Serviços e Processos Administrativos

Aperfeiçoando o processo de rematrícula com o gerenciamento diário


Neste segundo artigo da série, veremos como o grupo utilizou a mentalidade enxuta em uma das áreas que causam mais problemas nas instituições de ensino superior no Brasil: o setor de atendimento a protocolos de rematrícula.



Thiago da Silva Gonçalves
Robson Gouveia

Em 2017, vimos como a Ânima construiu uma central lean de relacionamento com os alunos. Desde aquela época, quando o grupo iniciou sua jornada lean, é possível perceber o foco da empresa em garantir a satisfação de seus alunos. Essa é uma estratégia que parece levar a empresa ao caminho certo e satisfaz um dos objetivos básicos da filosofia lean: pensar sempre no cliente. Dessa vez, o grupo educacional mostra como continua tentando sempre agregar mais valor para seus alunos ao tentar reduzir o número de protocolos relacionados aos processos de matrícula e rematrícula de suas instituições de ensino, garantindo que os alunos recebam um atendimento mais eficiente e enfrentem menos problemas nesses processos.

Quando em 2017 o setor de rematrículas recebeu o desafio de escrever seu primeiro A3, a maioria das pessoas naquela área sequer sabia o que o termo significava. Passado pouco mais de um ano, é notória a evolução que eles tiveram tantos nos resultados relacionados aos objetivos do grupo e do setor quanto no nível de entendimento sobre a mentalidade enxuta e todas as ferramentas que ela traz. Hoje, o setor tem uma lição importante a passar: engaje-se na filosofia lean e faça com que seu pessoal também se engaje. Se isso acontecer, utilizando o lean de forma plena, você ficará surpreso com o que as pessoas serão capazes de conquistar sem muito esforço ou investimento.

“Como tudo isso ocorreu?”, você pode se perguntar. Bom, para responder a essa pergunta, é necessário primeiro entender o contexto que o setor estava vivendo antes de iniciar seus esforços lean. Para isso, precisamos voltar a um momento em que a Ânima ainda não era adepta da filosofia lean e buscava formas de oferecer um melhor serviço para seus clientes, que, no caso, mais do que isso, são alunos, ou seja, a base para um futuro melhor para toda a sociedade brasileira.

O contexto

É muito comum no mundo de hoje vermos pessoas insatisfeitas com produtos que compram, pois não acham que receberam o valor que esperavam pelo investimento que tiveram. Mais comum ainda, entretanto, é ver pessoas insatisfeitas com serviços que recebem, novamente por não reconhecerem um valor adequado a seu investimento. Hoje isso é fácil de enxergar, pois temos muitas ferramentas, como as redes sociais, que tornam simples para o cliente fazer seus comentários e reclamações. Uma boa parte das reclamações se deve ao atendimento inadequado que muitas empresas, especialmente de serviços, oferecem. O setor educacional não costuma ser diferente, principalmente no que tange ao processo de rematrícula.

O período de rematrícula é sempre um período de muita correria e complexidade para as universidades. Nesse período, o número de protocolos abertos por alunos solicitando atendimento aumenta de uma forma exponencial. Por isso, a Ânima monta uma estrutura temporária de atendimento, chamada de Secretaria Virtual, quando essa época chega. O grupo sempre teve muitos problemas e muitas reclamações relacionadas à essa estrutura, que tem a difícil missão de atender os protocolos abertos pelos alunos que estão com problemas na hora da rematrícula.

Antes do lean, a Secretaria Virtual da Ânima enfrentava dificuldades relacionadas à comunicação, ao cumprimento de datas, aos testes e à revisão dos processos. O processo era inadequado e não permitia a identificação de problemas com antecedência. As correções eram feitas manualmente, o que gerava um número alto de protocolos abertos e um alto nível de insatisfação por parte dos alunos. Não havia como negar que algo precisava ser feito para que os alunos das instituições do grupo conseguissem sentir que o valor que estavam recebendo era adequado a seu investimento. Mas como solucionar problemas complexos em um setor tão complexo como esse? A resposta é acompanhando-os diariamente.

A busca pelo gerenciamento diário

Sempre foi uma prática muito comum nas empresas fazer reuniões de acompanhamento em uma base mensal, bimestral, trimestral, semestral ou até anual. Entretanto, a filosofia lean prega que o acompanhamento dos indicadores precisa ser feito em uma base diária se você quiser ter controle sobre seus processos e agir sempre que um problema for detectado para evitar que ele se repita. Essa ferramenta conhecida como gerenciamento diário (ou GD) foi a primeira a ser introduzida no setor de rematrículas da Ânima e é até hoje a base para tudo que eles fazem.

Um dos maiores problemas que o gerenciamento diário enfrenta reside logo no início da transformação: a resistência dos colaboradores. É fácil imaginar que as pessoas resistam à ideia de acompanhar diariamente os números e os indicadores do processo. Essa parece ser uma tarefa tediosa e pouco produtiva sob o olhar de pessoas leigas no assunto. Entretanto, trazer as pessoas a bordo é a função do líder, e isso é vital para garantir que o gerenciamento diário funcione. Na Ânima, a resistência inicial das pessoas foi superada, e hoje o GD se tornou algo natural para elas porque as pessoas passaram a entender a essência do GD e a enxergar que aqueles quinze minutinhos investidos todo dia traziam retorno, uma vez que os problemas eram prontamente identificados assim que ocorriam e não voltavam a se repetir.

