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O que é aprendizagem lean?


DESTAQUE – Como o lean se aplica ao processo de aprendizagem? O autor reflete sobre a transformação lean pela qual suas escolas estão passando e sobre suas implicações práticas para estudantes, colaboradores e líderes.

Tony Lamberton

Olhe pela janela durante uma aula ou um treinamento, e isso deverá ser suficiente para você decidir se está ou não gastando seu tempo com algo valioso (dica: se você se distrair pelas nuvens ou pelo canto dos pássaros, a resposta provavelmente é “não”).

A sabedoria convencional afirma que as habilidades são melhor desenvolvidas através da instrução, que o conhecimento é adquirido através do ensino, e que as capacidades de resolução de problemas são cultivadas através do trabalho em grupo e do treinamento. No entanto, o aluno normalmente é tratado como o produto, e não como o cliente, e o processo convencional de aprendizagem normalmente é feito em lotes. Os princípios lean nos dizem que devemos sempre evitar lotes; ao invés disso, devemos “produzir” de acordo com a demanda e a puxada dos clientes. Como descobrimos no The Learning Trust ao longo dos anos, isso se aplica tanto ao processo de aprendizagem quanto à manufatura.

Há três anos, observei e categorizei mais de 500 sessões de aprendizagem em várias escolas e faculdades no espaço de três meses. Com base na dinâmica da sala, de forma rápida e simples, formei uma opinião sobre as diferentes sessões. Eu as organizei em cinco categorias:

  • Aprendizagem de qualidade – a sessão me deixou com a impressão de que algo especial estava ocorrendo.

  • Aprendizagem proposital – na sessão, os alunos mostraram atenção, foco e um claro senso de propósito.

  • Uma mistura de foco e desatenção.

  • Difícil de decidir (geralmente quando o trabalho individual ou silencioso estava em andamento).

  • Atmosfera ruim, nenhuma estrutura aparente para a sessão ou tédio/má conduta.

Na foto abaixo, como você avaliaria o tipo de aprendizagem desses jovens?

 

 

A ideia por trás desse processo era fornecer indicadores simples relacionados a um momento específico, acumulando-os para formar uma ideia das tendências gerais. O maior medo que tive foi ver muitos exemplos de tédio, que está para a aprendizagem como uma doença crônica está para a saúde – drenando, entorpecendo e removendo a esperança e a ambição. Os problemas agudos que observei não me preocuparam muito – apenas puxe o andon e trabalhe duro para corrigi-los permanentemente, como nos ensina o lean. Em geral, encontrei um processo de aprendizagem seguro entre as categorias 2 e 3 e algumas aprendizagens inspiradoras e outras sem graça. Eu estava preocupado com a quantidade de tempo gasto em atividades que exigiam conformidade e cooperação, mas que pareciam não agregar valor ao processo. Enxerguei uma enorme oportunidade ao permitir que os alunos fornecessem feedback para criar um círculo virtuoso de mais valor agregado.

O CLIENTE É O PRODUTO

Você pode estar familiarizado com a velha piada: “O que você ensina?”; “Eu ensino crianças”. Mas, quando pensamos no impacto que nosso ensino tem, uma discussão mais profunda sobre produto e cliente se faz necessária. Parte de nossa jornada no The Learning Trust (que inclui três escolas perto de Chester, Reino Unido) era definir quem é o cliente – é para eles que estamos criando valor –, e nossa conclusão foi que a criança é tanto o produto quanto o cliente.

Essa percepção permitiu melhorias cada vez mais radicais em nossas escolas e workshops. O lean é uma estratégia pioneira da Toyota que é familiar aos engenheiros e fabricantes de todo o mundo. O que descobrimos é que essa abordagem mais humana e empoderadora da mudança pode trazer melhorias surpreendentes na maneira como treinamos e educamos as crianças. De fato, o lean é uma estratégia de aprendizagem.

