LOGÍSTICA E CADEIA DE SUPRIMENTOS

Criando valor através da logística reversa

Alvair Silveira Torres Júnior
Criando valor através da logística reversa
O lean thinking permite uma perspectiva de criação de valor sobre a logística reversa, com uma aplicação mais centrada na experiência do cliente e no protagonismo do desenvolvimento de novos mercados.

Repensar a logística reversa em dois grandes tipos de problema distintos – a logística reversa causada (desperdício ou trabalho incidental) e a logística reversa causadora (valor) – nos permite pensar em termos de estratégias operacionais e novos negócios de forma a aumentar a eficiência do setor.

Desde as primeiras lições do lean thinking, seus praticantes aprendem com a experiência e os exemplos da Toyota sobre o conceito de desperdícios nos fluxos de trabalho sistematizado por Taiichi Ohno. A logística reversa – segundo a classificação mais tradicional – trata de retornos de produtos ou partes que adicionam custos com muito pouco ou nenhum valor, ou seja, remetem muito mais ao desperdício do que à criação de valor.

Desperdícios são atividades que consomem recursos, mas que não agregam valor ao cliente (elas normalmente estão disfarçadas de trabalho útil, consumindo recursos da empresa, das pessoas e da sociedade sem entregar ou atender as necessidades reais). Devemos reconhecer também que tais desperdícios são sintomas: eles são um efeito de ações ou decisões que causam seu surgimento. Portanto, atrás de cada desperdício há um tesouro de novas possibilidades.

Na logística reversa, o retorno de produtos com defeito no pós-venda ou o destino dos materiais após seu uso para descarte controlado e reciclagens de pouco valor são os exemplos mais corriqueiros de desperdícios, sendo atividades que estão muito mais atrelados a obrigações contratuais ou de legislação ambiental do que propriamente a um esforço para criar mais valor continuamente.

Um dos princípios do lean thinking é entender os problemas que envolvem o cliente e as partes interessadas. Nas operações de logística reversa, isso significa entender os fatos relacionados. Propomos, então, uma classificação distinta daquela tradicional em pós-venda e pós-consumo, possibilitando entender com mais clareza o papel da logística reversa na criação de valor.

 

1) Problema tipo 1 – A logística reversa causada

Nesta primeira categoria, insere-se a maioria dos casos de pós-venda e pós-consumo. Nela, a logística reversa é efeito de modelos de operação ou de decisões que necessitam do retorno dos materiais para serem reprocessados sem a criação de um novo produto ou valor. É o caso do pós-venda, em que entregas de produtos avariados ou errados exigem sua troca e substituição: não ter o fato gerador dessa necessidade de troca seria o cenário ideal, tanto para a empresa, que incorre em custos sem aumentar seu faturamento, quanto para o cliente, que se vê frustrado e terá que receber mais visitas.

Já no caso do pós-consumo, isso acontece buscando produtos utilizados para direcioná-los ao descarte ambientalmente seguro ou, ainda, à reciclagem de suas partes para novas utilizações. Na maioria das vezes, essa justa e necessária atividade se dá no âmbito de uma perspectiva mais de efeito, de cumprir uma obrigação, do que propriamente de criar e maximizar valor ao cliente.

Em ambos os casos, a logística reversa é causada ou por erros de operação ou por uma obrigação acessória no cumprimento de uma meta ambiental. Assim, a logística reversa é consequência de outras atividades, como efeito delas, e seria melhor eliminar ou transformar essas atividades. Dessa forma, a logística reversa acaba não atuando propriamente como um motor da empresa nem como a protagonista do negócio.

Um exemplo disso é a venda em e-commerce de produtos que eventualmente exigem a necessidade de uma troca (por conta de um vestir ou calçar fora do tamanho ou do ajuste subjetivo do consumidor, como é o caso de roupas e calçados): a logística reversa, ao ser classificada como um pós-venda, perde em não destacar as causas e as reais necessidades do que ela deve contemplar.

Se focarmos em avaliar sua causa, entendemos que essa situação de logística reversa específica é proveniente da natureza da venda, fazendo parte dela porque seu processo, ainda que busque assegurar os elementos de escolha mais seguros, claros e precisos ao cliente no site ou aplicativo, ainda não atingiu a perfeição e, portanto, exige assegurar ao cliente a experimentação do produto para efetivar a venda.

