SAÚDE

Qual é a cor?

Stephen Yorkstone e Hazel McPhillips
Qual é a cor?
Uma equipe de uma universidade escocesa desenvolveu um controle visual para fluidos corporais que está resolvendo um problema complexo na área da saúde.

Na área da saúde, existe uma pergunta simples e necessária, mas que pode causar confusão, constrangimento e perda de tempo: "Qual é a cor?".

Na Escola de Saúde e Assistência Social da Edinburgh Napier University, estamos lançando uma nova ferramenta digital, gratuita, desenvolvida para fazer uma única coisa: fornecer um padrão visual comum e clinicamente relevante para comunicar a cor de fluidos corporais.

Em termos lean, trata-se de um poka-yoke (dispositivo à prova de erros) baseado em gestão visual para a comunicação com pacientes. O objetivo é pegar um processo que é subjetivo, variável e sujeito a interpretações equivocadas (pedir ao paciente para lembrar e descrever a cor de algo) e aplicar um padrão claro a ele.

E sim, estamos falando de urina, fezes e escarro!

O problema: usar palavras para descrever cores

Como pensadores lean, sabemos que a ambiguidade pode ser inimiga da qualidade. No entanto, na prática clínica, muitas vezes dependemos de palavras vagas para descrever coisas que a linguagem verbal não consegue representar bem.

Por exemplo, quando um paciente descreve algo como "meio que amarelo escuro", o médico imagina "provavelmente âmbar", mas no prontuário escreve "concentrado", quebramos a cadeia de comunicação precisa. Na pediatria ou no cuidado de pessoas com condições neurológicas ou com barreiras linguísticas, essa lacuna de comunicação aumenta ainda mais.

Há também um problema de natureza humana: falar sobre fezes é constrangedor. Nos apressamos para encontrar as palavras certas porque, compreensivelmente, queremos que a conversa acabe logo. Isso leva a descrições vagas e dados de baixa qualidade, o que, por sua vez, pode levar a decisões clínicas menos adequadas.

Para ajudar nisso, percebemos que não precisávamos de mais palavras, mas de um controle visual padronizado.

A ideia: um controle visual para comunicação

A ferramenta "What Colour Is It?" (Qual é a cor?) é um site simples e acessível. Com o mínimo de texto, apresenta paletas de cores validadas para urina, fezes e escarro.

Em vez de pedir ao paciente para descrever uma cor, o profissional de saúde pode simplesmente mostrar a paleta em um celular ou tablet e solicitar que ele aponte a cor que mais se aproxima de sua lembrança.

Isso muda a pergunta de uma "pergunta aberta" descritiva e subjetiva para uma "pergunta fechada" de identificação objetiva. É a diferença entre pedir a alguém para descrever um tom específico de azul e mostrar uma amostra de cor. Mesmo que a amostra não seja perfeita, é um ponto de partida para uma conversa mais útil sobre as diferenças percebidas.

A comunicação, é claro, nunca será perfeita; ainda haverá áreas confusas e situações em que a ferramenta não será totalmente precisa, mas nossas pesquisas iniciais mostram que a ferramenta ajudará significativamente.

O desenvolvimento: expertise clínica, técnica e lean

Nosso processo de desenvolvimento foi colaborativo, com a equipe reunindo uma combinação de expertises clínicas e não clínicas. Uma de nós, Hazel, nossa líder clínica, é Enfermeira de Prática Avançada e docente, com ampla experiência (em breve doutora), além de ser sinesteta — para ela, cor é praticamente uma segunda língua. Outro membro da equipe, Stephen, trouxe a perspectiva lean, a arquitetura de melhoria e o conceito inicial da solução. Manish Khatri, nosso desenvolvedor web, garantiu que a ferramenta fosse rápida, acessível e fácil de usar.

Durante nossas conversas de desenvolvimento, percebemos a necessidade de identificar tecnicamente as cores que estávamos discutindo. Mais tarde, entendemos que esse insight poderia se tornar parte da ferramenta a ser usada na prática clínica. Para garantir que os dados sejam robustos o suficiente para os registros clínicos, cada tonalidade da nossa paleta está associada a um código HEX específico.

Para quem não está familiarizado, um código HEX é um identificador alfanumérico de seis dígitos usado para definir cores em telas. Ao utilizar esses códigos, conseguimos registrar a descrição de sintomas com muito mais precisão. Assim, "amarelo cor de palha" torna-se #F8F6E1. É pesquisável, consistente e universal. Transforma uma observação subjetiva em um dado concreto. Se você digitar #F8F6E1, a cor aparecerá na tela.

