SAÚDE

Um CEO de um hospital sobre lean e o ressurgimento da Covid

Norman Faull
Um CEO de um hospital sobre lean e o ressurgimento da Covid
Enquanto a África do Sul luta contra uma segunda onda de Covid-19, o CEO de um grupo de hospitais compartilha algumas das lições aprendidas até agora e como o pensamento lean está ajudando a organização a resistir.

Um pequeno grupo de hospitais privados na África do Sul tem o mesmo CEO há mais de uma década. Vamos chamá-lo de Ezekiel – nome fictício, para proteger o grupo de distrações desnecessárias agora. Ezekiel é um estudante fervoroso de longa data do pensamento lean, tendo lido muito e participado de workshops e conferências. Dois de seus livros favoritos são “Andy & Me and the Hospital”, de Pascal Dennis, e “O Trabalho da Gestão, de Jim Lancaster. Ele é um entusiasta lean, buscando valor em saúde, manufatura e onde quer que possa encontrá-lo.

Na verdade, aprendemos sobre o lean lendo e participando de workshops e conferências, mas a compreensão real só vem quando fazemos e desenvolvemos nossas habilidades repetidamente. Ezekiel dirá que não é bom no lean, mas ainda assim conseguiu espalhar o pensamento e as práticas lean efetivamente para muitos dos hospitais do grupo. Isso foi alcançado tentando coisas novas, experimentando, retendo o que funciona e apoiando a equipe na resolução de problemas.

Esses hospitais operam nos locais mais afetados pela Covid-19 aqui na África do Sul, especialmente agora durante a segunda onda. Ezekiel prometeu escrever um artigo sobre a experiência do grupo durante a primeira onda. Sua ambição era relatar como a comunicação em todos os níveis (por meio de pequenas equipes de trabalho reunindo-se com máscaras com a enfermaria e por meio reuniões virtuais com todo o grupo), o treinamento, o trabalho padrão e o foco nas pessoas os ajudaram a lidar com as condições difíceis que tantos profissionais de saúde em todo o mundo enfrentam. As exigências da época estavam sobrecarregando o grupo, então o artigo teve que esperar, mas ele escreveu o e-mail abaixo falando sobre a situação no início do ressurgimento. Eu gostaria de compartilhá-lo, porque ele pode falar aos líderes de saúde de todo o mundo, que estão na linha de frente na luta contra a pandemia.

“Depois que o surto inicial de infecções começou a diminuir, fiquei preso no trabalho de nos orientar durante a recuperação e volta ao novo estado. [...] Por um tempo, a empolgação e o foco estavam em preservar o ímpeto da crise para transformar nossa organização em tempos mais calmos e para permanecer responsiva e construir o aprendizado e a flexibilidade que tivemos que praticar profundamente em nossa vida cotidiana.

É interessante pensar que emergir da primeira crise foi mais difícil e mais desgastante do que o início dela.

Também reconhecemos que algumas pessoas não se adaptaram; algumas não puderam vir conosco, e tivemos que deixá-las ir. Embora isso tenha sido necessário e nos tenha permitido continuar nos hospitais que não estavam se saindo bem, isso também exigiu presença direta e esforço no ‘gemba’ para cuidar e treinar as equipes deixadas para trás. Fico muito animado por termos substituído os líderes que partiram por um engenheiro lean de processo, que veio até nós saindo da indústria automotiva local. Mal posso esperar para ver isso se desenrolar.

Também passamos um tempo aprofundando o sistema de gestão em nossos sistemas de suporte (finanças, RH, folha de pagamento, TI e cadeia de suprimentos), e isso agora está criando o seu próprio impulso, pois as pessoas nesses sistemas realmente assumiram a responsabilidade e nos deixaram livres para nos concentrarmos no cuidado com os pacientes.

Um acontecimento empolgante foi o desenvolvimento do sistema nacional de kanban de EPI, e agora vamos estender isso a toda a nossa cadeia de suprimentos para melhorar nossa gestão de estoque e suprimentos. Até agora, tivemos EPIs suficientes em mãos o tempo todo – tornando possível proteger o nosso pessoal.

A segunda onda sul-africana já envolveu a maior parte do país, e a taxa de aumento da infecção, a taxa de hospitalização e, possivelmente, a taxa de mortalidade ameaçam ser mais altas do que da primeira vez.

Dito isso, nossas equipes mostraram resiliência, voltando rapidamente aos EPIs e à disciplina necessária para manter a segurança de seus pacientes e a sua própria. Responder à crise parece fácil – estender isso à rotina é onde está o desafio. Apesar da segunda onda, ficamos entusiasmados em ver que todos os nossos hospitais e equipes foram capazes de responder de forma rápida e flexível, abrindo zonas vermelhas, tornando mais rigorosa a triagem e o controle de infecção e evitando efetivamente que o vírus entre em nosso sistema sem que saibamos, para que possamos contê-lo quando estivermos cuidando de pessoas com e sem a infecção.

Agora que temos o que parece ser uma forma mais segura de controlar a infecção nos nossos hospitais, estamos nos conscientizando da necessidade de criar espaços seguros para nossos pacientes, suas famílias e nosso pessoal dentro do hospital e para as suas famílias nas suas casas, comunidades e sistemas de transporte público. É aqui que o risco de infecção agora parece maior.

Por fim, somos gratos pela forma como as nossas equipes responderam e adotaram o trabalho padrão, resolveram problemas e compartilharam o que aprenderam até agora. Isso nos permitiu evitar fechamentos, cortes e dispensas, e nossa posição econômica está quase de volta à da que tínhamos no final de março – provavelmente um pouco mais forte por causa da nossa nova disciplina. Estamos fazendo o que podemos para garantir que isso dure”.

Publicado em 11/01/2021

Autores

Norman Faull
Presidente do Lean Institute Africa.