Crescer sem investir: estratégia lean de investimento


Estratégia e Gestão
José Roberto Ferro - 01/01/2012

O artigo destaca aponta para a importância do pensamento lean no momento de decisão sobre o incremento da capacidade produtiva e a possibilidade de crescimento sem a necessidade de novos investimentos.

Quando a economia inicia uma recuperação e a capacidade ociosa das empresas diminui, o senso comum nos leva a pensar em novos investimentos. Correto? Não necessariamente, se você pensar lean.

Antes de decidir investir em novas máquinas e equipamentos, contratar mais gente e ampliar as instalações, as empresas deveriam fazer uma reflexão e um exame mais profundo de suas operações e de suas estratégias de investimento. Pensar lean (ou pensar enxuto) pode permitir um significativo incremento de capacidade produtiva sem necessidade de novos investimentos.

Mas como isso é possível? A filosofia lean de negócios visa criar valor para os clientes e eliminar os desperdícios procurando melhor qualidade, menores custos e menor lead time possíveis através da aplicação dos princípios do fluxo contínuo, da produção puxada e da qualidade construída nos processos. As bases para isto são o trabalho padronizado, a melhoria continua e o nivelamento das operações.

Uma melhor maneira de evidenciar o impacto de uma transformação lean na liberação de capacidade produtiva pode ser vista em um exemplo abaixo, que representa o que vem acontecendo em diversos casos concretos.

Situação original
Situação 1 ano após o inicio da transformação lean
Volume de produção
100
200
Área ocupada
100
80
Utilização da capacidade
70%
90%
Qualidade (refugos)
8%
1,5%
Lead Time (dias)
75
34
Custos
100
80

Uma empresa pode sair da situação original e chegar à situação futura após 1 ano do início da utilização correta das ferramentas lean. Inicialmente, deve-se elaborar o mapa do fluxo de valor para uma família de produtos, ou seja, representar visualmente os fluxos de informações e materiais de todas as operações necessárias para transformar as matérias-primas em produtos acabados.

O projeto do estado futuro e o plano de ação indicarão as melhorias necessárias para fazer o produto fluir, sem esperas e retrabalhos. Assim, a empresa produzirá apenas o necessário quando necessário reduzindo os lead times e níveis de estoques. Para viabilizar isso, são necessários esforços para aumentar a disponibilidade das máquinas e equipamentos através da manutenção adequada, a solução imediata de problemas e a troca rápida de ferramentas para facilitar as mudanças de modelos. Essa redução dos estoques (e dos lead times) implicará maior capacidade de resposta e liberará espaço físico antes improdutivo, pois era usado para abrigar estoques em excesso. A melhoria dos níveis de qualidade, com a adoção de práticas da qualidade construída no processo e, a correta utilização do trabalho padronizado e do nivelamento, também servirão para liberar capacidade e reduzir custos.

Com isso, será possível produzir o dobro do volume original com menos área ocupada, as mesmas máquinas, equipamentos e pessoas e ainda, com custos menores e melhor qualidade. Mesmo após tais esforços de transformação, podem ser efetivamente necessários novos investimentos. Como utilizar o modo lean de pensar neste caso? A resposta é simples. Deve-se apenas tentar disponibilizar nova capacidade de acordo com a nova necessidade da demanda.

Desse modo, a estratégia lean de investimentos implica linearidade do capital e do trabalho, o que significa projetar e comprar maquinaria que permita a adição (ou subtração) de pequenas quantidades de capacidade. Desse modo, as quantidades de capital (e de trabalho) podem ser niveladas, quase linearmente. O investimento é como a produção JIT (Just in Time), ou seja, na hora certa, na quantidade certa e do tipo certo.

A capacidade ociosa nas empresas reflete uma disposição estratégica de crescer à frente da demanda de modo a garantir posições de mercado já conquistadas e funcionar como uma barreira à entrada de novos competidores. Ou então, ocorre a partir de erros e projeções otimistas sobre o comportamento futuro da demanda. Investir a mais ou antes da hora gera mais desperdícios, e não riquezas.

Muito freqüentemente, essa capacidade ociosa está distribuída desigualmente nas plantas industriais. Enquanto pode haver processos estão trabalhando muito próximo ou abaixo do ritmo da demanda (exigindo horas extra, por exemplo), há outros com sobras e excessos, com equipamentos e máquinas ociosas. Essa capacidade existente, mas desnecessária e não utilizada no momento, representa uma quantidade enorme de desperdícios.

Mas há outros sintomas de desequilíbrios nos sistemas de produção. Um estudo da Secretaria do Trabalho da Prefeitura de São Paulo, baseado em dados do PNAD-IBGE, mostrou que em 2002, ano de baixa ocupação da capacidade e baixa atividade econômica, antes portanto do recente crescimento da produção, quase 40% da força de trabalho fazia horas extras. A maior parte desta necessidade de trabalho adicional deve-se às ineficiências na produção, servindo assim para reparar problemas enfrentados na jornada normal.

A utilização de horas extras pode efetivamente contribuir para solucionar eventuais faltas de produção ocorridas por diversos problemas e, talvez mais importante, pode ser uma maneira de adicionar capacidade, de forma sistêmica, em que todas as áreas produtivas façam, até que se assegure ser essa demanda adicional sólida o suficiente para justificar uma expansão.

A essência da filosofia lean é aproveitar ao máximo a capacidade produtiva para criar valor aos clientes, ocupando plenamente os recursos investidos em máquinas, equipamentos, instalações, materiais e pessoas. Assim, é bom ter cautela antes de comprometer recursos com novos investimentos. Caso eles se provem indispensáveis, pense lean ao escolher as máquinas e equipamentos.

Há na sociedade e no governo um forte desejo de ampliar os investimentos para fazer crescer a economia. Mas devemos ser capazes de enxergar que investir, ampliar e contratar sem as precauções apontadas, pode significar simplesmente um "inchaço" das empresas, sem efetivos ganhos de eficiência.

Ao utilizar os conceitos lean, as empresas podem adiar ou reduzir os investimentos em um primeiro momento. Com isso, haverá um substancial aumento da produtividade para as empresas e para a economia como um todo, no médio e longo prazo, garantindo assim uma efetiva retomada do crescimento econômico e aumento do emprego em bases muito mais sólidas e sustentáveis.



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