ESTRATÉGIA E GESTÃO

Gestão pode ajudar a combater crises hídricas e energéticas

Flávio Augusto Picchi
Gestão pode ajudar a combater crises hídricas e energéticas
O problema que atinge a todos, pessoas físicas e jurídicas

Melhoria na gestão traz importante contribuição para enfrentar as crises hídricas e energéticas que se avolumam no horizonte



Um dos grandes problemas (e um desafio emergente que temos pela frente) se refere à escassez de água e energia – elevação de tarifas, já em curso, ou até mesmo o risco de racionamento. Os dados apontam que os reservatórios, principalmente no Sudeste, estão em níveis alarmantes, e a crise hídrica e energética se avoluma no horizonte.

Trata-se de um problema que atinge a todos, pessoas físicas e jurídicas. As famílias ainda se lembram das crises anteriores e das formas de sacrificar atividades, contribuindo para reduzir seus consumos de água e energia.

As empresas, que vinham retomando as atividades com a gradual melhoria da pandemia, também começaram a discutir como se preparar para um possível cenário de elevação de custos e eventual racionamento de energia e água.

Como se preparar para o pior cenário que possa surgir?

Nas crises de 2001 e 2014, houve um grande trabalho das companhias em medidas técnicas de redução de consumo, como troca para sistemas de iluminação mais racionais, uso de equipamentos de maior eficiência, adoção de dispositivos economizadores de água etc.

Todos esses meios com certeza são importantes e serão retomados, inclusive se beneficiando de novas tecnologias. No entanto, há mais um componente que não pode ser esquecido nessa equação: a melhoria na gestão (por exemplo, com a adoção ou o fortalecimento do sistema lean).

Destaco pelo menos dois aspectos desse sistema que podem trazer uma grande contribuição nessa batalha.

O primeiro é que o lean é um sistema de gestão que reúne uma série de conceitos e práticas para, dentre outras coisas, eliminar os desperdícios nos processos produtivos.

Quando esse sistema é adotado por uma organização ou mesmo quando uma empresa passa a aplicá-lo com maior profundidade, observa-se um grande ganho de produtividade, o que gera o uso de menos recursos.

São inúmeros os casos, em empresas dos mais variados setores, em que a simplificação de fluxos de valor, a adoção de sistemas just-in-time, o trabalho em células, a qualidade na fonte e a adoção de tantos outros conceitos lean levaram à possibilidade de se produzir de 20% a 30% a mais, utilizando-se os mesmos equipamentos, espaço, pessoas etc.

Aliás, foi dessa constatação que surgiu o termo lean, que quer dizer algo “enxuto”, sem gordura. Imagine a enorme economia de energia, matéria-prima, água etc. que essa produção, com menos desperdícios, pode trazer.

Um outro aspecto que também contribui enormemente é o fato do sistema lean estar totalmente baseado na contribuição de todos os colaboradores para a solução de problemas.

Isso porque, em resumo, ele estimula que todos na companhia tenham cotidianamente um olhar mais crítico em relação ao trabalho que executam e tentem encontrar melhores maneiras de se produzir.

Desdobrar metas da organização para os times, usar gerenciamento visual e rotinas de controle para expor desvios e treinar todos em métodos de solução de problemas com o apoio da liderança são exemplos de elementos que fazem parte da essência da gestão lean.

Empresas que têm esse sistema bem implementado conseguem que as equipes usem a criatividade e gerem diversas inovações na base, com elevada iniciativa e motivação.

Esse é um enorme patrimônio que pode e deve ser mobilizado, usando esse método já disseminado para desafiar todos a trazerem novas ideias para a redução do consumo de água e energia, realizando experimentos e disseminando as boas práticas.

Com a evolução do cenário pessimista quanto à nova crise hídrica que se delineia, diversas ideias usadas anteriormente serão lembradas, mas seu resultado pode ser menor. O impacto de mudanças técnicas, como máquinas de maior eficiência, foi importante nas crises anteriores, até pela existência de muitos equipamentos obsoletos.

Hoje, essa substituição é mais limitada, uma vez que a atenção a soluções de menor consumo se manteve. Uma geração de tecnologias mais recentes certamente vai trazer uma nova onda de racionalização, como o uso de automação e inteligência artificial. No entanto, isso também pode não ser suficiente, além de exigir consideráveis tempo e investimento.

É preciso dar um salto no uso intensivo de mais uma arma fundamental, colocando a gestão também a serviço da economia de água e de energia, objetivo que deve ser prioritário não só em momentos de crise, mas sempre visando à sustentabilidade e à responsabilidade social.

Publicado em 29/09/2021

Autor

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.