Gestão das empresas deve evitar a “era da pós-verdade”

Enxuga aí
Flávio Augusto Picchi - 27/03/2017

Já pensou que algumas práticas são institucionalizadas sem evidências de que realmente funcionam?

Vivemos a era da pós-verdade. Na internet proliferam versões que nada têm a ver com a realidade, que as pessoas consomem e propagam sem qualquer preocupação quanto à sua veracidade.  

A eleição de Donald Trump leva ao comando da nação mais influente do mundo alguém identificado como um típico representante dessa era. Seus assessores chegaram a usar um criativo eufemismo: “usamos fatos alternativos”.

A expressão chocou milhões de pessoas no mundo todo. Mas nos faz refletir sobre um fato igualmente chocante: em muitas empresas podemos também observar a presença da “pós-verdade” e de “fatos alternativos”.

Surpreso? É que nas companhias a pós-verdade se manifesta, em geral, de uma forma bem mais sutil. Por exemplo, quando temos um conceito cristalizado repetido inúmeras vezes por todos sem nunca ter sido demonstrado ou verificado quanto à sua veracidade. Não seria isso uma forma de pós-verdade?

Dou um exemplo, que já vi em mais de uma organização, que é o mito do “pico de vendas no fim do mês”.

Para os conceitos lean, que visam estabelecer um sistema estável, produção nivelada e com pequenos estoques, nada mais danoso que os acúmulos de vendas nos últimos dias do mês. Em algumas empresas, chega a 50% a quantidade de vendas mensais concentradas nos últimos três dias.

Quando isso começa a ser questionado, muitas vezes ouvimos respostas do tipo “é a cultura do cliente”; “os departamentos de compras trabalham assim” ou ainda “não dá para mudar”.

Praticamente em todos os casos que acompanhei, vi times de implementação lean irem a fundo nessa questão e a conclusão foi a mesma: a causa não estava nos clientes, mas, sim, nas políticas de vendas da própria empresa, que estimulam os vendedores a dar mais descontos nos últimos dias do mês para fecharem suas metas. 

Quantos outros exemplos como esse você poderia lembrar? “Sabemos que nossa estrutura não é suficiente, precisamos de mais pessoas” ou “precisamos deste novo software, nossos sistemas estão desatualizados”.

Se fizermos poucas perguntas, a começar por aquela que questiona qual o problema que se quer resolver, perceberemos que muitas afirmações como essas merecem ir para a lista das pós-verdades corporativas.

Mas como combater essa prática nas empresas? 

O grande “antídoto” é o bom e velho PDCA, sigla das expressões em inglês plan, do, check e act, um método de solução de problemas, baseado no raciocínio científico, conhecido na maioria das empresas, mas que na verdade é muito pouco praticado. Sua aplicação, com disciplina e em todos os níveis da organização, exige a utilização de fatos e dados, que rapidamente expõe as pós-verdades corporativas.

No sistema lean de gestão, dizemos que todo líder deve ser um coach de seu time, desenvolvendo as pessoas para que apliquem o PDCA como hábito, em todas as situações. Ao se deparar com uma frase ou proposição sem fundamento, como as citadas acima, um líder lean deve orientar seu time a usar esse método de solução de problemas, mas fazendo as perguntas certas.

Por exemplo, a percepção de problemas em geral se apresenta de forma vaga, e a tendência de todos é pular para soluções, que, se repetidas, se tornam mitos.

Portanto, questione sempre: por que você acha que essa é uma boa proposta? Que problema você quer resolver? O que você sabe sobre a situação atual? Quais são as causas? Que fatos e dados você reuniu para chegar a essas conclusões?

Você está revoltado com a pós-verdade na internet e nas declarações de políticos? Possivelmente você terá pouca influência sobre isso. Mas na sua empresa ela pode ser erradicada se você e todos seus colegas, orientados pela liderança, praticarem diariamente essa postura questionadora. 

Fonte: Revista Época Negócios



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