Enquanto não for atingido o grau necessário de perfeição na venda remota para eliminar a necessidade de experimentação física, a logística reversa causada por esse contexto configura-se como trabalho incidental. O lean thinking distingue esse tipo de desperdício do desperdício puro de uma avaria porque, embora acrescente algum custo, o trabalho incidental causado permite a sustentação da criação de valor em bases aceitáveis e transitórias.

Assim, ele deve ser alvo de melhorias para sua redução, rapidez e trocas sem burocracia, inserindo-se como parte do processo de venda enquanto se busca seu aperfeiçoamento. Observe que, ao considerar que a logística reversa causada pela troca nesse processo de venda específico seja trabalho incidental nele causado, o lead time de vendas aumentará nos casos em que ela ocorre. Isso direciona a análise para sua causa em vendas através de KPIs apropriados, e não para o seu efeito, que seria o caso se a logística reversa fosse considerada separadamente.

Dessa forma, utilizar o lean thinking nessa perspectiva de logística reversa causada significa identificar suas causas, independentemente se seja do pós-venda ou do pós-consumo. Assim, elimina aquelas que se constituem em desperdícios puros, como o caso de retornos por avarias ou erros de operação. Ao mesmo tempo, outros casos de retorno como trabalhos incidentais devem ser assegurados de forma veloz e com baixo custo enquanto se busca mitigar ou até eliminar suas causas.

Contudo, a verdadeira e plena criação de valor da logística reversa somente se configura quando buscamos entender e explorar o segundo tipo de problema: a logística reversa causadora de valor.

 

2) Problema tipo 2 – a logística reversa causadora de valor

Tratar a logística reversa como causadora de valor é uma abordagem prática que permite inovar nos negócios, seja naqueles já estabelecidos buscando aumentar seu valor agregado, na criação de novos negócios via startups ou por meio de novos arranjos do ecossistema em que a logística reversa torna-se elemento central.

Ao pensarmos na logística reversa como causadora de valor, cada resíduo de um processamento deve ser visto como material ou insumo em potencial, com um novo destino a ser encontrado no qual aquele material se torne outro produto com valor. A logística reversa deixa de ser mero transporte e se reveste de uma operação de conexão de transferência de resíduo para valor, exemplificando com elementos mais simples do dia a dia do consumo.

Um caso que exemplifica isso é o da borra de café, que é coletada por empresas para diversos fins: fertilizantes em hortas, fios de cabelo e fibras vegetais ou sintéticas recicladas (tornando-se substitutas das fibras plásticas, que servem de reforço estrutural em placas divisórias) e resíduos retirados do interior de embalagens plásticas de produtos químicos, que se transformam em novos produtos (ao mesmo tempo em que possibilitam a reutilização do plástico limpo).

Esses são exemplos que ilustram o papel de criação de valor da logística reversa na identificação e seleção de destinos adequados para a nova utilização, fazendo a ponte entre novos players e construindo uma nova cadeia de valor. Desvia-se do transporte simples para os aterros e se cria novas conexões.

Levando essa abordagem para diversos materiais, algumas empresas especializadas em logística reversa estão formando centros de distribuição reversa funcionando como hubs, onde os materiais ou resíduos coletados são separados, classificados e destinados a clientes para serem inseridos em novas aplicações. O trabalho não é só o transporte, mas toda a gestão de coleta e destino da reversibilidade para criação de valor.

Unindo as duas pontas, o Centro de Logística Reversa não só coleta das organizações fornecedoras, mas também de pontos de coleta voluntária, criando uma carteira de origens e novos destinos que, além de compensar a questão ambiental, permite a geração de renda e novos mercados. Assim, forma-se uma nova dinâmica que contribui para a formação da chamada Economia Circular, na qual a regeneração dos materiais possibilita seu maior grau de utilização por mais tempo, diminuindo a carga sobre o planeta ao mesmo tempo em que cria renda.

Uma ampla criação de valor se processa tanto para o consumidor e para as empresas quanto para a sociedade, com a proteção do meio ambiente. Aquilo que era custo na destinação do resíduo e ainda com impacto ambiental se transforma para alcançar monetização e redução da carga sobre o meio ambiente.

Figura 1 – A logística reversa viabiliza o sistema da economia circular

Figura 1 – A logística reversa viabiliza o sistema da economia circular


As tecnologias da chamada quarta revolução industrial, a Indústria 4.0, permitem (quando adotadas neste contexto de cadeias de valor reversas) monitorar e controlar maiores complexidades dessas diversidades de origem e destino, garantindo que o que é coletado seja reinserido no processo produtivo com controle do local e fase da cadeia.

