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O papel de um educador lean


O que realmente significa ensinar lean? A autora reflete sobre essa questão e compartilha algumas dicas sobre como engajar os aprendizes com sucesso em diferentes ambientes.

Monica Rossi

O papel de um educador lean

O que significa ser um educador lean?

Como professora assistente de uma das principais universidades da Itália, essa é uma pergunta sobre a qual reflito muito frequentemente. Para mim, qualquer um que ensine aos outros o pensamento e a prática lean é um educador lean – isso inclui os próprios professores, como eu, mas também os gerentes e os coaches.

É importante que não esqueçamos que somos todos aprendizes também e que lutamos para ser lean. Isso significa viver e respirar os princípios todos os dias, a começar por garantir que as necessidades dos nossos clientes (também conhecidos como nossos alunos) sejam sempre o foco.

Isso, entretanto, requer clareza absoluta sobre quem estamos ensinando, pois os desafios que encontraremos enquanto educadores variam muito dependendo de quem está na nossa frente.

QUEM ESTAMOS ENSINANDO?

É fundamental que nós, educadores, entendamos verdadeiramente quem vamos ensinar se quisermos realmente ter um impacto sobre nossos alunos. Até agora, tenho me habituado a ensinar principalmente dois tipos de alunos: alunos de mestrado e executivos de negócios. As duas experiências não poderiam ser mais diferentes!

Ensinar os alunos em uma universidade nos dá a oportunidade de moldar seu pensamento, que na maioria dos casos é livre de restrições e preconceitos. Ao tentar ensinar lean em uma organização, no entanto, normalmente nos deparamos com culturas estabelecidas há muito tempo e formas aparentemente inabaláveis de pensar. Qualquer pessoa que tenha se engajado em uma transformação lean saberá da dificuldade em mudar corações e mentes e, portanto, entenderá a importância da educação lean nas empresas.

Para mim, ambos os papéis são críticos. Quer estejamos mudando os mindsets ou moldando novos, nosso papel enquanto educadores lean não poderia ser mais importante. O futuro da nossa comunidade depende da nossa capacidade de entusiasmar as pessoas com o lean e ajudá-las a compreendê-lo.

A dificuldade de conseguir que os alunos absorvam e adotem o lean não é a única diferença entre ensinar estudantes universitários e executivos de empresas. Há também uma questão geracional que se manifesta aqui: os estudantes universitários costumam ser Millennials, enquanto os executivos são, na maioria das vezes, Baby Boomers ou da Geração X. Ambos têm sua própria maneira de aprender. E como se isso já não fosse difícil o suficiente, ainda temos uma nova geração (a Geração Z) batendo em nossa porta. Com eles, podemos esperar um jogo completamente diferente.

As pessoas da Geração Z aprendem rápido. Eles são empreendedores e ambientalmente conscientes. Eles estão muito envolvidos e esperam respostas imediatas. Eles nasceram na era digital e são, portanto, incrivelmente conhecedores da tecnologia (e provavelmente nunca colocaram os pés em uma biblioteca). O problema deles é que eles tendem a ter um foco de atenção muito baixo – 8 segundos em média (um peixe dourado, em comparação, tem 9 segundos!) –, algo que também está acontecendo cada vez mais a nós, à medida que a tecnologia (e a mídia social) influencia mais o nosso dia a dia. Isso está nos forçando a repensar a maneira como ensinamos.

COMO ENSINAMOS O LEAN?

Dadas as mudanças drásticas que a nossa sociedade está sofrendo, podemos usar métodos antigos de ensino para ensinar as novas gerações de alunos? E podemos esperar resultados positivos se fizermos isso? Acho que é crucial adaptar o nosso método de ensino às circunstâncias em constante mudança à nossa volta. Precisamos inovar para refletir o dinamismo da nossa sociedade.

