Enxuga aí

Mudanças em fluxo contínuo podem evitar fechamento dramático de fábricas, como a da Ford


Sua empresa demora para mudar, acumulando a necessidade de enormes ajustes, que às vezes não são mais possíveis, ou faz melhorias em fluxo contínuo?

Flávio Augusto Picchi

Fábrica da Ford emprega cerca de 3 mil funcionários (Foto: Divulgação)

A Ford anunciou recentemente a decisão de fechar sua fábrica no ABC paulista, o que certamente gerará enormes impactos, atingindo funcionários, município, fornecedores e a própria empresa.

As notícias citam como motivos a redução de volumes, defasagem tecnológica dessa planta, altos custos, mudanças em linhas de produtos etc. Certamente essas questões vieram se acumulando e não surgiram da noite para o dia.

Sem querer entrar nas razões específicas que levaram a Ford a tomar essa decisão, o caso serve para uma reflexão mais ampla, sobre as mudanças que ocorrem no setor automobilístico e em quase todos os demais. E sobre como as empresas reagem ou se preparam frente às mudanças de cenários.

O setor da mobilidade sente, cada dia mais, o impacto de uma série de transformações, frutos de avanços tecnológicos, mudanças nas cidades e também de alterações nos hábitos e desejos de consumo das pessoas.

Por exemplo, as evoluções tecnológicas que, cada vez mais, forçam a substituição da produção dos veículos tradicionais para os híbridos, os elétricos e, mais recentemente ainda, os autônomos.

Há ainda outras mudanças em curso, não só as relacionadas à tecnologia, mas também na organização da mobilidade urbana nas grandes cidades. Ou seja, cada vez mais as pessoas procuram, até por necessidade, por outros tipos de transportes, que não o tradicional “carro particular”, como o transporte compartilhado, os meios públicos, as ciclovias etc. Isso sem falar nas mudanças no emprego, com cada vez mais pessoas podendo trabalhar em casa, sem se deslocar como antes para trabalhar.

Soma-se a isso o fato de as empresas brasileiras enfrentarem no dia a dia o “custo Brasil”, decorrente da carga elevada de impostos, regulações às vezes excessivas e burocráticas, a precária infraestrutura logística etc., que dificultam a competitividade para inserção nas cadeias produtivas internacionalizadas.

É preciso, então, preparar-se porque todos os setores produtivos estarão cada vez mais sujeitos a esses tipos de mudanças, pois todos também sentem os impactos dessas mesmas alterações sociais.

E como se preparar para isso?

Uma forma é tentar responder em ciclos longos. A outra é promover melhorias de forma mais rápida e permanente, sempre se adaptando às novas situações. A filosofia lean, ou mentalidade enxuta, prefere sempre a atuação em pequenos lotes, que neste caso seria a segunda opção.

Deixar as questões se acumularem, pensando em posteriormente promover grandes mudanças, via de regra demanda grandes impactos e investimentos ou até mesmo se torna inviável, levando ao fechamento de unidades.

A forma lean é promover melhorias em fluxo contínuo, avançando em ciclos menores. Empresas que cotidianamente diminuem seus desperdícios e reforçam sua agregação real de valor estão a cada momento mais preparadas para enfrentar as mudanças nos mercados.

Assim, é preciso ter uma gestão que garanta o desenvolvimento rápido de novos produtos e serviços que atendam as mudanças rápidas e radicais dos consumidores. Que desenvolva uma produção flexível que esteja apta a alterar as formas de produzir os produtos, de acordo com as transformações de mercado. E que desenvolva pessoas que se adaptem às mudanças e façam seus trabalhos de forma melhor a cada dia.

Recentemente visitei fábricas da Toyota, no Japão, e pude notar in loco o quanto o pensamento lean, que nasceu lá, tornou a montadora japonesa uma das empresas mais bem preparadas para suportar as mudanças sociais dos novos tempos.

Pude notar, por exemplo, que há tempos eles investem esforços contínuos e estruturados para produzir veículos de diferentes gamas: os tradicionais, os híbridos, os totalmente elétricos. Assim, oferecem ao cliente um leque que atende a diferentes necessidades e gostos. E fazem isso em linhas de produção totalmente flexíveis, com condições reais de se adaptarem rapidamente a qualquer tipo de mudança, seja tecnológica ou de consumo. Como deveria ocorrer em todo tipo de empresa.

A notícia do fechamento desta fábrica infelizmente não é a primeira e nem será a última. Aproveite para refletir: sua empresa demora para mudar, acumulando a necessidade de enormes ajustes, que às vezes não são mais possíveis, ou faz melhorias em fluxo contínuo? Esse pode ser um fator decisivo para que ela não seja a próxima a ter um final dramático.

*Flávio Picchi é presidente do Lean Institute Brasil e Prof. Dr. da Unicamp


Publicado em 05/03/2019


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