Em uma grande rede varejista do Brasil, um centro de distribuição (CD) enfrentava um dilema recorrente. Apesar do esforço diário das equipes, o desempenho da operação era marcado pela instabilidade. A empresa, com uma rede de abastecimento regionalizada e crescente presença no e-commerce, lidava com dois fluxos críticos e desafiadores: o abastecimento das lojas e o processamento dos pedidos do e-commerce. Ambos os fluxos exigiam uma alta capacidade de adaptação e gestão de recursos, algo que a operação do CD ainda não conseguia atingir de forma eficiente.
Apesar de ser uma operação com boa infraestrutura e com uma equipe comprometida, o CD enfrentava desafios constantes, como atrasos de expedição, baixa acuracidade no estoque, oscilações de produtividade entre os turnos e a sensação de estar “rodando no limite”, mesmo em períodos sem grandes variações no volume de pedidos. A baixa previsibilidade e a falta de um sistema de gestão consolidado impediam que os desvios diários se transformassem em aprendizado e gerassem ações concretas de melhoria.
A decisão pela implantação do gerenciamento diário
Diante de uma pressão crescente por eficiência operacional e estabilização dos fluxos, a diretoria de operações decidiu que não era mais suficiente simplesmente “cobrar mais” da equipe. Era necessário implementar um sistema que tornasse capazes tanto os líderes quanto as equipes a tomar decisões rápidas, identificar e reagir a desvios de forma eficaz, e garantir que as operações fluíssem sem interrupções.
Foi então que o Gerenciamento Diário (GD) foi escolhido como contramedida. A ideia era simples, mas exigente: criar um processo diário que permitisse controlar o que estava acontecendo, mas também gerasse aprendizado e melhoria contínua a partir dos problemas do dia a dia. O GD deveria garantir uma rotina de trabalho focada na estabilização da operação, permitindo à equipe lidar com os problemas de forma mais eficaz, sem sobrecarregar os recursos e sem comprometer a qualidade.
O design do sistema de gerenciamento diário
O projeto do sistema de GD envolveu a criação de uma estrutura que conectava todas as áreas do CD, utilizando quadros a nível gerencial e operacional. O GD foi dividido em dois níveis: o “GD Gerencial”, que visava a visão global da operação, e quatro “GDs Operacionais” — um para cada macroprocesso do CD (recebimento, armazenagem, picking e expedição). A Figura 1 ilustra a estrutura do sistema de GD.
Figura 1 — A estrutura do sistema de Gerenciamento Diário para o CD (Fonte: elaborado pelo autor).
Os quatro GDs operacionais foram implantados diretamente nas respectivas áreas, com reuniões diárias de curta duração, conduzidas pelos supervisores. Cada área desenvolveu seu quadro específico de GD para dar visibilidade ao desempenho em tempo real, porém com um ponto de partida comum: a conexão explícita com os indicadores estratégicos do CD, especialmente produtividade e eficiência. Essa conexão garantiu alinhamento e coordenação entre o que era decidido no nível da área e o que precisava ser buscado no desempenho global da operação, evitando otimizações locais desconectadas do resultado do fluxo de valor do CD como um todo.
Para tornar os GDs operacionais efetivamente gerenciáveis no dia a dia, cada quadro foi estruturado com a seleção de duas a quatro variáveis de controle — por exemplo: percentual de pedidos prontos no horário; volume de divergências no recebimento; taxa de erros de separação —, escolhidas por sua capacidade de antecipar desvios e desdobrar os indicadores estratégicos. Assim, os quadros passaram a evidenciar os poucos controles que determinam a estabilidade do fluxo, orientando a priorização de tratativas, o escalonamento de anomalias e a coordenação entre áreas para impedir que problemas pontuais se transformassem em impacto sistêmico no CD.
Já o GD Gerencial tem a função de reunir os líderes dos GDs operacionais com o Gerente do CD. O objetivo é fornecer uma visão integrada e consolidada das principais variáveis da operação, como segurança, produtividade, qualidade e output do processo. Nesse sentido, o GD Gerencial se configura como um mecanismo integrador, utilizado para tomar decisões mais estratégicas e tratar problemas que foram escalonados dos níveis operacionais.
Ao projetar o sistema, a opção inicial foi utilizar quadros “analógicos”, com papel e caneta. Essa escolha se baseou na forte interação humana que esses quadros físicos proporcionam, criando um ambiente mais próximo e colaborativo, especialmente no contexto operacional do CD. A presença do quadro, a interação direta e a comunicação face a face desempenham um papel importante no engajamento das equipes e na identificação imediata de problemas.
