COVID-19

Tsunami global nas cadeias de suprimento: a resposta da logística lean frente à crise da Covid-19




Alvair Silveira Torres Jr.

Crédito da imagem: Wirestock, disponível em Freepik.

Eventos raros que provocam alto impacto em nossas vidas têm sido denominados como eventos “cisne negro” por estudiosos da tomada de decisão sob condições de incerteza. O pesquisador Nicholas Taleb (2008) tornou popular a metáfora quando comparou a ocorrência de eventos improváveis na sociedade com a ocorrência menos frequente e pouco observável dos cisnes negros na natureza. Ambos são raros e pouco observados, mas existem, são reais. O problema é que nos esquecemos deles. O cisne negro é uma alusão simbólica aos eventos inesperados, mas que estão à espreita de emergir e provocar drásticas mudanças.

Uma análise apressada poderia fazer-nos classificar a atual pandemia da Covid-19 como um evento “cisne negro”, porém a frequência com a qual epidemias têm assolado a humanidade somente neste século – com H1N1, Influenza, SARS, MERS, Ebola, entre outras – nos conduz mais à metáfora do tsunami, evento natural de origem sísmica. 

Tsunamis ocorrem em intervalos relativamente longos, sendo percebidos no cotidiano com as características de evento único, mas que, na realidade, possuem certa previsibilidade, especialmente para aqueles com conhecimento do assunto, familiarizados com modelos teóricos para sua compreensão. O próprio Taleb distingue estes eventos raros, porém esperados, dos “cisnes negros”, chamando-os de “eventos cisnes cinzas”. É o caso das epidemias e dos tsunamis. 

Usar a metáfora do tsunami para pensar nos efeitos da pandemia sobre as cadeias de suprimento também serve para chamar atenção sobre a característica de seus efeitos serem magnificados no curto prazo, mas eles continuarem e perdurarem por um longo período, devido a alterações estruturais nas cadeias. 

Em que pese a enorme dimensão do problema visto de fora, numa perspectiva em que vemos os negócios parados, demandas caindo, restrições de mobilidade e incerteza quanto ao fim deste cenário, é preciso estabelecermos uma perspectiva interna, de gerenciamento, proposta aqui com a abordagem lean, através da qual podemos entender os detalhes do fenômeno e propor alternativas.

Portanto, é preciso também adotar medidas gerenciais, tanto para o convívio, com o novo cenário de restrições por mais tempo, quanto para criar novas formas de operar os negócios no longo prazo. Tornar as cadeias de suprimento mais aderentes aos princípios da agilidade, nivelamento e adaptabilidade são fatores urgentes a serem resgatados dentro dos ensinamentos lean para redesenho das cadeias de suprimento tendo em vista o novo cenário. Façamos um exercício de aplicação das contramedidas lean em nosso cenário de Covid-19, dando especial atenção ao Brasil.

  1. Agilidade 

Esse fator trata das medidas de resposta rápida às mudanças de curto prazo na demanda ou oferta e da capacidade de lidar com interrupções externas à cadeia, afetando seu fluxo interno. A capacidade de coordenar e realizar kaizens entre agentes da cadeia é uma das ferramentas lean fundamentais, para atender às mudanças ágeis exigidas nas situações de demanda na crise da Covid-19.

Na oferta, observamos dificuldades na agilidade em se obter suprimentos de máscaras, respiradores, reagentes, EPIs e equipamentos médicos de forma geral. Ações prometidas, para rápido aumento de capacidade, pouco têm se realizado por falta de tomada de decisão ágil na busca ativa de recursos produtivos no parque instalado do país e redirecionamento para produção dos itens de alta demanda do setor de saúde. Dotar a cadeia de suprimento de insumos médicos de agilidade significa promover o fluxo de informações entre fornecedores atuais dos insumos e o parque industrial brasileiro para localizar colaborações em recursos. Também desenvolver relacionamentos colaborativos com fornecedores internacionais que disponibilizem apoio técnico e acesso aos desenhos e especificações de equipamentos, discutindo alternativas tecnológicas de similaridade.

Recentemente, diante do esforço para aumentar a produção de respiradores no Brasil, fabricantes nacionais detectaram um gargalo na produção de uma válvula importada. A demanda pela válvula é global e exige como resposta ágil a busca de soluções colaborativas com os fornecedores globais através de alguns temas de kaizen:

  • Esforços de engenharia para a substituição do componente ou material específico por similar.
  • Desenvolver, em conjunto, processos alternativos para ampliar a capacidade produtiva do componente em outros locais.
  • Abrir as especificações e formas de processo atuais para comunidades técnicas colaborar com os esforços.

