Produtividade: trabalhe “melhor” em vez de “fazer mais do mesmo”

Enxuga aí
Flávio Augusto Picchi - 14/07/2017

Ou seja, mudar os processos, eliminando desperdícios

Menino Dormindo

Em tempos de crise, como o atual, há uma sensação entre quem atua no mundo corporativo de que será preciso trabalhar mais, estender jornadas etc. Isso ganha força quando, devido a condições de mercado como as atuais, as empresas passam a demitir, o que acaba redistribuindo mais tarefas para quem não perdeu o emprego.

Isso porque, em geral, as pessoas raciocinam a partir de como as atividades são feitas hoje. Imaginam que, para absorver a carga com menos pessoas vão precisar fazer “mais do mesmo”. Nessa situação, sem dúvida, a sobrecarga será enorme, causando estresse, erros...

Mas existe outra forma de enfrentar essa situação, com uma equação diferente. É fazer melhor. Ou seja, mudar os processos, eliminando desperdícios. Essa é uma consequência saudável das crises: elas desencadeiam a necessidade de se buscar formas que efetivamente aumentem a produtividade. As empresas, as equipes de trabalho e os mesmos indivíduos que fizerem essas melhorias estarão mais competitivos e à frente dos competidores na retomada de crescimento.

Algumas pesquisas internacionais sugerem o quanto é importante promover essa reflexão.

No ano passado, por exemplo, a consultoria internacional Conference Board, dos Estados Unidos, divulgou uma pesquisa que concluiu que a produtividade do trabalhador brasileiro equivalia a cerca de 25% da produtividade do trabalhador norte-americano. Em outras palavras, para fazer o que um americano faz, eram necessários quatro brasileiros. A mesma pesquisa também concluiu que o Brasil é menos produtivo que o Chile, a Rússia e muitos outros países.

Esse indicador foi feito com base numa relação entre o Produto Interno Bruto (PIB) dos países e o total de trabalhadores empregados que eles detêm. Sendo assim, é evidente que tal pesquisa não pode ser considerada separadamente do contexto das condições de trabalho de cada país.

Sabemos que há profundas diferenças de estrutura, de capital investido, de tecnologia, de educação, entre diversas outras, que diferem de um país para outro. Mas é preciso também reconhecer que essa medida macro de produtividade da mão de obra é uma resultante de desses diversos fatores, inclusive da gestão, que reflete certo estágio de amadurecimento da economia e da competitividade do país.

No sistema lean – na mentalidade enxuta – o foco em melhorar processos faz toda a diferença. Nesse modelo de gestão, há uma busca cotidiana por se aperfeiçoar continuamente a forma de se fazer o trabalho. E isso não necessariamente vem pela quantidade de tarefas, mas pela organização – ou reorganização – da forma de trabalhar.

Isso ocorre pela prática não tão fácil de enxergar, no dia a dia de trabalho, as ações que agregam valor, eliminando aquelas que não agregam e que, portanto, são desperdícios.

O próprio embrião histórico do sistema lean nasceu dessa percepção.

Nos anos 50, a montadora Toyota, cujas práticas de gestão geraram a mentalidade lean, percebeu que precisava aumentar sua produtividade em pelo menos quatro vezes mais para alcançar a produtividade da época das montadoras norte-americanas. Por coincidência, a mesma defasagem de produtividade que a recente pesquisa apontou para o Brasil.

Nesse contexto, o grande “pulo do gato” da Toyota foi perceber que jamais conseguiria atingir esse patamar se não mudasse radicalmente seus processos, aprendendo a “trabalhar melhor”. Decidiu, até por falta de opção, repensar a forma de gerir a empresa toda. Assim, conseguiu reinventar a maneira de produzir e de organizar o trabalho. E, em apenas algumas décadas, alcançou o dobro da produtividade norte-americana, tornando-se uma das empresas de maior sucesso do mundo.

Essa lição cabe muito bem nos atuais tempos da economia brasileira. É em tempos de recessão e crise, como o atual, que é preciso ter um olhar mais crítico acerca do trabalho que se faz. As empresas brasileiras estão rodeadas de processos que são, na verdade, desperdícios. Eles geram perdas de tempo, de recursos, de mão de obra e acabam puxando a produtividade para trás.

Assim, antes de mecanicamente mergulhar em fazer “mais do mesmo”, pense primeiro na forma, na maneira como você trabalha. Se conseguir ter um olhar crítico, certamente vai encontrar desperdícios e formas inovadoras de agregar valor. É um passo fundamental para “trabalhar melhor”.
 

*Flávio Picchi é presidente do Lean Institute Brasil e Prof. Dr. da Unicamp



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