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Maioria acha que felicidade no trabalho é responsabilidade do chefe e gestão lean pode ajudar nisso

Flávio Augusto Picchi
Maioria acha que felicidade no trabalho é responsabilidade do chefe e gestão lean pode ajudar nisso
Na gestão lean há diversas mentalidades, posturas, atitudes e ações intrínsecas da liderança que podem gerar também uma maior satisfação dos colaboradores

Estudo Wellbeing Insights mostra que a maioria dos profissionais acha que felicidade no trabalho é responsabilidade do chefe (Foto: GETTY IMAGES )



Uma pesquisa recente revelou um fenômeno provavelmente muito significativo sobre a relação das pessoas com seus líderes no cotidiano das empresas. Intitulado Wellbeing Insights, o estudo, encomendado pelo site de busca de empregos Indeed, questionou 5 mil trabalhadores dos EUA sobre o tema felicidade no trabalho. A maioria respondeu que não são eles, os próprios trabalhadores, os responsáveis por promover a felicidade no trabalho, mas, sim, os chefes.

Um grupo de 19% pensa que essa responsabilidade é do gestor direto; 14%, da alta liderança; 11%, do CEO; e 10%, do departamento de RH. Outros 40% atribuíram essa responsabilidade a si próprios.

Trata-se de uma mudança considerável na mentalidade organizacional. Os líderes, antes responsabilizados pelos resultados, pelas estratégias e pela performance das companhias, agora também têm como prerrogativa, na visão cada vez mais empoderada das pessoas, de gerar e manter a felicidade dos liderados.

Historicamente, os modelos mais tradicionais sempre tenderam a não ligar para essa questão. Quando muito, deixavam isso por conta de estratégias pontuais e específicas (por exemplo, as feitas pelos setores de recursos humanos).

No entanto, os tempos mudaram, e hoje trabalhar em prol da felicidade no trabalho é mais um desafio para as lideranças – como se vê, quase que obrigatório. Nesse sentido, há um elemento que pode fazer a diferença: o sistema de gestão.

A boa notícia é que o sistema lean traz de forma intrínseca uma série de conceitos e práticas que, se bem aplicados, podem ajudar nesse processo. Em outras palavras, na gestão lean, há diversas mentalidades, posturas, atitudes e ações intrínsecas da liderança que podem gerar também uma maior satisfação das pessoas.

Por exemplo, quando os líderes trabalham intensamente e efetivamente para ajudar os times a melhorarem seus processos, eliminando desperdícios e resolvendo problemas. Fazer com que as pessoas trabalhem em processos ruins, mal desenhados, lotados de desperdícios, de retrabalhos e de burocracias é uma das piores formas de gerar infelicidade.

Nesse contexto, o melhor líder lean é aquele que, por exemplo, treina e coloca em prática a chamada “escuta ativa”. Ou seja, busca ouvir as pessoas de forma respeitosa e paciente, mas, essencialmente, tentando entender as distintas percepções, vivências e experiências.

Colocando-se mais do que “chefe”, mas como mentor que ouve no sentido de entender como ajudar, apoiar e orientar as pessoas no sentido de trabalharem melhor.

Como consequência, ao ouvir, entender e dialogar profundamente com liderados, o líder lean é aquele que vai apoiar os times nas resoluções científicas – o que é bem diferente de apenas “cobrar” as soluções.

Tudo isso requer, por parte das lideranças, aprender e colocar em prática uma série de mentalidades e comportamentos distintos das gestões mais tradicionais.

Por exemplo, dar às pessoas maior autonomia, com responsabilidade, para que elas, de forma estruturada, sintam-se motivadas a entenderem, por si só, as causas raízes dos problemas e agirem no sentido de eliminá-las, melhorando, assim, os processos.

Nesse contexto, saber como dar autonomia é essencial. E boa parte das vezes os líderes pecam nesse sentido, mantendo e fortalecendo o comando e o controle e as estruturas burocráticas voltadas para isso. O que “mata” a autonomia e, por consequência, gera insatisfação.

Em paralelo, é preciso que os líderes saibam como criar, manter e reforçar cotidianamente os ambientes de segurança psicológica. Ou seja, dando condições para que as pessoas não sintam medo de retaliações e consigam, de fato, revelar problemas e participar da proposição de alternativas inovadoras e da implementação de experimentos.

Essas e outras práticas da liderança lean são pilares da gestão lean, que é baseada no que chamamos de “liderar com respeito”.

A experiência nos mostra que esse modelo, além de gerar resultados maiores, melhores, mais sólidos e sustentáveis, também tende a aumentar a felicidade das pessoas no trabalho, hoje tão buscada e creditada à ação dos líderes.

Publicado em 21/09/2022

Autor

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.