Um período de crescimento econômico, como o que estamos vivendo, traz, em geral, bons resultados financeiros para as empresas, graças ao maior faturamento e à maior utilização dos ativos.
Entretanto, essa situação pode estar escondendo problemas e ineficiências face aos resultados favoráveis momentâneos. E assim, as empresas estariam perdendo oportunidades de dar um salto em sua performance, ou até mesmo manter o desempenho recente, já que pode haver uma tendência à complacência e à acomodação.
Realmente, o ano de 2007 foi um dos melhores para a economia brasileira nas últimas décadas. O PIB cresceu acima de 5%, as exportações continuaram expandindo, apesar da valorização do Real frente ao dólar e o saldo comercial mantem-se forte, mesmo frente a um incremento das importações.
O mercado interno cresceu substancialmente com recordes de vendas para diversos produtos, como os do setor automotivo (15% de automóveis e 30% de caminhões) e o de eletrônica (24% de computadores e 33% de celulares). O setor rural saiu da crise e cresceu quase 7%, demandando máquinas agrícolas em mais de 40%. Resultados semelhantes podem ser encontrados em diversos outros setores da economia.
Este crescimento expressivo foi possível após alguns anos de estabilidade monetária, expansão do crédito (taxas de juros menores e prazos maiores), da renda (maior emprego formal, políticas sociais) e à maior competição, com mercados menos protegidos.
Apesar dos investimentos terem aumentado, para muitos setores a existência de capacidade produtiva para atender a demanda crescente passou a ser um problema. Uma situação dessas pode dar tranqüilidade a muitos. Mas não é essa a atitude que se espera de um pensador lean. Devemos estar sempre atentos as ameaças e perigos em cada situação e não cair em uma zona de conforto.
O impacto do crescimento econômico sobre o desempenho das empresas lembra um pouco aquela clássica figura que mostra como aparecem as pedras do fundo (ineficiências) de um lago quando se reduz o nível da água (estoques). Só que apresenta o efeito oposto, ou seja, teria um papel semelhante ao aumento do nível da água, servindo portanto para encobrir problemas, conforme mostra a figura abaixo:

A necessidade de se “produzir a qualquer custo” gera exatamente o que se espera, ou seja, o aumento de custos e menor produtividade. Surgem inúmeras situações que são encobertas pelo nível maior das águas (crescimento econômico) tais como:
• Número crescente de plantas trabalhando em 3 turnos e 7 dias, utilizando ao máximo o recurso máquina e não buscando a eficiência sistêmica;
• Baixa utilização efetiva da capacidade produtiva, apesar das aparências em contrário, devido a paradas freqüentes e perdas de produção generalizadas;
• Horas extras excessivas e desordenadas para evitar ou diminuir atrasos;
• Menor produtividade (produção por horas trabalhadas ou por pessoa);
• Dificuldade de manter os níveis de serviço e entrega, gerando clientes insatisfeitos, além de fretes emergenciais e baixa utilização da capacidade logística;
• Qualidade conquistada com intenso retrabalho, já que a necessidade de produzir cada vez mais prevalece;
• Estoques não balanceados, com excessos e faltas convivendo concomitantemente;
• Contratação de mão de obra sem experiência demandando tempo adicional da supervisão, já sobrecarregado com volumes de produção e problemas crescentes.
Como conseqüência, aumenta a instabilidade generalizada dos 4 Ms (mão-de-obra, método, material e máquina) fazendo com que as empresas tenham enormes dificuldades em produzir de acordo com o planejado. É impressionante a quantidade de empresas que temos visitado que poderiam atingir os volumes requeridos pelos clientes se usassem efetivamente sua capacidade produtiva em dois turnos apenas.
Diferentes cenários apontam para um crescimento econômico não tão significativo em 2008. As dificuldades, independentemente do ambiente internacional com a ameaça de recessão nos EUA, o baixo crescimento da Europa Ocidental e a possível desaceleração da China e Índia, devem-se a problemas internos como a necessidade de melhorar a infra-estrutura, reduzir a carga tributária, simplificar e eliminar a pesada burocracia e reduzir custos financeiros.
Desse modo, é fundamental as empresas não se entusiasmarem com os resultados do ano que se encerrou e evitarem ocultar problemas graves, escondidos neste momento. O crescimento econômico gera riqueza, renda, consumo, produção, impostos etc.Mas cuidado para não se acomodar com os bons resultados não originários de bases sólidas.
Reforçar os fundamentos do sistema lean (estabilidade, padronização, solução de problemas e kaizen) e em particular os cuidados com a utilização real de capacidade para evitar despender recursos com investimentos desnecessários, ajudará todos nós a garantir um futuro melhor com efetivas e sustentáveis reduções de custos e melhorias na qualidade.
Só assim estaremos bem preparados para as diversas possibilidades definidas pela macroeconomia, quer seja elevado ritmo de crescimento, quer seja recessão.
José Roberto Ferro
Presidente
Lean Institute Brasil
PS. Jidoka é uma conceito ainda pouco conhecido que ajuda a garantir a qualidade na fonte, contribui para liberar capacidade produtiva e aumentar a produtividade.