Carne fraca: modelo de gestão pode ser embrião de corrupção

Enxuga aí
Flávio Augusto Picchi - 06/04/2017

O “vale tudo” para obter resultados - custe o que custar - propicia um ambiente favorável para desvios e atitudes antiéticas

Muito falou-se sobre a operação “carne fraca” e suas repercussões já sentidas e comentadas na imagem das empresas envolvidas, bem como na reputação do Brasil, cuja fama internacional sofreu, mais uma vez, um impacto negativo.

Mas há ainda uma reflexão importante a se fazer sobre sobre práticas ilícitas envolvendo os setores público e privado. É importante falamos como certos modelos de gestão abrem frentes enormes para a prática descontrolada de corrupção e de fraude dentro das empresas.

E como isso ocorre? Principalmente porque grande parte dos modelos de gestão tradicionais geralmente definem que o mais importante a ser feito numa companhia é “atingir metas”, obter resultados e conquistar fatias de mercado. 

O grande problema é que, na maioria das vezes, esses mesmos modelos de gestão tradicionais que impõem a obtenção desses números e metas não definem “como” atingir esses indicadores. Não definem como atingi-los com preceitos de valores, princípios de gestão e eficiência de processos. E, pior ainda, estes modelos têm frágeis práticas de controle sobre aqueles que cometem desvios. 

A verdade é que gestões tradicionais propagam a mentalidade do “alcance a meta custe o que custar”. Pois, como escreveu Maquiavel, “os fins justificam os meios”. Aí, abre-se todo um caminho para práticas condenáveis, antiéticas e ilegais, que, sabemos, ocorrem ocasionalmente em diversas áreas empresariais.

Mas é possível mudar isso no contexto capitalista em que vivemos, cuja essência é a busca do lucro? Sim, é possível, por mais que pareça difícil.

É preciso, primeiro, alterar o modelo de gestão da organização. E um dos primeiros passos para se fazer isso é redefinir de forma muito clara qual é o “propósito” da empresa. Mas, mais do isso, é preciso cumpri-lo.

No sistema lean, também conhecido como “mentalidade enxuta”, isso muda absolutamente tudo. Neste caso, o foco da organização, o propósito que deve basear tudo o que se faz na empresa, não é  o de puramente“fazer números”.

Muito diferente disso. A principal e central preocupação é “agregar valor ao cliente”. Em outras palavras, atendê-lo de forma excelente, dar a ele o que ele quer e precisa. É deixá-lo absolutamente feliz e satisfeito. É trabalhar para quem realmente interessa, o cliente. Assim, atingir números se torna uma “consequência” e não mais uma “meta” que existe por si mesma.

Ao se agregar valor ao cliente - todos os dias, ao satisfazê-lo e ao atender suas demandas, a consequência natural é manter o cliente, fidelizá-lo e conquistar novos consumidores. Assim, o “número”, a meta e o lucro vêm como consequência natural. E não como algo, muitas vezes, “forçado”, “maquiado” ou, como nos casos de corrupção, fruto de ações criminosas.

É simples entender isso. Analise os recentes casos de corrupção e fraudes nas empresas. Em todos eles, o crime praticado visava maximizar o lucro às custas de deteriorar o que é valor para o cliente. Como consequência, prejudicou e afugentou quem realmente interessa, como está ocorrendo nas empresas que estão concretamente envolvidas nessa operação “carne fraca”.

Se olharmos pelo lado da fiscalização, as falhas de gestão são ainda mais evidentes, com processos burocráticos que propiciam a conhecida prática de criar dificuldades para vender facilidades. 

O Brasil construiu uma sólida reputação nas últimas décadas, tornando-se o maior exportador de carnes do mundo e ganhando mercados extremamente exigentes, resultado de um grande esforço de empresas e órgãos do governo. Como os números de frigoríficos e fiscais envolvidos são uma porcentagem pequena do total (o que não minimiza a gravidade do que está sendo denunciado), certamente não demorará para serem suspensos todos os embargos impostos pelos principais mercados.

Mas não podemos deixar que o fato caia, como tantos outros, na amnésia coletiva. Se a porcentagem dos que foram flagrados nos crimes pode ser pequena, isso não quer dizer que muitas outras empresas não estejam sujeitas, diariamente, a desvios como esses, por adotarem sistemas de gestão que induzem as pessoas ao “vale tudo” para obter resultados.

As denúncias envolveram empresas de diferentes portes e diferentes históricos em termos de objetivos, valores e busca da qualidade. Algumas dão a impressão de que nunca tiveram como objetivo atuar eticamente ou com foco no cliente. Outras demonstram buscar isso. Para essas últimas, que esperamos sejam a maioria, nesse e em outros setores, o dano em um caso como esse é maior ainda. O mais fácil é pensar em mais controles. Mas a oportunidade é de refletir de forma mais profunda sobre o que está sendo feito para alinhar todas as pessoas quanto a “como” atingir e quais são os objetivos.

Quer acabar com o risco de qualquer tipo de ação antiética ou criminosa em sua organização? A forma mais efetiva de garantir compliance é a liderança ter um forte, sincera e incansável no sentido de agregar valor ao cliente. De forma que todo funcionário entenda que o que a empresa espera dele é nada mais do que isso, sendo a prosperidade dele e do negócio uma consequência. 

Fonte: Revista Época Negócios



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