A agilidade está vinculada com a capacidade de empreender ações rápidas de âmbito colaborativo através de kaizens entre as cadeias de suprimento. Portanto, apenas uma liderança com postura lean, de coordenação aberta e transparente, pode efetivamente dar conta disso, somando-se ao segundo aspecto essencial para a reestruturação das cadeias: o nivelamento.

  1. Nivelamento

Esse segundo fator trata do nivelamento de responsabilidades, conhecimentos e capacidades produtivas para o atingimento dos objetivos comuns e específicos dos agentes da cadeia de suprimento.  

Se os interesses forem conflituosos entre as organizações da cadeia de suprimento, as ações não convergirão para o atendimento das necessidades e maximização do desempenho. No caso da crise da Covid-19, a amplitude do problema exige liderança neste alinhamento, e os governos naturalmente devem assumir este papel desde a decisão de curto prazo de isolamento social até a identificação e redirecionamento de recursos produtivos para as novas demandas, que permitirão relativo relaxamento das medidas de contenção social.

No caso do isolamento social, aplicar a abordagem lean no realinhamento de horários de funcionamento de serviços essenciais e não essenciais, nivelando com as capacidades de transporte público, auxiliaria na contenção da propagação do vírus. Em cada município e suas zonas urbanas, o rodízio de aberturas de comércio e escalonamento de horários é uma medida a ser considerada e coordenada entre os agentes como forma de minimizar impactos econômicos, na mesma medida em que evita aglomerações nas artérias de mobilidade. Comércio com calendário de abertura (segundo cada atividade específica) e horário de funcionamento das lojas deslocado para períodos diferentes do dia (visando não coincidir com atividades industriais e outras mais que houver na localidade) são medidas que exigem negociação e coordenação para atingir um novo alinhamento de funcionamento das cadeias logísticas urbanas. Para tanto, é fundamental que os meios de transporte continuem operando em sua capacidade normal para permitir o menor adensamento dos usuários. 

Um segundo aspecto de alinhamento das cadeias de suprimento diz respeito ao incentivo dos agentes da cadeia para redirecionar esforços para obtenção de capacidade produtiva dos produtos e processos com demanda aumentada.

A liderança coordenadora das cadeias deve promover o incentivo à troca de conhecimento e estabelecer a divisão clara de funções, tarefas e responsabilidades, de forma a não desperdiçar recursos ou gerar a redundância de esforços. A cadeia de suprimento de máscaras, por exemplo, terá seus esforços para aumentar a oferta ampliados, na medida em que eles forem coordenados e alinhados entre os agentes. 

  1. Adaptabilidade

Adaptabilidade é a capacidade de adequar o desenho da cadeia de suprimento para incorporar mudanças estruturais do mercado e da sociedade, a terceira característica que a abordagem lean permite dotar os fluxos de suprimento. Trata de ir além das mudanças emergenciais que a agilidade busca no enfrentamento da pandemia e alcançar modificações que sustentem estratégias e negócios no período de recuperação após a crise. 

Algumas destas modificações já foram tomadas pelos agentes, na medida em que as condições já estavam dadas pela flexibilidade propiciada por determinados recursos disponíveis, em especial os meios digitais. É o caso da rápida adaptação de atividades para o teletrabalho, mudança que deve ser aprofundada e aperfeiçoada, dotando as cadeias de suprimento e negócios de maior resiliência frente aos efeitos deste e outros tsunamis.

O caso de adaptação em curso das cadeias de ensino é exemplar. Rapidamente, milhões de estudantes e estabelecimentos de ensino no mundo todo estão se adaptando ao ensino à distância, com uso das ferramentas digitais. A produção acadêmica e de ensino prossegue onde o meio digital está disponível. Populações sem acesso à Internet, por outro lado, deverão ser alvo do esforço de ampliar a oferta lançando mão dos outros dois fatores, de agilidade e alinhamento dos agentes.

Outras cadeias de suprimento devem seguir o exemplo do setor educacional e readaptar os processos com adoção de mecanismos digitais. Se não podemos prever quando e onde será o novo tsunami, ao menos aprendemos que podemos e devemos tornar as cadeias mais resilientes para enfrentar as tempestades.