GD no setor de rematrículas da Ânima

Essa prática trouxe excelentes benefícios para a empresa, tanto no curto quanto no longo prazo. Com base no GD, a Ânima definiu seu norte verdadeiro, algo que o grupo ainda não tinha claro para todos que ali trabalhavam, construiu seu primeiro A3, que serviu para mostrar como a situação estava, aonde eles queriam chegar, como chegariam lá e como acompanhariam seus indicadores através da prática do gerenciamento diário e desenvolver uma série de kaizens para garantir que os processos fossem melhorados continuamente. Foi aqui que nasceu a virada lean do setor.

Melhorando o processo

O gerenciamento diário e os posteriores desenvolvimentos do A3 e dos kaizens permitiram que a Ânima chegasse a algumas conclusões sobre quais deveriam ser suas metas para garantir que as reclamações relacionadas ao processo de rematrícula caísse consideravelmente. As principais metas que a área definiu incluíam diminuir o número de protocolos recebidos referentes a esse processo e o tempo de atendimento aos protocolos. Entretanto, havia outro indicador que demonstraria com uma incrível exatidão se o processo estava realmente melhorado ou não: o número de recorrências, ou seja, o mesmo protocolo sendo feito pelo mesmo aluno uma segunda vez porque seu problema não havia sido resolvido na primeira. Esse número na época chegava a 24% do número total de protocolos, ou seja, 24% dos alunos não conseguiam solucionar seus problemas com apenas um protocolo.

A partir dessa visão clara do que se quer melhorar, fica mais fácil proceder a uma análise de causas e buscar contramedidas que consigam trazer benefícios reais ao processo e caminhar em direção à visão do estado futuro definido pela empresa. A Ânima criou planos, desenvolveu outros A3, kaizens e formas de acompanhar os indicadores para diminuir essa estatística e tornar o processo mais fácil para seus alunos. Em pouco tempo nessa jornada, a empresa já conquistou resultados expressivos.

Os resultados

Durante o período em que o setor de rematrícula da Ânima utilizou o gerenciamento diário para acompanhar seus indicadores principais, identificar e rapidamente solucionar problemas e buscar a melhoria contínua através do kaizen, muitos resultados foram alcançados, tanto quantitativos quanto qualitativos. É evidente o papel que o GD tem hoje no setor, e é muito fácil também enxergar os benefícios que ele trouxe assim que você entra em contato com a área. Os principais indicadores que mostram essa evolução que eles tiveram são:

  • Redução no número de protocolos recorrentes em 26%. Isso foi obtido através de um kaizen, que identificou uma oportunidade de melhoria na forma como as universidades contatavam os alunos.
  • Redução no número de alunos recorrentes em 16%. Atrelado ao mesmo kaizen, esse resultado mostra como se tornou mais fácil para os alunos resolver seu problema em apenas um atendimento.
  • Melhora no indicador. Após uma customização em um dos indicadores, hoje a área trabalha na prevenção dos erros e, quando identifica, atua na causa raiz.
  • Aumento no engajamento da equipe. A partir do momento em que o GD se tornou algo natural para as pessoas, todos passaram a enxergar e a entender os problemas que aconteciam, tornando-se mais sensibilizadas, empáticas e solícitas. Hoje, é comum ver os colaboradores do setor tomando a iniciativa para ajudar seus colegas de trabalho.

Próximos passos

O setor de rematrícula da empresa ganhou força e confiança com esses resultados iniciais obtidos com sua iniciativa lean. Por isso, eles já começaram a pensar em novos projetos para investir no futuro e expandir o lean para outras situações. Através de uma conversa com os coordenadores, eles perceberam que existem outros desafios que precisam ser atacados, pois o trabalho nunca termina, e sempre há espaço para melhoria.

A equipe já começou a trabalhar em um novo A3 para garantir um processo de matrícula simples, fácil e sem erros. Dessa forma, eles vão garantir que seus alunos recebam o melhor valor possível, evitando que percam tempo reclamando com esse processo e foquem cada vez mais em seus estudos para transformar a realidade de nosso país e dar uma virada lean na sociedade em que vivemos.

Não perca a terceira e última parte da série Anima que será lançada em alguns dias. Trata-se de uma entrevista com a visão da liderança sobre a transformação.

Sobre os autores

Atua como líder da área de rematrícula de graduação e pós-graduação, cuidando de todo o processo de renovação de matrícula, interface com os diretores, coordenadores de curso e atendimento aos alunos. Graduado em Logística pelo Centro Universitário Una.

Robson Gouveia é Head de Transformação Lean em Serviços do Lean Institute Brasil. Nos últimos 22 anos tem acumulado experiências de transformação, inicialmente na Alcoa, onde foi corresponsável pelo desenvolvimento do ABS - Alcoa Business System, e em diversas outras organizações de serviços, tais como bancos, seguradoras, construtoras, comunicação e entretenimento, educação, concessionárias de mobilidade, dentre outros.  Sênior coach no suporte a empresas para o planejamento e desdobramento estratégico. Especialista em liderança lean, atuando como agente de transformação para empresas que estão revendo suas práticas de gestão. Palestrante e autor de diversos artigos da comunidade lean nacional e internacional. Administrador e Engenheiro, com MBA em Logística Empresarial e Supply Chain pela FGV-SP.


Publicado em 13/02/2019

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