EDUCAÇÃO

A ilusão das definições precoces

Flávio Battaglia
A ilusão das definições precoces
O que se observa nas equipes com melhor desempenho é que elas não começam com respostas claras, mas com um campo mais aberto

Uma visão ainda bastante presente nas empresas sustenta que equipes eficientes são aquelas que, ao iniciar um projeto, conseguem definir com precisão o problema a ser resolvido. A partir daí, o trabalho ganharia clareza, ritmo e estabilidade, criando as condições para resultados superiores. Evidências empíricas recentes apontam, no entanto, em outra direção.

Um estudo publicado na MIT Sloan Management Review analisou o desempenho de centenas de equipes ao longo de seus projetos. Os resultados são consistentes: times que começaram com menor nível de clareza sobre o que estavam enfrentando, mas desenvolveram esse entendimento ao longo do trabalho, alcançaram taxas de implementação superiores a 80%. Já aqueles que partiram de definições aparentemente precisas apresentaram desempenho significativamente inferior, em torno de 50%.

O que se observa nas equipes com melhor desempenho é um comportamento distinto. Elas não começam com respostas claras, mas com um campo mais aberto. Há, no início, uma disposição para explorar, testar interpretações e reformular aquilo que está sendo tratado como problema. Esse período não é necessariamente ordenado nem linear, mas cumpre uma função essencial: amplia a qualidade do entendimento antes de qualquer compromisso com uma solução.

Essa dinâmica contrasta com a forma como a gestão costuma ser praticada. Há uma tendência recorrente de exigir definição precoce, alinhamento rápido e respostas antecipadas. Em ambientes estáveis, essa abordagem pode funcionar. Em contextos de maior incerteza, porém, ela encurta o processo de compreensão da realidade e transfere complexidade para as fases posteriores do projeto.

O pensamento lean oferece uma leitura mais rigorosa desse processo. O ponto de partida não é a definição do problema, mas o aprofundamento do seu entendimento. Isso exige ter contato direto com a realidade, observar como o trabalho de fato acontece e confrontar, de forma disciplinada, percepção e fatos. Ao longo desse percurso, interpretações iniciais são testadas, revisadas e refinadas. Por isso, a formulação do problema não é um dado inicial, mas uma construção que se consolida a partir de evidências.

No desenvolvimento de produtos e processos, essa lógica ganha forma mais explícita. Em vez de convergir rapidamente para uma única solução, as equipes mantêm alternativas em aberto por mais tempo. Diferentes caminhos são explorados, comparados e testados conforme o conhecimento vai avançando. As escolhas ocorrem de forma progressiva, à medida que evidências se acumulam. Quando a decisão é tomada, ela já se apoia em uma base mais consistente.

Esse tipo de abordagem altera a forma como tempo e desempenho se relacionam ao longo do projeto. O avanço inicial pode parecer mais lento, porque há um investimento maior em entendimento, exploração e aprendizado. Na prática, porém, esse tempo é recuperado adiante. Ao evitar decisões prematuras, reduz-se a necessidade de revisões, correções e retrabalho nas fases mais avançadas, quando mudanças se tornam mais custosas. O projeto não necessariamente ganha velocidade no início, mas ganha consistência ao longo do percurso.

A maior dificuldade, talvez, não esteja em compreender esse princípio, mas em colocá-lo em prática. Permanecer, ainda que por um período, sem uma definição clara do problema exige maturidade gerencial. Implica tolerar a incerteza enquanto o entendimento está sendo construído e sustentar um processo que nem sempre oferece respostas imediatas. Para muitas organizações, isso entra em choque com a lógica dominante de controle, previsibilidade e necessidade de definições precoces.

Ainda assim, a implicação é clara. Em contextos em que o problema não está dado, antecipar sua definição significa decidir com base em um entendimento ainda incompleto. O resultado tende a aparecer mais adiante, na forma de ajustes, revisões e retrabalhos. Não se trata de adiar decisões, mas de fazê-las quando já existe base suficiente para sustentá-las. Sem isso, a organização não decide melhor. Apenas decide antes do tempo.

No fim, a diferença não está em trabalhar mais rápido ou mais devagar. Está em saber quando já se entende o suficiente para avançar sem precisar voltar atrás depois. Em contextos mais incertos, tentar ganhar tempo no início costuma apenas transferir o problema para frente, quando corrigir passa a ser mais difícil e mais caro. Avançar com consistência depende menos da velocidade e mais da qualidade do entendimento que sustenta cada decisão.

Publicado em 24/03/2026

Autor

Flávio Battaglia
Presidente do Lean Institute Brasil