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Covid-19: gestão lean pode ajudar hospitais a salvar mais vidas


Diversos princípios de gestão, em sua maioria provenientes de ambientes industriais, foram desenvolvidos nas últimas décadas, visando eliminar desperdícios e simplificar os fluxos, resultando em um aumento de capacidade

Flávio Augusto Picchi

Covid-19: gestão lean pode ajudar hospitais a salvar mais vidas  (Foto: Reza Estakhrian via Getty Images)

Covid-19: gestão lean pode ajudar hospitais a salvar mais vidas (Foto: Reza Estakhrian via Getty Images)

A capacidade dos sistemas de saúde encontra-se no foco das atenções de todos neste momento de escalada de casos de covid-19 em nosso país e em tantos outros.

Diversos princípios de gestão, em sua maioria provenientes de ambientes industriais, foram desenvolvidos nas últimas décadas, visando eliminar desperdícios e simplificar os fluxos, resultando em um aumento de capacidade.

Muitos desses enfoques já vêm sendo empregados há algum tempo também na área da saúde, como é o exemplo das iniciativas de aplicação, em hospitais, do conceito lean, também conhecido como mentalidade enxuta. Entretanto, a disseminação dessas práticas ainda não chegou a boa parte das organizações de saúde. Isso significa que muitas dessas organizações, além de todos os sérios problemas que enfrentam, podem apresentar perdas de eficiência em seus processos, que seriam minimizadas através de algumas boas práticas vindas da mentalidade enxuta.

Da mesma forma que a pandemia vem exigindo um elevado senso de urgência em todos os níveis, a aplicação de alguns desses princípios pode ser feita de maneira rápida, contribuindo para que mais pessoas possam ser atendidas neste cenário de recursos humanos e materiais sobrecarregados.

Por exemplo, a análise de fluxos completos, do início ao fim, é uma técnica amplamente utilizada, e ela é aplicável aos mais variados processos. Uma forma bastante conhecida para agilizar e aumentar a produtividade é a de criar fluxos especializados, separando diferentes situações, eliminando desperdícios e otimizando todas as atividades em cada um deles.

Pelo próprio risco de contaminação, as autoridades já vêm anunciando a designação de alguns hospitais, alas ou andares exclusivamente para o tratamento do covid-19. Mas mesmo nessas unidades dedicadas, chegam pacientes em diferenciadas situações, que passam por diferentes tratamentos, conforme protocolos médicos estabelecidos. Uma triagem meticulosa, feita por profissionais experientes, é uma primeira medida para direcionar corretamente cada caso ao fluxo que pode lhe dar maior agilidade e segurança.

A organização física e a dedicação de recursos humanos e materiais, conforme a demanda para cada fluxo, também é outra medida que pode ser importante. Com isso, é possível minimizar inúmeros desperdícios do precioso tempo das equipes de atendimento, em movimentos e ações que não agregam valor para o que é mais importante: o cuidado dos pacientes. Diversas técnicas, como otimizações de layouts a partir da análise de deslocamentos repetitivos, criação de estações com materiais de apoio mais próximas dos pontos de utilização, dentre tantas outras, podem ser aplicadas com esse propósito.

Quem atua com gestão sabe que processos são melhor executados quando as pessoas sabem exatamente o que fazer. É o que chamamos na gestão lean de “trabalho padronizado”. Nesse sentido, como em qualquer organização, outra prática que pode ajudar é tentar deixar da forma mais absolutamente clara possível para os profissionais envolvidos o que eles devem fazer e como devem agir. Por exemplo, traduzindo de forma precisa e didática os protocolos de atendimento e os fluxos de processos a serem seguidos.

Para isso, pode ser útil elaborar, por exemplo, quadros de gestão visual, com infográficos simples, mas detalhados, que tornem evidente, de forma automática ao se olhar, como os procedimentos devem ser feitos. Isso também ajuda a agilizar atendimentos e a aumentar a segurança.

Outro aspecto que tem despertado grande atenção nesta crise diz respeito às cadeias de suprimento. Os gargalos de fornecimento de testes, equipamentos para ventilação mecânica, máscaras, luvas, álcool em gel e outros itens se tornaram cruciais. Trata-se de uma demanda para a qual o mundo não estava preparado e a qual podemos ter uma resposta mais rápida se tivermos cadeias produtivas flexíveis e adaptáveis.

Além desse problema estrutural, de macrofornecimento, problemas também podem ocorrer no fluxo até a ponta, onde esses produtos precisam chegar. Mesmo quando a distribuição desses itens apresentar melhorias, chegando às cidades de maior demanda, não é nada trivial o caminho deles até cada hospital, e dentro de cada um, dos almoxarifados até as equipes médicas e pacientes. Conceitos como o de sistema puxado, reposição sinalizada por kanbans, em pequenos lotes e através de rotas com ciclos rápidos de abastecimento, são bastante característicos da mentalidade enxuta e possibilitam que se melhore a disposição dos recursos onde necessários, com menores estoques. Essas ideias já vêm sendo usadas com sucesso, por exemplo, para abastecer medicamentos em hospitais e podem ser utilizadas para todos os insumos. Técnicas de manutenção preventiva também podem ser utilizadas para evitar que equipamentos vitais fiquem fora de operação.

Há diversas outras formas de melhorar a gestão hospitalar, como, por exemplo, equilibrar, ou “nivelar”, a carga de trabalho entre os membros da equipe, eliminar esforços desnecessários e focar no que é prioritário, desburocratizar processos de apoio, melhorar a comunicação entre os integrantes dos times etc.

Alguns gestores da área de saúde já vêm aplicando, com sucesso, conceitos da mentalidade enxuta para diminuir filas e melhorar o atendimento. A rápida disseminação e utilização de algumas dessas boas práticas, de maneira mais ampla, certamente pode ser uma importante ajuda neste momento. Para contribuir nesse sentido, indico aqui um conteúdo de rápida leitura, com dicas essenciais para, de forma imediata e prática, aplicar conceitos e práticas da gestão lean nos processos hospitalares: Leia o artigo.

Disseminar informações relevantes que possam ajudar a combater o coronavírus é uma das armas mais eficazes que podemos utilizar neste momento. Também com relação à gestão.

*Flávio Picchi é presidente do Lean Institute Brasil e Prof. Dr. da Unicamp


Publicado em 01/04/2020


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