Filosofia lean também pode mudar a educação brasileira; as empresas e toda a sociedade ganhariam muito com isso

LeanMail
Flavio Picchi e Robson Gouveia - 06/06/2017

Uma “educação lean”, centrada em desenvolver o aluno para buscar os conhecimentos necessários e resolver problemas, entregaria ao mercado profissionais melhor preparados para o mundo atual, de mudanças cada vez mais rápidas

Líder lean

O desenvolvimento da capacidade de solucionar problemas é um dos pilares da filosofia lean. Fazer com que todos saibam identificar, definir e resolver falhas e erros nas empresas por meio do método científico é mais importante do que simplesmente copiar as ferramentas, que foram criadas para situações específicas.

Recebemos com frequência solicitações de companhias para auxiliarmos no desenvolvimento dessa habilidade em diversos níveis: liderança, gerência média e operadores.

Percebemos que o gap é enorme. Quase todos têm uma tendência enorme de, ao se deparar com uma dificuldade, tentar pular para a solução sem entender que problema querem resolver. Sem um mínimo de compreensão da situação atual, por não coletarem fatos e dados. Isso gera um grande desperdício, com ações em geral de alto custo que não resolvem os problemas e que se repetem indefinidamente.

Por que isso ocorre?

Antes de mais nada, por uma questão de formação.

Vamos analisar, por exemplo, os profissionais de nível superior. As empresas recebem pessoas que vêm de um modelo de ensino universitário cujas bases foram estabelecidas há mais de um século e refletem as práticas da administração científica de Taylor.

Esse modelo antiquado utiliza conteúdos padronizados, fornecidos em lotes, nos quais as áreas de conhecimento são tratadas da mesma forma que os silos organizacionais, praticamente sem interações entre disciplinas. O foco é o professor, que transmite informações de forma unidirecional, baseado em conhecimento gerado muitas vezes décadas atrás.

Isso é o que o educador brasileiro Paulo Freire, um dos mais respeitados no mundo, chamou de “educação bancária”, no livro “Pedagogia do Oprimido”. É aquela em que o professor se coloca em um nível superior e “despeja” conteúdos no aluno, que é visto como uma espécie de “repositório” que tudo deve absorver, sem senso crítico.

Isso funcionava razoavelmente um século atrás, quando a velocidade de evolução do conhecimento era muito menor que hoje em dia. O profissional aprendia a reproduzir uma técnica, e ela seria usada daquela maneira, possivelmente durante toda sua vida profissional, com pouca evolução.

Só que, há muito tempo, esse quadro mudou - e vem mudando cada vez mais rapidamente. Os conhecimentos que serão necessários ao aluno e os problemas aos quais serão expostos ao longo de sua vida profissional estão em constante evolução e cada vez exigem maior multidisciplinaridade.

Pois bem, os profissionais chegam às empresas com essa formação antiga. E o que acontece? Elas tentam suprir essa deficiência e investem em programas de desenvolvimento, mas que em sua maioria reproduzem o mesmo modelo especializado, em silos.

Quando as companhias iniciam sua transformação lean, fica evidente o quanto precisam mudar nesse jogo, desenvolvendo verdadeiros solucionadores de problemas. E percebem o quanto isso vai demandar de tempo e investimento. As empresas sempre precisarão investir em formação continuada, mas o que têm feito se assemelha mais a um grande retrabalho.

Há muito se discute, nos meios acadêmicos e educacionais, modelos que buscam uma educação mais adequada aos novos tempos. São ideias como foco no processo de aprendizado do aluno, flexibilidade para situações e necessidades diversas, desenvolvimento e habilidades para buscar e gerar novos conhecimentos, muito mais que em repetir ideias antigas, quebra de silos disciplinares e uso de projetos horizontais de solução de problemas concretos etc. Experiências interessantes existem, mas infelizmente ainda são exceções. O grosso da formação continua no modelo tradicional.

A mudança dessa situação depende da soma de muitas forças na sociedade. Ela demanda das instituições de ensino uma profunda reflexão sobre a forma e o conteúdo ministrado aos alunos e uma maior integração com a sociedade na qual ele atuará. O que aliás traria, por consequência, maior empregabilidade. Dos empregadores, sejam empresas, organizações governamentais ou ONGs, exige uma maior aproximação das organizações de ensino, para que, no estilo lean, passem a “puxar” demandas reais do que precisam em seus profissionais.

Nós, da comunidade lean, precisamos participar mais ativamente desse debate, contribuindo com ações concretas. Podemos ajudar com diversos conceitos lean, que, discutidos numa interação mais intensa de empresas e academia, poderiam trazer boas ideias.

