Estratégia e Gestão

Futebol tem, intuitivamente, elementos do pensamento lean



Renato Mariz

Um dos esportes mais praticados no mundo, o futebol, também guarda elementos típicos do pensamento lean, que intuitivamente foram incorporados ao longo dos anos e auxiliaram na evolução dessa atividade esportiva que se torna ainda mais popular nos períodos de Copa do Mundo, como esta que ocorre na Rússia.

Como foram surgindo espontaneamente, ou seja, não foram implementados por alguém com conhecimento de gestão, esses elementos lean presentes no futebol são evidentemente subutilizados.

Nesta Copa do Mundo, por exemplo, uma grande novidade é o já polêmico VAR (sigla em inglês de Video Assistant Referee), conhecido no Brasil como “árbitro de vídeo”, um sistema criado pela FIFA para tentar evitar os erros de arbitragem que são tão comuns no futebol.

O VAR foi claramente concebido para ser uma “ferramenta” poka-yoke, expressão japonesa que pode ser traduzida como “à prova de erros”, que representa métodos ou dispositivos que ajudam as pessoas num ambiente de trabalho a evitarem falhas.

Esse sistema já auxiliou em diversas marcações de pênaltis, gols e cartões, porém como vimos na primeira partida da seleção brasileira no mundial – e também em outros jogos –, o sistema aparentemente não impediu que alguns erros ocorressem. Ou pelo menos não convenceu algumas pessoas de que as algumas falhas estão sendo efetivamente coibidas. Isso nos leva ao aprendizado de que tão importante quanto ter um poka-yoke é desenvolver a forma mais correta e precisa de usá-lo. Por se tratar de uma primeira experimentação desse sistema, espera-se que algumas reflexões e melhorias possam ser feitas sobre como melhorá-lo para que o jogo não perca a fluidez e principalmente que iniba ainda mais os erros que os árbitros possam cometer.

Por outro lado, um bom exemplo do uso de um dispositivo poka-yoke é o do chip na bola, que indiscutivelmente tem sido aplicado sem nenhuma discussão nas partidas da Copa. Esse sistema funciona com a instalação de um chip dentro da bola e alguns transmissores espalhados no estádio que conseguem capturar a informação de onde a bola está no campo, ou seja, consegue identificar se a bola entrou ou não no gol. Essa informação é repassada para o árbitro pelo seu relógio. Outras informações que podem ser repassadas ao árbitro pelo relógio são os jogadores que receberam cartões amarelos ou vermelhos e as substituições dos jogadores. Toda essa informação pode ajudar o árbitro a tomar decisões mais coerentes.

Outro conceito tipicamente lean que também, de certa forma, é utilizado no futebol é o andon, ferramenta que mostra o estado das operações em uma área e avisa quando ocorre algo de anormal. Por exemplo, o apito do árbitro e a bandeira dos assistentes sinalizam a todos acerca de  uma situação anormal (falta, impedimento, reversão etc.), que podem ocorrer durante o jogo.

A diferença evidente, porém, é que o andon, uma vez utilizado num ambiente de produção, pressupõe a necessidade de resolver o problema alertado, atuando nas causas raízes, para que a mesma falha não ocorra novamente. No futebol, o apito e as bandeiras dos árbitros não conseguem, obviamente, evitar que erros futuros ocorram. Tanto isso é verdade que atletas que são alertados por terem provocado faltas voltam a cometê-las diversas vezes numa mesma partida. Caberia, então, ao treinador e à comissão técnica tentar entender o “porquê” de seus jogadores estarem fazendo muitas faltas ou ficando sempre em impedimento. Entendendo o real problema, poderiam propor contramedidas adequadas a cada uma das situações, podendo agir desde situações comportamentais, como com jogadores mais temperamentais, a mudanças de esquema de jogo e treinamentos específicos para o caso de impedimentos constantes. Dessa forma, sempre o mais importante é entender as causas dos problemas, analisá-las e combatê-las.

Outro aspecto muito aparente no futebol é a “gestão visual”, um conceito fundamental do pensamento lean, que permite o entendimento da situação real do trabalho por todos os envolvidos.

O mais óbvio deles é a numeração das camisas dos jogadores, que desde 1933 torna possível reconhecer de forma rápida quem são os jogadores e suas respectivas posições dentro do campo. Outro mecanismo visual que facilitou a comunicação entre os árbitros e jogadores e espectadores foram os cartões vermelhos e amarelos, criados na Copa de 70, pois no mundial anterior, em um jogo entre Inglaterra e Argentina, um jogador foi expulso, mas se recusou a sair de campo porque não havia entendido o árbitro alemão. As famosas bandeirinhas dos árbitros assistentes também foram criadas na década de 70 e seguiram a mesma lógica dos cartões, ou seja, facilitar o entendimento dos jogadores e espectadores, com uma sinalização mais visual, para marcações de algumas infrações, como: impedimento, falta e reversão.

Resta analisar se ainda hoje a comunicação em campo é eficiente, em especial em partidas internacionais, em que os árbitros e jogadores falam línguas diferentes.

Mesmo nas questões táticas que envolvem uma partida é possível identificar elementos da gestão lean. Quem nunca ouviu falar nas expressões “carrossel holandês”, “retranca italiana” ou “tiki-taka espanhol”? Todos esses termos se referem a esquemas táticos que foram consagrados por algumas seleções e são conhecidos até hoje. No futebol moderno e dinâmico, um termo muito conhecido é a “compactação”. Ou seja, os jogadores jogam bem próximos uns dos outros em setores menores do campo, com o intuito de facilitar o controle da bola e melhorar a marcação, seja no ataque ou na defesa. Para isso, os atletas precisam ser versáteis e ter múltiplas habilidades, como marcação, passe, desarme, chute, velocidade etc.

Esses conceitos aproximam-se dos layouts celulares que são bastante utilizados nos ambientes de manufatura e administrativos, pois justamente tem como intuito melhorar os fluxos. E necessitam dessa proximidade física de diferentes processos e de um time multifuncional.

Seria interessante que os treinadores tivessem conhecimento acerca de como mudanças de layout podem auxiliar em um ambiente lean. Com isso poderiam potencializar e solidificar um esquema tático.

Percebe-se então que, mesmo intuitivamente, alguns elementos do lean auxiliaram na evolução tática e de jogabilidade do futebol. Entretanto, um maior conhecimento do lean thinking por parte das federações, clubes e seleções poderiam trazer reflexões profundas com intuito de identificar e eliminar causas raízes de problemas organizacionais dentro e fora do campo. Eliminariam diversos desperdícios e agregariam ainda mais valor para os seus clientes, os torcedores.

Renato Mariz é especialista lean do Lean Institute Brasil com mais de 10 anos de experiência em gerenciamento de obras e aplicação de conceitos lean na construção no Norte e Nordeste do Brasil. Desenvolveu métodos para aplicação do trabalho padronizado na construção, gerando aumento da produtividade e redução de desperdícios. Instrutor do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Pará (Sinduscon/PA) para disciplina "Lean Construction". É engenheiro civil pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestre em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde desenvolve doutorado no programa de pós-graduação.


Publicado em 10/07/2018

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