ESTRATÉGIA E GESTÃO

Sistema puxado e nivelado: adaptabilidade para tempos incertos

Flávio Augusto Picchi
Sistema puxado e nivelado: adaptabilidade para tempos incertos
Melhorar a flexibilidade ao reforçar o just-in-time é a resposta atual mais rápida e adequada para os mercados cada vez mais imprevisíveis.

A palavra da vez é incerteza. Os ambientes de negócios já vinham mostrando dinâmicas de mudanças cada vez mais rápidas. Com a pandemia, a volatilidade acelerou. As empresas enfrentam uma verdadeira montanha russa em termos de previsibilidade. Meses alternando parada e retomada; otimismo e frustrações. Alguns setores, crescendo como nunca; outros, com suas formas de atuação quase extintas, exigindo mudanças drásticas em “o que” e em “como” oferecer ao mercado.

Após um longo período de baixa produção, vários setores sofreram ou ainda sofrem neste início de ano com a falta de insumos, fruto da incapacidade de fornecedores em atender à retomada de demanda de algumas áreas.

Sempre que ocorrem esses desarranjos nas cadeias de suprimentos, ressurgem discussões sobre como organizar a produção: com a visão tradicional, de um sistema empurrado, tentando se proteger com grandes lotes e mais estoques? Ou reforçando um sistema puxado e a produção just-in-time (JIT)?

Essa discussão é importante, não só em ambientes de produção, mas também em empresas de serviços, onde o sistema empurrado é menos visível, mas também ocorre através de processamentos represados em datas específicas e desconexões de ritmo entre áreas.

A filosofia lean adota claramente o JIT, sendo ele um dos seus pilares. Contudo, por incrível que pareça, após tantos anos de utilização desse sistema com resultados nos mais variados ambientes, muitas companhias ainda utilizam total ou parcialmente o sistema empurrado.

Vale a pena, portanto, relembrar as diferenças entre os sistemas empurrado e puxado e a importância deste último, principalmente em cenários de incertezas crescentes.

O sistema empurrado é aquele no qual a organização processa grandes lotes de serviços ou de produtos, geralmente no máximo de suas capacidades, tendo como base para isso uma previsão de demanda, sem levar em conta variações reais do processo seguinte.

É aí que mora o perigo: a dificuldade das previsões, cada vez mais incertas. Imagine uma empresa que tem centenas de variações de produtos dentro de uma determinada categoria.

O crescimento da categoria como um todo até apresentava um certo grau de acerto nas previsões (hoje nem isso), mas a insanidade do sistema empurrado é tentar “adivinhar” quanto vai vender de cada tipo específico de produto e, pior, mandar produzir, em grandes lotes mensais, aquelas quantidades esperadas.

Claro que isso nunca dá certo, gerando elevados estoques de produtos que venderam menos que a previsão e perdendo vendas de outros que faltaram. Parte da capacidade de produção foi desperdiçada para gerar produtos que não eram os que os clientes queriam. A resposta da cultura de sistema empurrado é aumentar ainda mais os estoques, seja de produtos acabados, em processo ou de matérias-primas, gerando desperdícios adicionais.

Essas mazelas do sistema empurrado sempre foram conhecidas, mas é importante lembrá-las. Se essas dificuldades já aconteciam em mercados com certa previsibilidade, imagine frente às incertezas crescentes!

Já a filosofia lean adota pressupostos completamente diferentes através da produção JIT, que tem três elementos.

O primeiro desses elementos é o conceito de tempo takt, ou seja, o ritmo em que o cliente demanda produtos de uma determinada família. Mais do que uma previsão, é um compromisso entre vendas e produção. E serve principalmente para o planejamento da capacidade produtiva e para o alinhamento de ritmos de fabricação, movimentação e entrega em toda a cadeia produtiva, dentro e fora da empresa.

 O fluxo contínuo é o segundo elemento, o que significa produção em células flexíveis que geram diferentes tipos de produtos daquela família, em pequenos lotes e com lead times curtos. Essa é uma mudança fundamental, obtida através da aplicação de diversas ferramentas lean, como o setup rápido, que dão flexibilidade para que o sistema possa responder prontamente às variações de demanda.

Ainda no JIT, temos como terceiro elemento o sistema puxado, através do qual um processo sinaliza aos seus fornecedores exatamente o que precisa, baseado no consumo real de seus clientes, internos ou externos. Complementa o conceito de sistema puxado o princípio de nivelamento, ou heijunka, através do qual se busca um alinhamento de mix e volume, dando estabilidade e elevada produtividade.

Esses são conceitos técnicos, disponíveis largamente na literatura (por exemplo, no livro Criando o Sistema Puxado Nivelado, de Art Smalley), e podem ser aplicados em qualquer ambiente de negócios.

A essência é bastante simples: algo só é produzido ou movimentado se ocorre um consumo real. Isso se aplica na reposição de produtos acabados, entre processos e na cadeia de fornecedores. Dessa forma, o sistema se ajusta às reais variações de demanda, estando muito mais próximo daquilo que seus clientes desejam.

Claro que variações bruscas na economia como um todo também afetarão as empresas que adotam a produção puxada e nivelada, mas a capacidade para se adaptar às mudanças será muito maior e ocorrerá mais rapidamente. Essa é a essência do que se pode chamar de uma companhia “ágil”.

Aprendemos a cada dia que inesperadas e rápidas mudanças sociais transformam mercados radicalmente. Graus de incertezas aumentam de forma cotidiana. Os públicos se diversificam, transformam-se e mudam suas necessidades, preferências e desejos a velocidades nunca vistas.

Assim, ser uma organização cada vez mais “adaptável”, em todos os sentidos, é uma das qualidades mais estratégicas que se pode ter.

O aperfeiçoamento de um sistema de produção e entrega de produtos e serviços que seja puxado e nivelado, ao longo de toda a cadeia de suprimentos, é, sem dúvida, um elemento chave para esse objetivo. E se tornou ainda mais importante nos tempos atuais.

Publicado em 07/04/2021

Autor

Flávio Augusto Picchi
Presidente do Lean Institute Brasil.

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