sabemos da nossa responsabilidade como instituto em prover e compartilhar boas práticas, reunir e conectar pessoas com um mesmo propósito”.

A segurança psicológica e sua tratativa não se trata de algo necessariamente novo ou criado em tempos de confinamento social. Em 1965, um livro intitulado “Personal and Organizational Change through Group Methods”, de Edgar Schein e Warren Bennis, apresentou ao mundo a segurança psicológica para ajudar as pessoas a lidar com a incerteza e a ansiedade da mudança organizacional. Schein observou, mais tarde, que a segurança psicológica era vital para ajudar as pessoas a superar a defensividade e a “ansiedade de aprendizagem” que enfrentam no trabalho, especialmente quando algo não acontece como eles esperavam”. Mais recentemente, em 2108, Amy Edmondson escreveu um livro valioso sobre segurança psicológica: “The Fearless Organization”.

Nesse sentido, Robson ainda complementa e deixa um recado final aos leitores: “organizações e ambientes sem medo são terrenos férteis para a prática da experimentação e fundamentais nas jornadas de transformação lean. Sabemos que a partilha das valiosas ideias dos líderes que reunimos permitirá um ótimo avanço para que, cada vez mais, possamos adquirir e propagar essa segurança aos nossos times”.

Nós, do LIB, convidamos você a participar do nosso próximo encontro “Liderar com Respeito”, que ocorrerá no dia 27/05.

 


Publicado em 18/05/2020


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