Gestão precisa garantir a segurança das pessoas em primeiro lugar

Enxuga aí
Flávio Augusto Picchi - 16/05/2017

Quando encontramos a forma mais segura de se fazer uma atividade, é preciso tornar isso um hábito e padronizar esse processo

Líder lean

Acampanha internacional “Maio Amarelo” – promovida no Brasil este mês pelo Ministério das Cidades e pelo Departamento Nacional de Trânsito, cujo objetivo, como já amplamente noticiado na mídia, é sensibilizar a todos acerca da importância de se diminuir os acidentes de trânsito no país – é também uma boa oportunidade para nos lembrarmos o quanto é fundamental discutir a segurança também nas empresas. Isso precisa vir antes de qualquer discussão quando falarmos sobre gestão.

Talvez não por acaso, 28 de abril foi o Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho. E dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que, a cada ano, aproximadamente 2,3 milhões de trabalhadores morrem, e outros 300 milhões ferem-se em acidente de trabalho pelo mundo. Como se não bastasse essa enorme tragédia humana, há ainda as já conhecidas perdas econômicas, pois, ainda segundo a OIT, esses acidentes custam 4% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial por ano. E, pior para nós, estima-se que o Brasil seja o 4º país do mundo com o maior número de acidentes de trabalho.

Deveria ser óbvio para as pessoas de qualquer tipo de organização que, em se tratando de gestão, a integridade física do ser humano precisa ser sempre vista como o valor máximo, como a coisa mais importante.

Muitas empresas adotam esse pensamento como princípio e fim e efetivamente atuam para colocar isso em prática. Infelizmente, outras nem tanto.

Nesse contexto, é bastante comum observarmos empresas que estão iniciando sua jornada de melhoria da gestão através do sistema leanmentalidade enxuta –, mas que partem de uma situação precária de segurança, o que é visível, por exemplo, em fluxos caóticos de pessoas e de materiais.

Isso é ruim, em primeiro lugar, porque gera altos riscos para a segurança das pessoas, o que torna esse problema algo prioritário para se resolver, além das já tradicionais perdas de qualidade de produtividade.

Nesse sentido, a gestão lean, ao tornar os processos de trabalho mais lógicos, mais organizados, sem movimentos dos operadores ou movimentações de materiais desnecessários e sem desperdícios, também gera um imediato e natural incremento na segurança e na ergonomia do trabalho nas companhias. A mentalidade enxuta faz isso ao gerar mudanças nos comportamentos das pessoas e também nas formas como elas realizam suas atividades.

Qualquer tipo de trabalho que se faz numa empresa tem formas mais ou menos seguras de se fazer, bem como mais ou menos produtivas. Quando encontramos a forma mais segura de se fazer uma atividade, é preciso tornar isso um hábito e padronizar esse processo. Até que ele seja melhorado novamente.

No sistema lean, por exemplo, ao se planejar em detalhes a forma de realizar o trabalho, com a participação ativa dos funcionários, as questões de segurança e ergonomia são intensamente analisadas para cada movimento, estabelecendo alternância de tarefas programadas dentro dos ciclos de trabalho, além de outros meios.

Também quando eliminamos estoques e os transportes desnecessários de materiais, movimentando tudo, por exemplo, em pequenos contêineres, em geral, reduzimos drasticamente a necessidade de empilhadeiras, equipamento comprovadamente relacionado a elevados índices de acidentes.

No sistema lean, temos uma sequência clara de prioridade de melhorias ao analisarmos um processo: segurança, entrega, qualidade e, só depois, produtividade.

Alguns tentam atropelar, visando produtividade sem antes resolver totalmente as questões de segurança, o que, além de ser incompatível com os valores lean e de qualquer organização séria, não funciona, porque um processo que não é seguro e de qualidade jamais resultará em alto desempenho.

Essa postura tem de ser propagada nas empresas, influenciando o comportamento das pessoas no trabalho e no seu dia a dia fora da companhia – por exemplo, no trânsito ou em casa.

Outro dia confirmei esse pensamento na prática, numa atividade cotidiana e aparentemente banal. Fui descer uma escada do prédio em que moro. E, como sempre faço, desci segurando no corrimão, hábito que aprendi nos ambientes corporativos. Escorreguei e, se não tivesse bem firme com a mão no corrimão, poderia ter sofrido consequências graves. Como estava bem seguro, sofri apenas uma leve torcida de pé.

O “Maio Amarelo” é fundamental, pois milhares de pessoas, como sabemos, morrem no trânsito todos anos. E também nos ajuda a lembrar como é importante que pensemos diariamente, durante o ano todo, na segurança necessária dentro de nossas organizações. Não é possível haver qualquer tipo de modelo de gestão sem colocar a integridade das pessoas em primeiro lugar.

*Flávio Picchi é presidente do Lean Institute Brasil e Prof. Dr. da Unicamp



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