Uma maneira recentemente estabelecida de ensinar é usando vídeo, e acreditamos que essa tendência deva permanecer no futuro. Os indivíduos da Geração Z passam até 10 horas por dia usando tecnologia, e boa parte disso é gasto assistindo a vídeos. Setenta por cento deles dizem que o vídeo os ajuda a aprender. Sem mencionar o fato de que o seu curto período de atenção exige mensagens simples e rápidas, o que o vídeo faz muito bem.

O conteúdo que ensinamos também precisa mudar. Mais uma vez, o lean vem nos ajudar. Há alguns anos, com a digitalização e a Indústria 4.0 se tornando alguns dos tópicos mais populares em salas de diretoria e ambientes acadêmicos, as pessoas se convenceram de que os dados consertariam o mundo. Dê dados às pessoas, e elas serão bem-sucedidas. Dados – o Santo Graal que resolverá todos os problemas da nossa empresa. O problema é que a humanidade tem acesso a tanta informação nos dias de hoje que está se tornando imperativo encontrar uma maneira de não se afogar nela. Não é suficiente coletar dados; precisamos coletar dados valiosos. Quem precisa dessa informação? Por quê? Em qual formato? Não faz sentido dar informações a alguém que não precisa delas. O pensamento lean cria pensadores críticos e bons tomadores de decisão e nos ensina quais informações são necessárias para quem, quando e por quê. O verdadeiro Santo Graal é usar os dados de uma maneira inteligente para resolver problemas sociais. Acho que há grandes lições a serem aprendidas aqui para nós, educadores, pois somos chamados para projetar currículos ou desenvolver um treinamento para uma empresa.

Se quisermos impactar o mundo de maneira significativa, a nossa abordagem de ensino também precisa se tornar mais holística. Embora o meu foco principal como professor seja o desenvolvimento de produtos lean, também ensino os meus alunos a economia circular, a gestão do ciclo de vida do produto e a startup lean.

Também precisamos mudar a maneira como envolvemos os alunos. Os jogos sempre funcionaram muito bem (eu uso um jogo com LEGO para ensinar aos meus alunos sobre engenharia simultânea baseada em conjunto e outro jogo chamado “O Jogo da Percepção do Ciclo de Vida” para ensiná-los sobre o ciclo de vida dos produtos), mas eles não são o único caminho. Também acho que ir ao gemba ajuda muito: por exemplo, levo os executivos em uma viagem de aprendizado ao Japão todos os anos para ajudá-los a apreciar diferentes aspectos do pensamento lean que eles não seriam capazes de testemunhar em seus locais de trabalho.

Finalmente, coloco muita ênfase no aprender fazendo. Já se foram os dias em que o professor chegava na lousa e falava para os alunos sem parar por uma ou duas horas. Para garantir que os alunos permaneçam interessados (e acordados), é necessário mantê-los ativamente engajados em atividades práticas. No início do meu curso, por exemplo, crio uma equipe de estudantes e peço a cada membro que escolha uma função, como se fizesse parte de uma equipe “multifuncional” em uma empresa. Então, passo um desafio (“Crie um produto que facilite a vida da Monica – uma professora ocupada que vive viajando”) e peço que preparem um protótipo de um produto. Ao longo das aulas, ensino a todos os conceitos de que precisam, mas também peço que os coloquem em prática. Acho que isso é uma forma muito mais eficaz de ensiná-los: envolve, entretém e ajuda os alunos a aprender com o trabalho e com os erros.

A figura de um educador lean é muito diversificada. Mas há uma coisa que todos nós temos em comum: o desafio de encontrar a melhor maneira de ensinar os nossos alunos e transformá-los em pensadores lean. É importante continuarmos conversando sobre como podemos fazer isso melhor. Junte-se a mim na Conferência Europeia de Educadores Lean em Milão, de 11 a 13 de novembro – todos são bem-vindos, de acadêmicos a CEOs, de coaches a consultores.

Fonte: Planet Lean

Sobre a autora

Monica Rossi é professora assistente no Politecnico di Milano, na Itália, e membro do Istituto Lean Management.


Publicado em 20/08/2019

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