LOGÍSTICA E CADEIA DE SUPRIMENTOS

Inovação na Gestão de Recursos Humanos na Logística: entendendo a necessidade dos profissionais de logística

Alvair Silveira Torres Júnior, João Guilherme Oliveira
Descrevemos neste artigo uma nova forma de qualificação sobre práticas lean na logística, destinada aos profissionais em diversas áreas de logística e cadeia de suprimentos. Essa nova forma de qualificar os trabalhadores, além de alcançar o atingimento de metas operacionais, também inova na flexibilidade de realizar o treinamento por meio da qualificação à distância.

Gerir as operações e os recursos humanos nas atividades logísticas pressupõe trabalhar em amplo espaço geográfico de cidades, estados e até países. Significa também a necessidade requerida de grande mobilidade dos recursos humanos, muito superior às outras atividades.

As atividades logísticas na cadeia de suprimentos requerem postos de trabalhos em fluxo, com os recursos humanos se movimentando em armazéns, em veículos, nas estradas, embarcados em diversos meios de transporte e pontos de conexão. Por fim, na dimensão do tempo, são recursos humanos que trabalham em diversos horários, compondo equipes 24x7 ou, no mínimo, trabalhando em horários não compatíveis com os turnos tradicionais de horário comercial.

Na logística, portanto, os recursos humanos apresentam três dimensões que caracterizam a particularidade em sua gestão:

  • Geográfica
  • Mobilidade
  • Tempo

Tais características se materializam muitas vezes em obstáculos concretos para a execução de uma qualificação permanente das equipes, como tem exigido o ambiente competitivo e em constante mudanças dos mercados. Não há na cena contemporânea empresa de logística e cadeia de suprimentos que não tenha em seus planos estratégicos uma ação necessária de qualificar suas equipes para as práticas e ferramentas de gestão que garantem operações eficientes. Dentre elas, destacamos as práticas da logística lean, consagradas como um conjunto de práticas na resolução dos problemas logísticos e atingimento de metas através do alto desempenho dos recursos humanos.

Tal contexto atinge maior complexidade quando equipes de diversas empresas devem ser integradas em operações de logística, com base em modelos de terceirização, nos quais há necessidade de qualificar diversos colaboradores no mesmo patamar de atividade eficiente voltada para o negócio.

Aprendizagem contínua e a qualificação à distância

Neste artigo, apresentaremos as descobertas e aprendizados para uma nova solução de qualificação em lean, através de uma plataforma de aprendizagem à distância, permitindo superar as restrições geográficas, de mobilidade e tempo, na qualificação dos recursos humanos na logística.

Vale ressaltar que um dos pilares da prática lean é o desenvolvimento contínuo dos recursos humanos, o que pressupõe, no caso da logística, estabelecer meios de aprendizagem contínua independente das restrições que a operação 24 horas por dia e 7 dias por semana impõe ao alcance desta qualificação a todos os colaboradores. É preciso levar o aprendizado da melhoria contínua a cada executor nos diversos fluxos de trabalho: recebimento, armazenagem, separação, expedição, transporte, planejamento, programação, emissão de documentos, enfim todos os fluxos que compõem a agregação de valor na logística.

A qualificação à distância, portanto, apresenta a possibilidade concreta de integrar os trabalhadores do gemba através da qualificação em melhoria contínua e alto desempenho. Com isso, através da qualificação básica em lean, todos passam a colaborar na eliminação de desperdícios e na contenção de problemas, evitando que estes cheguem aos clientes. A formação de equipes qualificadas e engajadas é um dos meios mais seguros e econômicos para aumentar a performance.

Assim, diante do obstáculo de levar esta qualificação a todos os recursos humanos da logística, distribuídos em amplos espaços geográficos e diversos horários de trabalho, existe a oportunidade de inovação para entregar uma solução de aprendizagem contínua por meio do ensino à distância.

As áreas de gestão de recursos humanos em logística identificam a necessidade de inovar e entregar uma solução de aprendizagem contínua por meio do ensino à distância, incorporando através de plataforma digital de e-learning mais um valor à qualidade do treinamento lean: a flexibilidade no aprendizado e a possibilidade de fazê-lo continuamente.