Tal raciocínio contribui na construção de novas estratégias e operações de negócios pelo mundo. Aplicar conceitos de fluxo contínuo nas soluções digitais pode levar à melhor utilização dos recursos e melhoria do atendimento aos consumidores (Womack & Jones, 2005). A logística lean digital tem procurado dotar os negócios com essa característica. É o caso da compra efetuada por canais digitais que, não tendo sido desenhados com o conceito de fluxo contínuo na criação de valor, ainda exigem que o cliente cancele uma compra  caso ele desista de receber em dado endereço ou dada forma de entrega, para então realizar outro pedido em substituição. Ao contrário, soluções digitais que criam valor para o cliente continuamente já estabelecem modo simples de readaptação dos conteúdos e formas de entrega, aspecto fundamental no contexto atual, no qual os clientes precisam ter flexibilidade na readaptação dos pedidos, facilitando em muito para ambos os lados da transação. A perspectiva lean considera a cadeia digital também como sendo uma cadeia de suprimento e recurso importante da logística. Adaptá-las ao novo ambiente significa dotar a economia de novas artérias que permitam o reaparelhamento da sociedade.

Por outro lado, outra mudança estrutural em vista do tsunami pandêmico é a diminuição da vantagem dos países asiáticos, sobretudo a China, em concentrar a produção de certos insumos e produtos, notadamente os de segurança e saúde. Pelos motivos de facilitar a agilidade e o alinhamento dos fornecimentos futuros com maior resiliência aos impactos, é preciso redirecioná-los para produções locais, restabelecendo cadeias de suprimento regionais em uma estratégia urgente de recomposição produtiva. A produção de reagentes, máscaras, respiradores, equipamentos e insumos médicos teriam sua cadeia de suprimento reestruturada no território nacional, utilizando os conceitos de manufatura lean com economias de recursos e investimento visando sua viabilidade local.

Equipamentos médicos precisam ser readaptados em seus projetos para incorporar processos e componentes padronizados que permitam adotar a mesma estratégia já utilizada pela indústria automotiva ou informática, cujos produtos concebidos em plataformas padronizadas permitem sua produção em número maior de plantas mundo afora, com muito mais rapidez na troca de posições entre fábricas. De tal sorte, foram desenvolvidos um conjunto de produtores de equipamentos originais, as chamadas OEM, permitindo maior flexibilidade e mobilidade da produção. Projetos flexíveis e processos padronizados são diretrizes que facilitam alternar, se necessário, a fabricação de produtos entre agentes ou entre cadeias de suprimento, com a agilidade que surpresas exigem. Adaptar o projeto de produtos médicos para serem produzidos de forma padronizada em plantas por tudo mundo deve se tornar uma medida estratégica de escala mundial e fator de segurança à população.

Construir uma cadeia de suprimento de equipamentos de segurança e de saúde deve ser uma tarefa alinhada entre as nações de tal modo a seguir algumas diretrizes:

  • O design de produtos médicos deve obedecer a regras internacionais em que as equipes de desenvolvimento do produto calculem e deixem transparentes as implicações do projeto para a cadeia de suprimento. 
  • Buscar projetos em que os produtos compartilhem componentes de maior capacidade de fabricação.
  • Altos graus de padronização dos processos de manufatura de tal forma que, com poucas alterações de engenharia, a produção se adapte rapidamente às cadeias de suprimento em diferentes localidades. 

Por fim, as diretrizes aqui discutidas para redesenho das cadeias de suprimento frente ao tsunami global cobrem uma série de aspectos a serem aprofundados, debatidos e colocados em ação pela comunidade lean de profissionais, mas cujo sucesso somente será logrado com a designação de líderes que de fato coloquem acima de seus interesses particulares a noção de responsabilidade por toda cadeia, atitude que não se encontrará em nenhuma tecnologia ou fórmula, mas no comportamento de gestores convictos do seu papel de protagonistas e criadores de um novo mundo, em que a ciência e a humanidade devem triunfar. 

 

 

Referências

Taleb, Nassim. A lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008 

Womack, J. & Jones, D.T. Lean Consumption. Boston: Harvard Business Review, 2005

Sobre o autor

Alvair Silveira Torres Jr. é Gerente de Projetos do Lean Institute Brasil. Professor Doutor na área de Operações e Logística da FEA – USP. Exerceu por 17 anos posições de executivo no corpo gerencial da Mercedes-Benz do Brasil com experiências no Brasil, Argentina, Alemanha e EUA. Obteve o grau de especialista (sensei) no Toyota Production System (TPS) pela Shingijutsu Consulting Co. do Japão e EUA. Tem experiência com empresas nos ramos de Automobilística, Transporte e Logística, Óleo e Gás, Químicas e Farmacêuticas, Serviços, Comunicação, Alimentos, Engenharia de Produto. Tecnólogo, Mestre e Doutor em Administração.


Publicado em 30/04/2020

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