CONSTRUÇÃO

Potencializando resultados de custo e prazo em obras por meio da sinergia lean e BIM

Flávio Augusto Picchi e Renato Mariz
Potencializando resultados de custo e prazo em obras por meio da sinergia lean e BIM
Veja como essa união perfeita pode gerar processos mais eficientes e com menos desperdícios ao mesmo tempo em que alimenta uma cultura positiva nos empreendimentos.

A união da filosofia de gestão lean e da metodologia BIM – Building Information Modeling – torna possível a identificação de desperdícios e interferências na obra de modo antecipado por meio da visualização e simulação da construção. Esses dois conceitos, quando bem entrosados, permitem que os processos sejam claramente integrados e que os times contribuam, de fato, para um resultado superior. Mais do que uma mera alegação, as pessoas que já ousaram com essa aliança puderam enxergar e comprovar seus ganhos, em especial no que se refere ao aumento de produtividade e redução de custos.

Há pouco mais de 10 anos, tanto o lean quanto o BIM vêm crescendo no setor de construção. Contudo, poucos ainda perceberam que os dois combinados trazem resultados muito maiores do que se usados separadamente. Mas como podemos combinar de forma eficiente lean e BIM? As possibilidades são inúmeras, e elas podem ser aplicadas em todas as etapas de um empreendimento. Vejamos cinco aplicações possíveis:

1) Desenvolvimento do projeto. O BIM tem revolucionado este processo, integrando informações a objetos, possibilitando a detecção de interferências, facilitando a colaboração entre projetistas etc. A filosofia lean tem um enfoque específico para projetos que se aplica totalmente à construção e que é inspirada em práticas de desenvolvimento de produtos e processos industriais. Traz elementos como LPPD (Lean Project and Process Development), LeanIPD (Integrated Project Delivery), Target Cost/Target Value Design, engenharia simultânea, interações entre disciplinas em pequenos lotes, gestão através de obeya (sala de guerra), prototipagem rápida, entre outros. Tudo isso fica altamente facilitado com o uso do BIM que permite simulações de conforto térmico, acústico, checagem de conflitos, detecção de interferências, simulações de execução e principalmente de custos, fato este que gera projetos e obras mais rápidas, de melhor qualidade e com menores custos de implantação e operação.

2) Planejamento de obras. Muda completamente com a gestão lean ao se utilizar de uma lógica de fluxo contínuo e sistema puxado. A programação e o controle ocorrem por meio de rotinas semanais e diárias, com ajustes rápidos na origem dos desvios e problemas, garantindo maior aderência ao planejado. As possibilidades do BIM para potencializar esse processo são inúmeras, como: a simulação 4D, visualização do progresso em 3D, utilização do modelo para complementação de informações para o uso do gerenciamento diário, o registro do executado por dispositivos móveis e drones conectados ao modelo da obra etc.

3) Produção. Este está no coração do sistema lean e eleva a produtividade dos processos. Isso ocorre com a observação detalhada do trabalho no gemba (onde as coisas acontecem). A aplicação dessa análise usando BIM possibilita estudos prévios e simulações. Isso antecipa movimentos e interferências entre trabalhadores e equipamentos e identifica as melhores formas de execução, considerando menor esforço com maior segurança e ergonomia. O modelo da obra conectado ao trabalho padronizado facilita a comunicação com os operadores e o treinamento da mão de obra fica muito mais efetivo ao se utilizar realidade virtual e aumentada.

4) Processos de compras e logística. Estes também podem ser totalmente transformados ao se usar a lógica lean de kits puxados e entregas just-in-time, facilitados pelo uso de informações precisas de quantidades, custo e tempo associadas a cada elemento no modelo BIM. Simulações de layouts, estoques e movimentações podem otimizar o fluxo de materiais, eliminando esperas e desperdícios.

5) Transformação cultural. O lean vai muito além de mudanças operacionais, sendo considerado um fator de transformação estratégica nas empresas. Isso se concretiza com uma profunda mudança cultural puxada por comportamentos de uma liderança focada em desenvolver parcerias em toda a cadeia produtiva. Por exemplo, em processos colaborativos como a IPD (Integrated Project Delivery) e com o cotidiano desenvolvimento das equipes como solucionadoras de problemas. A transparência e a disponibilização de informações confiáveis, compartilhadas e atualizadas, propiciadas pelo BIM, são fatores decisivos para que isso possa ocorrer.

Esses são apenas alguns exemplos. Conforme se aumenta a combinação eficiente entre lean e BIM, surgem novas possibilidades de integração para melhorar processos, solucionar problemas na prática e trazer melhores resultados.

A construção passa por um momento de clara necessidade de um salto de produtividade e eficiência frente às maiores exigências de clientes e elevação de custos de insumos. Ao pensar de forma lean, as empresas do setor têm grande oportunidade de rever os modelos tradicionais, serem ágeis e usarem adequadamente a tecnologia. Contratantes públicos e privados também já percebem os ganhos potenciais e começam a incorporar requisitos relacionados tanto ao lean quanto ao BIM em exigências contratuais.

Embora o uso do lean e BIM venha crescendo no setor, o momento é ainda de aprendizado. Não perca a oportunidade de explorar o quanto antes as enormes sinergias que a aplicação conjunta desses conceitos pode trazer para a competitividade das empresas e obras.

Publicado em 21/07/2022

Autores

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.
Renato Mariz
Gerente de Projetos do Lean Institute Brasil.
Planet Lean - The Lean Global Networdk Journal