Descrevemos, na sequência, o que é válido levar em conta no desenvolvimento de soluções de qualificação à distância (solução EAD), que garanta um produto sob medida para atender às necessidades desses profissionais.

1) Identificando valor para o profissional de logística (neste caso, visto como cliente)

Ao caminhar pelo gemba de logística, em diversos contextos, percebe-se uma dificuldade que existe, por parte da liderança, para que os operadores de logística sejam reunidos em treinamentos presenciais convencionais. Líderes dessas equipes operacionais também têm a mesma dificuldade, e os gerentes, em que pese na maioria das vezes trabalhar em horário comercial, são impactados pela falta de tempo disponível para conciliar suas agendas. Dessa forma, podemos considerar que existem três personas principais no desenvolvimento de uma plataforma de qualificação à distância (solução EAD):

  • Gerentes de setores ou funções logísticas.
  • Lideranças operacionais que supervisionam diretamente as operações.
  • Operadores logísticos das mais diferente funções, a turma da mão na massa.

Exemplo de personas de profissionais da logística


A definição das personas, que deve ser feita indo ao gemba e entendendo as características e problemas enfrentados por cada uma delas, possibilita a criação de um produto que consiga atender efetivamente às necessidades dos clientes. É importante ter esse entendimento para a tomada de decisão do melhor modelo para que o conteúdo seja transmitido nessa solução.

Dessa forma, outro fator observado a partir da criação das personas foi que os profissionais de logística necessitam de conteúdos voltados para a aplicação no dia a dia, que proporcione uso imediato para melhorar a performance das operações. Isso porque se observou que muitas vezes o conteúdo voltado a esses profissionais é muito teórico e distante dos problemas que eles enfrentam no cotidiano.

2) Estabelecendo o fluxo de valor para o cliente: a jornada de qualificação do profissional de logística

Depois de entender efetivamente o seu cliente, é importante definir como o valor, nesse caso o aprendizado, será entregue. As características das personas definidas na etapa anterior são essenciais para definir qual será conteúdo e como ele será passado a esses profissionais.

Segundo Malcolm Knowles, o pai da andragogia, existem 6 pilares básicos que devem ser considerados para a aprendizagem efetiva de adultos, sendo elas:

  • Por que conhecer e por que aprender.
  • Autonomia do aluno.
  • A experiência é importante.
  • Engajamento na aprendizagem.
  • Foco na vida real.
  • Motivação para aprender.

Dessa forma, cada um desses pilares deve ser levado em conta na construção de um curso EAD de qualidade voltado aos profissionais de logística.

As unidades de aprendizagem do curso devem ser estruturadas de forma a proporcionar ciclos curtos, com vídeos e atividades que demandem entre 15 a 25 minutos de dedicação por vez. Esses ciclos curtos devem proporcionar entregáveis e um aprendizado efetivo, que se recomenda que seja autoverificado pelo participante através de quizzes e atividades orientadas.

Com essa característica de ciclos curtos de aprendizado efetivo, ao final de cada ciclo, o participante está apto para a aplicação do conhecimento adquirido nas tarefas do seu dia a dia. Tais ciclos curtos incorporados nesta jornada de aprendizagem e qualificação também atendem à necessidade de flexibilidade através do encaixe dos poucos minutos de cada atividade de aprendizado na agenda do profissional de logística.

Por sua vez, recomenda-se buscar a identificação destes ciclos curtos com a vivência prática do gemba que naturalmente os profissionais possuem. Algumas formas de proporcionar esse estilo de aprendizado aos alunos podem ser mesclando teoria com a prática, trazendo exemplos reais, estudos de casos e até criando um personagem com o qual o aluno consiga se identificar através das situações vividas por ele.

Caso criado para exemplificar uma situação real


3) Boas práticas de plataformas tecnológicas para definir a mais adequada à jornada do cliente 

O momento da escolha da plataforma é muito importante; afinal, tudo o que foi planejado para que o aluno aprenda durante o curso será passado através da plataforma. Nesse sentido, duas coisas são importantíssimas a serem consideradas: flexibilidade na forma de passar o conteúdo e facilidade em utilização.