Em nosso trabalho inicial, generosamente apoiado pela equipe Toyota na fábrica de motores Deeside, presumimos que eliminar o desperdício na sala de aula significaria identificar práticas redundantes, como registro, transição e tempo de inicialização – as partes de uma lição que não focam no aprender. Envolver os alunos como clientes, no entanto, transformou essa visão, porque eles têm uma compreensão muito clara do que é a aprendizagem que agrega valor. Em um recente experimento lean, os alunos de nossas três escolas foram solicitados a cronometrar as partes das lições nas quais acreditavam estar aprendendo e, em seguida, explicar o que tornou essas atividades eficazes. Os resultados e as ideias foram fascinantes e permitiram que professores e líderes projetassem o tempo perdido em suas lições e programas de estudo, concentrando-se no que funcionava para os alunos e fornecendo isso em um modelo de “puxada”, enxergando os alunos tanto como o cliente, cujas necessidades precisavam ser atendidas, quanto como o produto – a própria demonstração dessas necessidades. Os resultados dos experimentos serão compartilhados na Global Learning Lean Summit, em outubro.

ESFORÇOS PIONEIROS

A Chester International School – parte do The Learning Trust – é a primeira escola lean do Reino Unido. Esperamos que os experimentos e o trabalho que estamos realizando inspirem mais escolas ao redor do mundo a adotar princípios lean.

Na prática, no entanto, o que significa uma abordagem lean na aprendizagem dos diferentes atores envolvidos?

Para começar, descobrimos que é necessário transparência e abertura. Os alunos sabem exatamente para onde estão indo e como devem chegar lá. Eles também sabem que têm os meios e a responsabilidade de recuperar o atraso sempre que ficarem atrasados por algum motivo. Parte dessa cultura de abertura é garantir que não haja surpresas desagradáveis: os alunos e seus pais são mantidos plenamente conscientes do progresso e dos próximos passos ao longo do ano.

Também é necessária uma maior abertura da equipe, porque caberá a eles, as pessoas mais próximas ao trabalho, realizar as mudanças. A chave para a aprendizagem ou a educação, como em outros lugares, é fazer com que as pessoas se apropriem de seu próprio trabalho. O trabalho é delas, e elas estão em melhor posição de melhorá-lo.

A mudança positiva começa com as equipes definindo seu próprio trabalho de valor agregado. Quando uma equipe tiver uma ideia clara de sua contribuição, será mais fácil identificar práticas e ineficiências redundantes. É a aceitação da equipe que gera mudanças e garante que as melhorias continuem mesmo quando a direção estiver focando em outras atividades. Esse efeito é especialmente poderoso quando as próprias equipes têm poderes para decidir como alocar os recursos economizados. Como o pensamento lean exige que as pessoas identifiquem sua própria contribuição ao trabalho de criação de valor e projetem suas próprias melhorias em torno dele, o resultado não é apenas a eliminação progressiva de desperdícios, mas uma mudança cultural fundamental em todo o ambiente de aprendizagem.

UMA PALAVRA DE CAUTELA

E a liderança? Ainda há um papel muito claro e importante para eles na definição dos objetivos e do ritmo de trabalho da melhoria e no processo de garantia da qualidade. Uma palavra de cautela é necessária, no entanto: se os líderes escolares decidem adotar o pensamento lean, precisam se comprometer totalmente com ele e honrar a metodologia em sua totalidade (uma abordagem de escolha e combinação não gera melhorias sistêmicas e sustentáveis).

A aprendizagem lean é uma abordagem que exige aos que estão no topo que compartilhem o poder de maneiras muito significativas. Por exemplo, um líder sênior não deve identificar eficiências e melhorias específicas, porque isso depende das equipes da linha de frente.

O lean é uma abordagem única para a solução de problemas, que capacita os colaboradores com um senso mais nítido do valor de sua contribuição e um compromisso reforçado para atender às necessidades dos alunos. Tem o potencial de mudar toda a cultura e mentalidade de uma escola. Foi demonstrado que ele oferece benefícios notáveis e mensuráveis, desde a obtenção de melhores resultados nos exames nacionais de matemática até a economia de centenas de horas da equipe nos processos internos de avaliação.

Fonte: Planet Lean

Sobre o autor

Tony Lamberton é o CEO do The Learning Trust, em Chester, Reino Unido.


Publicado em 23/09/2019

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