Embora a tendência seja a migração para soluções digitais, com quadros de gestão integrados a plataformas online e sistemas de dados em tempo real, a transição para o digital foi vista como um segundo passo, que vem após a experimentação, o aprendizado e a adaptação das equipes. As lideranças do CD consideraram que o mais importante não é o formato do quadro, mas como ele é utilizado no cotidiano, como uma ferramenta ativa de gestão e aprendizado.
Enfrentando os desafios da operação com o GD
Logo nas primeiras semanas de implantação do GD, a equipe do CD passou a identificar claramente problemas que antes eram invisíveis ou ignorados. Embora a visibilidade inicial tenha causado uma sensação de desapontamento, essa transparência foi fundamental para identificar os principais gargalos e desperdícios recorrentes, como atrasos no armazenamento de materiais, divergências na expedição e padrões de inconsistências fiscais no recebimento.
Um dos principais desafios enfrentados foi o atraso no armazenamento, que prejudicava diretamente o processo de picking. A operação descobriu que o problema não estava na falta de esforço das equipes, mas sim na inconsistência de premissas operacionais no sistema WMS (Warehouse Management System) e na falta de um padrão de prioridade entre os itens. A solução encontrada foi tratar o sistema e criar critérios explícitos de prioridade. Essa mudança teve um efeito importante, reduzindo significativamente as paradas no picking por falta de materiais e minimizando os improvisos e “apaga-fogo”.
Outro problema identificado foi na expedição. Diversas divergências de separação eram percebidas, mas não organizadas e classificadas para tratativa na causa raiz. Com o GD, essas divergências passaram a ser tratadas de forma sistemática. Ao mapear os erros, foi possível perceber, por exemplo, que eles estavam concentrados em uma zona específica do CD, com maior instabilidade de sinal para os leitores digitais. Para resolver esse problema, foi realizada uma redistribuição das antenas, o que resultou na redução das falhas de conferência.
No recebimento, o GD expôs um problema de ineficiência na tratativa prévia fiscal e falhas nos padrões de embalagem, que contribuíam para a formação de filas nas docas. A partir dessa visibilidade, a liderança criou canais de escalonamento para tratar esses problemas com os fornecedores, além de estabelecer um padrão mínimo de recebimento e conferência com checklists objetivos.
O impacto da implantação do GD
Após poucas semanas de implantação do GD, os resultados começaram a se estabilizar. A operação passou a apresentar uma maior aderência ao plano diário de expedição, com uma redução significativa de retrabalho por divergências e melhora na acuracidade do estoque. As paradas no picking diminuíram devido à melhoria de eficiência da armazenagem, e os problemas críticos passaram a ser identificados e tratados no início do turno, evitando escalonamentos tardios.
Além dos ganhos operacionais tangíveis, a cultura organizacional também passou por uma transformação significativa. A liderança deixou de atuar no modo reativo, de “apagar incêndios”, e passou a adotar uma abordagem mais estratégica de remover impedimentos. As áreas começaram a discutir não apenas seus próprios indicadores, mas o fluxo global da operação, trabalhando de forma mais integrada e colaborativa.
Embora os resultados alcançados até o momento tenham sido significativos, a jornada de implementação do GD ainda não está concluída. Um dos principais desafios que continua presente é o fortalecimento da disciplina dentro da rotina de trabalho, especialmente no que diz respeito à comunicação aberta sobre problemas. Apesar das melhorias visíveis, existe uma resistência natural em expor falhas ou discrepâncias, o que pode limitar o potencial do GD em revelar causas profundas e implementar contramedidas eficazes.
A continuidade na execução das rotinas do GD será fundamental para construir um ambiente psicologicamente seguro, onde todos se sintam confortáveis para apontar problemas sem medo de retaliação. Só assim será possível extrair o máximo potencial dessa abordagem, permitindo que o GD se torne, além de um meio de gestão, um catalisador para a transformação contínua e sustentável da operação.
O aprendizado: o gerenciamento diário como estabilizador da operação
Esse caso de sucesso reforça a importância de um sistema de gerenciamento diário eficiente para estabilizar operações, especialmente em ambientes de alta variabilidade, como os CDs no varejo. O GD não é um mero conjunto de reuniões e indicadores, mas um sistema de aprendizado e melhoria contínua capaz de transformar os problemas do dia a dia em ações concretas de melhoria.
O GD ajudou o CD a se tornar mais previsível, seguro e capaz de atender melhor às demandas do e-commerce e das lojas físicas. Serviu como um estabilizador do fluxo de valor, garantindo que os desvios fossem tratados de forma rápida e eficaz, sem prejudicar a operação como um todo. A experiência ainda demonstrou a capacidade do GD em fortalecer a cultura de disciplina e colaboração, elementos essenciais para a excelência operacional em um cenário dinâmico e desafiador.
Referências
- FERRO, J. R.; GOUVEIA, R. Gerenciamento diário para executar a estratégia. 1. ed. São Paulo: Lean Institute Brasil, 2021.