Por exemplo, imagine se o conceito de fluxo de valor fosse aplicado sistematicamente para o planejamento da formação específica de cada aluno, com sua efetiva participação. Jeffrey Liker e Michael Hoseus, no livro A Cultura Toyota, trazem esse conceito aplicado ao desenvolvimento de pessoas. A análise buscaria identificar e eliminar tudo que não agregasse valor para esse objetivo, ou seja, o desperdício. Certamente, essa análise mostraria que muitas atividades na vida de um aluno durante seu curso precisam ser alteradas ou suprimidas.

Nas empresas, sabemos a revolução que ocorre quando aplicamos o conceito de hoshin kanri ao planejamento estratégico, que quebra os silos organizacionais e gera um processo intenso de alinhamento horizontal e vertical. Os currículos atuais demonstram claramente que foram concebidos verticalmente, dentro de áreas de conhecimento estanques. O planejamento de currículos flexíveis, com forte integração horizontal, poderia se inspirar nas metodologias do hoshin.

O que realmente faria diferença seria a mudança completa do método. Em vez de repetir conhecimentos de forma unidirecional, seria melhor propor necessidades reais para que os alunos resolvessem, desenvolvendo verdadeiros solucionadores de problemas com método científico estruturado, usando PDCA e pensamento A3, e criando um sistema puxado, no qual eles, os estudantes, buscariam os conhecimentos necessários. Fariam isso indo diretamente ao gemba (onde as coisas acontecem) em empresas, ONGs etc. Isso seria o motor para impulsionar a capacidade produtiva e acelerar a inovação tecnológica em nosso país.

Esse conceito não é novo na educação. Ele está, por exemplo, nas teorias da chamada “pedagogia ativa” ou “aprendizagem ativa”, que entendem o aluno não mais como um simples “recebedor” de conhecimentos, mas, em vez disso, como um “buscador” que precisa ir, ele próprio e de forma muito engajada, em busca do conhecimento de que necessita. Mas esse enfoque encontra todo tipo de dificuldade para ser utilizado extensivamente.

Uma das maiores dificuldades se encontra na forma como as estruturas e os incentivos acadêmicos funcionam, reforçando o individualismo do professor, visando progredir numa carreira dentro de uma trilha especializada. Dedicar tempo para repensar o ensino e intensificar ações horizontais não são valorizados nos mecanismos de avaliação atuais. Os processos de trabalho teriam de mudar; por exemplo, com práticas de células multidisciplinares de ensino-aprendizagem e talvez com avaliações de professores e alunos em ciclos menores, ao estilo das metodologias ágeis, aplicadas no mundo digital.

Isso tudo com certeza exigiria uma nova definição do papel dos professores, que teriam de ser formados para um novo estilo de atuação. Deveriam atuar muito mais como coaches, orientando a formação dos alunos, propondo problemas e atuando da mesma forma que os líderes lean precisam atuar: sabendo fazer as perguntas certas, que vão ajudar o orientando a raciocinar e buscar suas respostas.

Trouxemos esses exemplos nos referindo ao ensino superior. Mas se pensarmos na educação básica, uma revolução seria necessária. Diversos dados mostram que a qualidade do ensino vem caindo cada vez mais em nosso país, e certamente vários aspectos discutidos anteriormente também se aplicariam ao ensino fundamental.

Essas são apenas reflexões que esperamos que sirvam como convite para que todos pensem e ajam mais sobre o assunto. Muitas outras ideias similares poderiam ser trazidas à tona. Por exemplo, como o pensamento lean pode contribuir para a transformação da educação? Como a comunidade lean pode interagir mais com a academia, na busca de modelos que desenvolvam profissionais para o futuro, enfatizando a habilidade de resolver problemas cada vez mais complexos? Como sua empresa pode desenvolver programas em parceria com universidades, que possibilitariam que projetos reais de solução de problemas fossem inseridos na formação e trouxessem inovação?

Se a comunidade lean não dedicar mais atenção a questões como essas, continuaremos a reclamar eternamente da formação dos profissionais que recebemos. E também teremos de continuar tentando retrabalhar a formação dos profissionais através de um enorme esforço dentro de cada empresa, com grandes desperdícios para toda a sociedade.

Diversas evidências já comprovaram que não existe nação desenvolvida e com bem-estar social sem educação de qualidade para toda sua população. O Brasil, infelizmente, está estagnado há muito tempo nesse assunto, inclusive regredindo em alguns aspectos. Com certeza, os conceitos e as práticas lean podem trazer elementos que contribuem para o debate e as iniciativas existentes, visando à evolução dessa situação.



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