Para criar as paletas de cores, conduzimos um processo sistemático de desenvolvimento. Revisamos cartazes, folhetos e tabelas clínicas existentes, consolidamos as informações, eliminamos duplicidades e agrupamos as cores por tonalidade. Em seguida, racionalizamos tons semelhantes para evitar sobrecarga visual, sem comprometer a precisão da descrição clínica, um processo validado por colegas especialistas.

Descobrimos que existem, de fato, muitos gráficos de cores por aí, mas que eles são, em sua maioria, recursos diagnósticos voltados a quadros clínicos específicos ou a determinados perfis de pacientes. Ficamos genuinamente surpresos ao não encontrar ferramentas gerais, acessíveis, voltadas à comunicação clínica sobre cores — que é exatamente o papel que pretendemos que o "What Colour Is It?" cumpra.

Levamos essas paletas de cores em versão protótipo a um grupo de especialistas composto por 13 enfermeiros seniores, atuantes nas áreas de pediatria, atenção aguda, clínica médica, cirurgia e neonatologia. O feedback foi unânime: 100% consideraram a ferramenta benéfica, e a maioria afirmou que a utilizaria diariamente.

"Acho que é um conceito excelente. Na prática, é sempre muito difícil identificar descritores realmente precisos, e isso tende a ser bastante subjetivo. Ter um sistema universal de cores ajudaria no diagnóstico", afirmou um dos especialistas.

"É muito útil quando a cor pode ser tão subjetiva. Faz com que todos trabalhem a partir da mesma referência e facilita para os pais, em vez de terem que descrever. Crianças mais velhas costumam ficar constrangidas com esse tipo de assunto, então a ferramenta também seria ideal para elas", comentou outro participante.

"Gostei muito da ideia e já vivi muitas situações em que uma ferramenta como essa teria sido particularmente útil para a identificação precisa das cores, apoiando a avaliação do paciente", disse outra enfermeira.

As pessoas com quem conversamos foram claras sobre o que seria necessário para que a ferramenta funcionasse na prática: ela precisava ser gratuita, funcionar offline (já que o Wi-Fi hospitalar costuma ser instável) e ser adaptável ao uso em dispositivos móveis.

Foi exatamente isso que construímos!

As reflexões: pensamento lean na prática

Este projeto é um exemplo prático de resolução de problemas lean. Muitas vezes, tentamos resolver problemas de comunicação com mais treinamentos ou formulários mais longos. Ao observar o processo, percebemos que, como acontece com frequência, a solução mais simples é a melhor.

Ao aplicar um controle visual, alcançamos vários benefícios simultaneamente:

  • Padronização: todos passam a trabalhar a partir da mesma referência.
  • Eficiência: o processo de coleta da história clínica torna-se mais rápido.
  • Dignidade: reduz o constrangimento e o atrito social para o paciente.
  • Segurança: evidencia sintomas importantes que poderiam se perder na tradução e garante registros mais precisos das descrições feitas pelos pacientes.

A receptividade ao lançamento do nosso site em versão de teste, no início deste mês, foi excelente, com pessoas acessando a ferramenta em diversas partes do mundo.

Seguindo em frente: pequenas mudanças, grandes diferenças

Sempre acreditamos que pequenas mudanças, bem executadas, se somam para gerar um grande impacto. Esta ferramenta não é uma transformação empresarial de milhões de libras. Ela é uma solução simples e elegante para um problema complexo e delicado. E, se ganhar escala? Ela produzirá um impacto muito maior do que qualquer investimento milionário.

Atualmente, a ferramenta está disponível como teste. Estamos convidando a comunidade global de lean na saúde a testá-la, explorá-la a fundo e nos dizer o que funciona. Estamos coletando dados de usabilidade e iremos refinar as paletas com base no feedback do mundo real. É possível encontrar um e-mail para isso no site ou utilizar o formulário de feedback disponível por lá.

Queremos nos afastar de parte do "achismo" na descrição clínica de cores e avançar para um futuro em que a cor seja um dado mais confiável. Por isso, da próxima vez que você pedir a um paciente que descreva a cor de algo e ele ficar sem palavras, não peça que ele descreva. Peça que ele aponte.

Acesse o site, compartilhe a ferramenta com amigos e colegas e, se você for profissional de saúde, não se esqueça de salvá-la nos seus favoritos, para encontrá-la facilmente quando precisar.

Você pode acessar a ferramenta gratuitamente aqui.

Publicado em 22/01/2026

Autores

Stephen Yorkstone
Consultor de Melhoria de Negócios na Edinburgh Napier University
Hazel McPhillips
Enfermeira de Prática Avançada e docente na Edinburgh Napier University

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