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Quando o aprendizado é puxado pelos alunos


Na área da educação, cada vez mais se fala sobre a importância de reconhecermos os próprios alunos como protagonistas de seus aprendizados para que o ensino seja verdadeiramente significativo. Através de uma iniciativa de alunos para alunos, nasceu o GLean, com o intuito de inspirar o aprendizado da filosofia lean em uma universidade de Santa Catarina.

Glean
Felipe Vieira Leandro (ORG.)

O GLean – Grupo de Estudos em Lean – é um grupo vinculado ao Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da Universidade Federal de Santa Catarina, com o propósito de proporcionar um ambiente de aprendizagem focado na filosofia enxuta, oriunda do Sistema Toyota de Produção. Através da realização de pesquisas e trabalhos práticos de implementação em empresas, o GLean busca formar profissionais com conhecimento diferenciado e experiência na filosofia e práticas lean. O grupo é composto por graduandos da UFSC e conta com o auxílio de um professor tutor.

O GLean surgiu como uma iniciativa de graduandos da Engenharia de Produção da  UFSC para aprender mais sobre os conceitos e a filosofia lean. O incentivo inicial para a formação do grupo partiu da realização de um estágio que envolvia os conceitos lean, vivenciado por uma das fundadoras do grupo. Isso trouxe à tona a necessidade da aprendizagem dessa forma de pensar para a UFSC. Assim, ela propôs para alguns amigos a criação de um grupo cujo objetivo fosse estudar lean. Com a ajuda de um professor, o grupo começou a se reunir semanalmente para discutir os conceitos abordados em alguns livros.

Aos poucos, essa iniciativa foi tomando forma e uma estrutura mais definida, com uma sede própria, um estatuto e a publicação de artigos em congressos, motivando, assim, a entrada de outros graduandos no grupo. Essa vontade de aprender e tornar o GLean um grupo reconhecido incentivou os membros a buscarem mais, seja em aumentar o número de membros na equipe ou em ampliar o aprendizado na teoria e na prática. Isso com o objetivo de tornar-se, de fato, um polo agregador de conhecimento em lean na universidade. Dessa forma, o GLean começou a ganhar robustez, com processos internos e a criação de uma estratégia bem definida.   

Hoje, o grupo conta com uma estratégia definida com base na Missão, na Visão e nos Valores, que são revistos a cada 5 anos. A Missão do grupo mostra o propósito do GLean, que é “diferenciar os membros na filosofia e práticas lean através do aprendizado, a fim de sustentar a nossa evolução contínua”. Já a visão, “ser um grupo reconhecido nos meios acadêmico nacional e empresarial de referência por desenvolver profissionais na filosofia lean”, representa difundir o conhecimento lean na comunidade acadêmica e impactar o meio empresarial através da realização de projetos de qualidade.

O ciclo de desenvolvimento do membro dentro do GLean dura cerca de 2 anos. Em cada semestre de aprendizado, chamado de módulo, o membro tem atividades específicas condizentes com a maturidade na filosofia e práticas lean. Durante o primeiro módulo, o membro foca na absorção de conceitos, participando de treinamentos e desenvolvendo uma dinâmica conhecida por “Dinâmica dos Parafusos” (mais sobre essa dinâmica nos próximos parágrafos). No segundo módulo, o membro começa a consolidar seu conhecimento e desenvolver suas habilidades de liderança trabalhando como coach na Dinâmica dos Parafusos e sendo shusa, líder de processos e A3 estratégicos do grupo.

Os módulos três e quatro concentram-se na consolidação de conhecimento através de projetos práticos, disseminando o conhecimento adquirido por meio da mentoria dos módulos mais novos e atuando na liderança estratégica do grupo. Para suprir as necessidades de aprendizado e desafios de cada módulo, foi criado o Plano de Desenvolvimento do Membro, que explicita as atividades básicas para que o membro se capacite no “Padrão GLean”. 

Figura 1 – Plano de Desenvolvimento do Membro (PDM)

O grupo divide suas atividades através do foco de aprendizado teórico e prático. No pilar teórico, são formados núcleos de estudos sobre variações do lean, cujo foco é estudar a fundo conceitos que diferem da literatura-base do grupo. Esses grupos são chamados de “cumbucas”, que, através de encontros semanais nos quais os integrantes estudam e discutem alguma literatura de interesse, promovem a agregação de conhecimento sobre especificidades do lean. Além disso, eles buscam experiências na prática sobre a aplicação do conhecimento das cumbucas, seja com visitas técnicas ou interações com profissionais do tema de estudo. Ainda na busca da evolução constante do conhecimento teórico do grupo, há a realização de workshops semanais, ministrados pelos próprios membros, sobre os principais conceitos da filosofia lean.

