ESTRATÉGIA E GESTÃO

Assédios destroem a “base” de um sistema de gestão

Flávio Augusto Picchi
Assédios destroem a “base” de um sistema de gestão
Além de ferir profundamente a vítima, o assédio também atinge todas as demais pessoas na organização, que se sentem desrespeitadas, com medo, desmotivadas

Há muitas formas para melhorar uma gestão. Há também maneiras para destruí-la. Infelizmente, não são poucos os casos em que isso acontece.

Por exemplo, uma reportagem recente do programa Fantástico, da TV Globo, mostrou uma empresa em que um gestor, “inspirado” no Big Brother Brasil, teria feito um “paredão da demissão”. Nele, colegas pressionados teriam de escolher, publicamente, quem seria demitido da equipe, numa situação das mais desrespeitosas e constrangedoras.

Denúncias de assédio moral – ou até mesmo de assédio sexual, como as recentemente denunciadas contra o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) – infelizmente não são raras em algumas companhias.

Além de serem desumanas, configurarem crimes e serem totalmente condenáveis em termos éticos, essas práticas lamentáveis são também destruidoras de sistemas de gestão.

É que melhorar a gestão significa, na essência, fazer com que os indivíduos trabalhem melhor, sejam mais proativos, eficientes, qualitativos e produtivos. E isso só poderá ocorrer em todo o potencial se a “base” da gestão for construída sobre o que chamamos, no sistema lean, de “respeito às pessoas”, que é um conceito amplo.

Além de ferir profundamente a vítima, o assédio também atinge todas as demais pessoas na organização, que se sentem desrespeitadas, com medo, desmotivadas a se dedicarem a uma empresa sem valores fortes ou práticas que evitem que isso ocorra.

É bom que se diga que esse conceito de “respeito às pessoas”, em termos de gestão, precisa ir além da eliminação absoluta do assédio, o que deveria ser óbvio, básico e obrigatório.

Também significa reconhecer e valorizar as individualidades, as inteligências específicas e as capacidades potenciais que cada um tem para propor melhorias. E isso se aplica a todas as pessoas, não importa o nível hierárquico.

Isso implica, por exemplo, formar ambientes de trabalho onde os indivíduos se sintam efetivamente seguros para apontar problemas e discutir, em equipe, maneiras sobre como resolvê-los. Com isso, eles se sentirão muito mais satisfeitos e, portanto, motivados para contribuir diariamente com melhorias, o que vai gerar, cada vez mais, processos aprimorados.

Não estabelecer um ambiente de trabalho que estimule as pessoas com metas desafiadoras e não criar maneiras de participação para que todos contribuam são também formas de desrespeito, mais sutis, é verdade, mas que igualmente subestimam e desvalorizam os colaboradores.

O sistema lean, ou mentalidade enxuta, é baseado em princípios originalmente desenvolvidos na Toyota e posteriormente disseminados para todos os setores e países. Sua definição, de uns tempos para cá, tem sido comunicada através de somente dois pilares, intimamente ligados: respeito às pessoas e melhoria contínua.

Ter uma gestão de excelência é fruto de uma série de princípios. Ter tolerância zero contra assédios é certamente um deles. Não desrespeitar o ser humano é o mínimo obrigatório, mas que infelizmente ainda merece total atenção, pois nem sempre esse básico é cumprido. Esse é sem dúvida um primeiro e urgente saneamento a ser feito em muitas empresas.

Uma vez que essa base tenha sido absolutamente consolidada e superada, é possível às lideranças buscarem o alto desempenho ao aprofundarem ainda mais o respeito às pessoas, o que significa possibilitar que todos deem suas maiores contribuições e se sintam orgulhosos do trabalho que realizam.

Publicado em 10/06/2021

Autor

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.