A formação de cooperativas apoiadas por tecnologias de monitoramento também permite a inserção de pequenos produtores e negócios, diluindo custos de coleta por meio do adensamento das rotas reversas. Assim, as micro, pequenas e médias empresas ganham uma solução economicamente viável para se inserir na economia circular na medida em que contribuem também para o aumento da escala de todo o sistema. A logística reversa viabiliza essa inserção com a criação de rotas de coleta com fluxos contínuos.

Dessa forma, abre-se oportunidades também para a inovação com a participação de startups. Algumas delas, no ecossistema de inovação, já se ocupam de operar plataformas conectando empresas, cooperativas, consumidores e operadores de logística reversa. Soluções de rastreamento das embalagens de retorno também são agregadas ao sistema reverso, facilitando a gestão.

Com a inclusão de startups de forma ampla, não só no âmbito de transformação digital, possibilita-se a agregação de melhorias com novas tecnologias de reutilização dos diversos materiais: físicos, químicos e orgânicos. Fomenta-se a inovação na medida em que se viabiliza a coleta e se encontram novos destinos por meio da logística reversa criadora de valor.

Por outro lado, a inovação por meio da criação de conexões com a logística reversa de novas origens e destinos permitem novos modelos de negócios em serviços de compartilhamento, seja por meio da economia recorrente ou economia compartilhada.

É o caso do aluguel ou assinatura no uso de diversos bens duráveis (desde móveis até brinquedos e roupas, passando por bens de mais alto valor agregado, como automóveis). Nesses casos, a logística reversa entrega o bem alugado e retira o anterior; dali, segue na sua rota até centros de processamento para higienização e manutenção e, depois,  redireciona o item para um novo assinante do serviço.

Há ainda a possibilidade de criar valor por meio da reversibilidade, combinando com uma inovação de negócios que permita criar valor superior aos produtos originários, ou primários.

Um caso dessa possibilidade é a prática do upcycling na produção de roupas personalizadas. Nessa prática, empresas recebem por meio da logística reversa resíduos têxteis, como panos, trapos e fios de malha remanescentes, e transformam esses materiais em novas roupas com designs diferenciados e reconhecidos pela exclusividade, com valor agregado superior aos produtos geradores dos resíduos e sobras aproveitadas.

Tais menções a casos práticos de criação de valor através da logística reversa permite-nos antever (na medida do aumento das possibilidades de retorno) que um banco de dados de inúmeros materiais abrirá espaço para uma gestão via tecnologias de Indústria 4.0, com organização das conexões e até predição de possíveis destinos já na fase de projeto de novos produtos.

Dessa forma, insere-se a economia circular já no projeto e desenvolvimento, com criação concomitante das cadeias de valor circulares e desenvolvimento simultâneo de seus agentes. Há, portanto, todo um percurso de transformação que, se for abordado com os princípios do lean thinking, direciona as empresas para ações concretas de passagem de uma logística reversa causada para uma logística reversa causadora de valor.

 

3) Transformando a logística reversa causada em logística reversa causadora

Pensar nessa passagem de logística reversa causada para causadora de valor através do lean thinking permite deslocar sua gestão de mera consequência de decisão de transporte para protagonista, como um motor de transformação da economia linear (com movimentação de mão única) para uma economia circular em que a logística causadora procura a criação de valor, identifica players e viabiliza as conexões, levando valor para o planeta e para os cidadãos.

Assim, a logística reversa instrumentalizada pelo lean thinking permite pensar de outra forma e abrir portas para que o profissional de logística seja o profissional das conexões, um nexialista (esse conceito tem sido usado para caracterizar aquele profissional que promove conexões para resolver problemas, estabelecendo nexos e, assim, conectando conhecimentos e valores).

Tais conexões, mediadas pela logística enquanto técnica de gestão, contribuirão para a construção de redes e cadeias circulares, permitindo que cada movimento não leve apenas produtos ou materiais, mas soluções na continuidade de um ciclo de valor contínuo. O resultado disso é a transformação do produto de um túmulo (no sentido de um descarte sem utilidade) para uma recolocação em um novo ciclo, com uma nova aplicação e um novo berço.

A logística reversa causadora de valor significa pensar em inovação, na reutilização, no reuso, na remanufatura e na reinvenção. Ou, como sintetiza o lean thinking, pensar e agir na criação de valor contínuo, sem desperdícios.

Publicado em 31/05/2022

Autor

Alvair Silveira Torres Júnior
Head para Supply Chain e Logística no Lean Institute Brasil
Planet Lean - The Lean Global Networdk Journal