A principal forma de capacitação dos novos membros do grupo é através do projeto teórico denominado “Dinâmica dos Parafusos”. O propósito desse projeto é a aplicação dos conceitos vistos na literatura em prática. Dessa forma, o uso de jogos didáticos para ensino permite a abordagem de diferentes técnicas por meio da simulação do processo produtivo, para que a equipe avance rumo ao aumento da produtividade da fábrica em conjunto com um maior nível de absorção de conhecimento perante os membros. 

A dinâmica inicia com a simulação do estado atual de uma fábrica montadora de parafusos, que recebe componentes dos fornecedores e os agrega formando kits. Assim, na primeira etapa, é feita uma análise do estado atual da fábrica, aplicando conceitos como o mapa de fluxo de valor, que os auxilia a enxergar os problemas existentes na empresa. Em seguida, há a criação de uma condição-alvo, o estado futuro que os membros devem perseguir durante cerca de 2 meses. Ainda, para facilitar o processo de aprendizagem na resolução dos problemas, utiliza-se a metodologia A3.

Durante o semestre, há validações constantes perante a construção do projeto com os membros mais velhos do grupo, em forma de entregas e apresentações. Após cerca de 2 meses, há uma apresentação dos resultados finais para todo o grupo. Alguns benefícios percebidos com a aplicação da Dinâmica dos Parafusos com o passar dos anos são a união dos membros novos, o crescimento pessoal dos participantes e a disseminação da filosofia lean, bem como suas ferramentas.

No pilar prático, os membros executam projetos de curta duração durante o semestre letivo em empresas na região de Florianópolis. Além disso, no período de julho, o grupo realiza uma série de visitas técnicas, conhecendo empresas de referência na aplicação da filosofia lean. Outra forma de adquirir conhecimento na prática é através de estágios de verão em grandes empresas, nos quais os membros ficam de 2 a 3 meses em empresas de referência em lean, aprendendo novos conceitos e aplicando os conhecimentos na prática.

Com relação aos estágios de verão, foi atingido um patamar de excelência ao executar projetos em empresas de referência na manufatura, como Mercedes-Benz, Nestlé, Zen, Bosch-Rexroth e Malwee. Essa conquista veio como reconhecimento da capacidade do grupo de aprender e aplicar em empresas de impacto nacional e internacional. Alguns resultados expressivos que o GLean ajudou a construir foram:

Tabela 1: Resultados obtidos por empresa empresa

Além disso, como forma de aproximar o meio empresarial com a universidade, o GLean realiza anualmente o "Kaigi Lean", um fórum de discussão que aborda as melhores práticas dos sistemas enxutos de produção, experiências de envolvidos em implementações lean e quais os desafios que fazem parte da realidade do lean em empresas.

Porém, para estar preparado a atuar no mercado, o trabalho do dia a dia é árduo, mas recompensador. Semestralmente, os integrantes precisam ler mais de 1.000 horas; além disso, ao longo da história do grupo, os integrantes já publicaram 12 artigos em congressos e simpósios e, em 2019, atingiram a execução de 40 projetos práticos na região de Florianópolis desde a fundação do grupo, unindo, assim, a teoria com a prática.

Entretanto, os desafios ao longo dos 13 anos de existência do grupo foram muitos, dentre os quais se destaca o fato de ele ser um grupo pequeno, em torno de 15 pessoas, que tem uma rotatividade de 30% a cada semestre. Com isso, precisam aprender a se estruturar internamente e, ao mesmo tempo, continuar crescendo, construindo conhecimento e desenvolvendo pessoas. Atualmente, o grupo busca ganhar robustez para desdobrar, de forma eficaz, a estratégia por meio de uma rotina com processos estáveis. E para conseguir evoluir o GLean a cada semestre, buscam graduandos na universidade com interesse em lean ao longo dos anos.

Conseguir fomentar a filosofia lean de maneira consistente tem sido um desafio tão grande para o grupo quanto se estruturar internamente, mas o GLean continua firme em sua jornada com o objetivo de auxiliar os futuros profissionais do país a se tornarem cada vez mais preparados. Esperamos que, através de iniciativas como essa, mais pessoas possam se inspirar  e perceber que podemos, nós mesmos – não importando se somos profissionais da área, professores ou estudantes - sermos protagonistas de nossos próprios aprendizados.

Sobre o organizador

Graduando em Engenharia de Produção Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina, Felipe ministra e participa dos treinamentos referentes à filosofia lean como membro do GLean.


Publicado em 17/12/2019

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