A seguir, serão apresentados alguns recursos importantes observados através de boas práticas do mercado, propiciando um ambiente que favoreça o ensino desses profissionais.

  1. a) Possibilidade de interação entre os participantes do curso. Durante a realização de qualquer curso surgem dúvidas e, muitas vezes, essas dúvidas são parecidas entre os profissionais participantes, então essa possibilidade de interação entre eles é uma ferramenta poderosa para potencializar o aprendizado e não deixar ninguém sair com dúvida.
  2. b) Diversas formas diferentes de passar o conteúdo. Dentro das plataformas é possível criar unidades de aprendizagem que vão desde videoaulas gravadas, artigos, apresentações até podcasts e sessões ao vivo. Isso possibilita que todos esses recursos se relacionem entre si, aumentando o poder de transmissão do conhecimento. Por exemplo, um vídeo de uma operação logística pode ser comentado na videoaula e depois abordado através de um quiz com autoverificação do aprendizado pelo participante.
  3. c) Quizzes com avaliações instantâneas e questões comentadas. Para gerar aprendizado durante a realização de exercícios, é necessário que o aluno saiba quais questões acertou e quais errou. Assim, o aluno tem a oportunidade de refazer os exercícios até obter 100% das alternativas corretas para, depois, verificar as questões comentadas e consolidar o conhecimento.

4) Teste da hipótese de valor junto aos profissionais de logística

Após ter finalizado a etapa de planejamento e desenvolvimento do curso, é necessário validar o produto com as diferentes personas criadas. Esta é a fase de validação da hipótese de valor através de um MVP (mínimo produto viável), em que os profissionais não estão degustando um protótipo, e sim um produto básico que já entrega aquilo que foi proposto para a jornada do cliente, mas que ainda comporta melhorias e mudanças que foram coletadas ao final da experimentação.

Essa etapa agrega muito valor ao produto, pois depois de ter entendido seu cliente, criado personas que os represente com suas características e problemas enfrentados no dia a dia, definido qual o conteúdo e como ele será passado, agora é hora de verificar no mundo real se o que foi pensado atende às necessidades e o que ainda pode ser melhorado.

Nessa etapa, muitas vezes ocorre a coleta e incorporação de várias sugestões e antecipações de problemas na operacionalidade da plataforma. Assim, devem ser realizados os ajustes e uma nova rodada estabelecida até a formação do produto final: uma plataforma de aprendizagem à distância para a prática da logística lean.

5) Ajustes e lançamento da plataforma de qualificação

Com base nas sugestões coletadas no experimento de utilização pelas personas do mercado, surgirão naturalmente melhorias e ajustes na plataforma, tanto no conteúdo quanto na apresentação e operacionalidade por parte do profissional de logística.

O grande benefício é que, desde que haja um dispositivo de conexão com a internet (desde celular até desktop), o profissional em qualquer local e no tempo que desejar pode realizar sua qualificação.

SIPOC de uma plataforma de aprendizagem para a prática da logística lean


Em síntese, descrevemos neste artigo o processo de desenvolvimento da inovação que atende à necessidade da logística de qualificar seus recursos humanos de forma prática na abordagem lean, principalmente daqueles que estão próximos das operações, na liderança ou na execução, e que cuja qualificação no conteúdo proposto visa trazer um aumento no desempenho das operações.

 

*Os princípios e passos descritos neste artigo foram estabelecidos e cumpridos pelo Lean Institute Brasil no desenvolvimento de um novo curso à distância assíncrono (solução EAD). Com uma carga de 8 horas, o curso  foi desenhado para os profissionais de logística que apresentam dificuldades de agenda, pois o profissional escolhe quando e onde fazer o curso. Todo conteúdo foi especialmente concebido para capacitá-los na aplicação básica da Logística Lean e alcance de resultados imediatos.

O curso pode ser conferido no site: https://www.leanlearning.online/

Publicado originalmente na Revista Mundo Logística.

Publicado em 22/03/2021

Autor (es)

Alvair Silveira Torres Júnior
É gerente de Projetos no Lean Institute Brasil.
João Guilherme Oliveira
É especialista Lean no Lean Institute Brasil.