ESTRATÉGIA E GESTÃO

Péricles, Motown e os limites da competência

Flávio Battaglia
Empresas podem transformar competências que sustentaram seu sucesso em limites para o futuro; inovar também exige reconhecer capacidades que já existem e recombiná-las em novos contextos

No mundo das empresas, quando um produto, tecnologia ou modelo de negócio dá certo, ganha escala e passa a concentrar investimentos, conhecimento e atenção, isso também gera problemas. Um deles é que, com o tempo, esse sucesso limita o olhar das pessoas da companhia para novas possibilidades.

Em outras palavras, o que a organização faz bem no presente sedimenta o que ela acredita ser capaz de realizar no futuro. Muitas passam a se definir pelo produto que vendem, pela tecnologia que dominam ou pelo mercado em que construíram reputação.

Num momento em que tantas empresas se sentem pressionadas a inovar, diversificar e descobrir novos mercados, é preciso entender esse fenômeno para não cair nessa “armadilha” que pode resultar em estagnação.

No Rock in Rio deste ano, houve um exemplo claro de como escapar disso. O cantor Péricles subiu ao Palco Sunset sem cantar os sucessos que ajudaram a transformá-lo em um dos maiores nomes do pagode brasileiro. Durante todo o show, interpretou em inglês alguns clássicos associados à Motown – a lendária gravadora de soul e R&B –, passando por Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Temptations, Jackson 5 e outros nomes da black music americana.

À primeira vista, a escolha parecia improvável. A surpresa foi perceber o quanto aquele repertório lhe servia bem.

A apresentação foi uma das mais comentadas e elogiadas do festival. Péricles parecia confortável num território que boa parte do público provavelmente não associava a ele. Sua voz, a interpretação e a familiaridade com aquela linguagem musical faziam a mudança soar natural.

Péricles contou que a Motown havia participado de sua formação musical, assim como o Fundo de Quintal. Soul, R&B e funk sempre estiveram entre suas referências. A ideia do espetáculo começou a ganhar forma depois de sua apresentação no The Town, em setembro de 2025, quando incluiu “Stand by Me”, de Ben E. King, no repertório. A interpretação chamou a atenção de Zé Ricardo, curador do Rock in Rio, que enxergou ali a possibilidade de um show dedicado à famosa gravadora.

O episódio revelou algo simples. Péricles já tinha as capacidades necessárias e as colocou em outro contexto.

Há mais de três décadas, C.K. Prahalad e Gary Hamel chamaram atenção para uma distinção importante entre os negócios em que uma empresa atua e suas core competencies, as capacidades centrais que sustentam sua vantagem competitiva. Produtos, tecnologias e mercados mudam. Competências mais profundas, construídas ao longo do tempo em conhecimento, processos e pessoas, podem ser recombinadas e aplicadas em contextos muito além daqueles em que originalmente se desenvolveram.

O show de Péricles tornou essa diferença bastante concreta.

O repertório pelo qual ficou conhecido nunca resumiu tudo aquilo que sabe fazer. Sua musicalidade, a qualidade da interpretação e a experiência de palco permitem que suas capacidades atravessem fronteiras. O pagode foi o ambiente em que elas cresceram e ganharam reconhecimento. O gênero não precisa limitar o alcance dessas capacidades.

A história da própria Motown acrescenta outra dimensão a essa discussão.

Berry Gordy fundou a Motown em Detroit, em 1959, depois de ter trabalhado numa linha de montagem da Ford. Essa relação entre indústria e música faz parte da trajetória da gravadora. Segundo o Motown Museum, Gordy procurou aplicar à produção de discos princípios que havia aprendido na indústria automobilística. A Motown formava artistas, aperfeiçoava apresentações e submetia novas gravações a avaliações regulares antes do lançamento. Criatividade e disciplina de processo conviviam dentro da mesma organização.

Uma das empresas mais inovadoras da música popular americana construiu sua força combinando talento com método. Esse sistema produziu uma sequência extraordinária de artistas e sucessos, mas também ajudou a estabelecer critérios muito claros sobre aquilo que funcionava.

Quando Marvin Gaye apresentou “What’s Going On”, no início dos anos 1970, Berry Gordy recebeu a gravação com resistência. A música escapava do padrão que havia ajudado a transformar a Motown numa máquina de sucessos. Acabou lançada, tornou-se um grande êxito e abriu caminho para um álbum que permanece como um dos trabalhos mais importantes da história da gravadora.

A experiência acumulada pode produzir esse efeito. Quanto mais uma organização aprende sobre aquilo que funciona, mais fortes se tornam os critérios usados para reconhecer uma boa oportunidade. Esses parâmetros, naturalmente, são moldados pelo que funcionou até ali.

Explorar aquilo que já se conhece tende a oferecer resultados mais previsíveis e retorno rápido. Procurar caminhos novos exige investir recursos antes que os benefícios estejam claros. Energia, talento e atenção tendem, portanto, a permanecer concentrados onde já existe evidência de sucesso. Faz sentido. Aos poucos, essa mesma lógica pode passar a orientar quase todas as decisões.

Zé Ricardo enxergou em Péricles capacidades que ultrapassavam a categoria em que o artista era reconhecido. O show tinha base musical e técnica. A conexão com aquele repertório já existia. Houve estudo, arranjos, ensaios e preparação para sustentar a mudança de contexto.

Essa história merece atenção. Muitas empresas começam a procurar fora aquilo que talvez ainda não tenham aprendido a reconhecer dentro. Antes de perguntar o que mais uma companhia poderia realizar, vale entender melhor aquilo que ela já sabe fazer excepcionalmente bem.

Uma equipe que aprendeu a analisar grandes volumes de dados para reduzir fraudes, por exemplo, pode usar a mesma capacidade para antecipar inadimplência ou identificar novos padrões de consumo. Uma tecnologia criada para rastrear entregas pode ser adaptada para monitorar ativos e antecipar necessidades de manutenção. A competência, nesses casos, é mais ampla do que a aplicação que a tornou visível. Ela reúne conhecimentos, rotinas e recursos que podem ser recombinados em outros contextos.

Péricles poderia seguir cantando seus grandes sucessos e provavelmente continuaria lotando casas por muitos anos. O Rock in Rio mostrou que o repertório pelo qual ele ficou conhecido não delimitava tudo o que sabia fazer. Aquilo que parecia uma competência do pagode era maior do que o próprio gênero.

Talvez esse seja um dos limites menos percebidos do que é ser competente. Com o tempo, empresas passam a confundir a forma pela qual construíram sua vantagem competitiva com o alcance real das capacidades que acumularam.

Competências desenvolvidas para sustentar um produto, um mercado ou um modelo de negócio podem ter aplicações muito além dessas fronteiras. Vale perguntar quantas delas permanecem limitadas ao contexto em que surgiram e quais novas formas de criar valor deixam de ser percebidas.

Publicado em 24/09/2026

Autor

Flávio Battaglia
Presidente do Lean Institute Brasil