As marchinhas de Carnaval e o respeito às pessoas nas empresas

Enxuga aí
Flávio Augusto Picchi - 22/02/2017

O questionamento que hoje fazemos sobre o significado de certas canções pode ser estendido ao que entendemos por respeito dentro das organizações



Algumas marchinhas de carnaval antigas têm despertado polêmicas acirradas, por serem consideradas racistas e preconceituosas, quando analisadas sob o ponto de vista politicamente correto de hoje.

Fiquei até mesmo espantado, quando me lembrei da marchinha “Cabeleira do Zezé”, do compositor João Roberto Kelly, que ouvi repetidas vezes em matinês, quando era criança.

Nestes tempos de lutas contra preconceitos, muitos podem acusar sua letra de ser homofóbica e até de incitar a violência. Por exemplo, no trecho: ”Corta o cabelo dele...”.

Nos dias atuais, o autor certamente estaria sujeito a ser hostilizado por parte da sociedade, principalmente nas mídias sociais, e poderia até mesmo sofrer processos. O que eu mesmo achava brincadeira naquela época, hoje considero inaceitável.

Sem entrar de forma mais aprofundada nessa discussão – se em alguns casos há ou não exageros nas mensagens dessas marchinhas; se elas deveriam ser ou não banidas ou ter suas letras alteradas – faço uma reflexão sobre a essência do que está por trás dessa discussão: o respeito às pessoas. E como nossa percepção do que isso significa tem evoluído, felizmente! Conforme essa consciência avança na sociedade, isso gera também reflexos na cultura das empresas.

Hoje, toda companhia minimamente séria tem políticas de respeito à diversidade de raça, credo ou opção sexual, embora esses esforços nem sempre sejam suficientes para coibir atitudes preconceituosas nos ambientes de trabalho. Infelizmente, ainda é frequente observarmos abusos nesse sentido.

Mudanças culturais levam tempo e precisam de reforços permanentes, vindos principalmente das lideranças.

É por isso que dois autores franceses da atualidade, Michael e Fred Ballé, foram bastantes felizes, quando intitularam seu livro “Liderar com respeito”, no qual descrevem as práticas necessárias a um líder que segue os preceitos do sistema lean (“enxuto”).

Os dois autores, pai e filho, inspiraram-se na famosa frase sobre gestão de Fujio Cho, “lendário” ex-presidente mundial da Toyota, que assumiu a companhia em 1999 e foi um dos principais responsáveis por leva-la à primeira posição entre as montadoras do mundo. Sua frase "lendária" sobre o papel do líder foi: “Vá ver, pergunte ‘por quê?’ e mostre respeito”.

Tal sentença resume muito do conceito lean de respeito às pessoas, que é bastante amplo e abrange aspectos nem sempre evidentes à primeira vista. Certamente, esse conceito inclui a prevenção de atitudes preconceituosas, bem como a adequada polidez quando, por exemplo, um líder se dirige a um funcionário. São aspectos mínimos obrigatórios, sobre os quais não há discussão e que exigem bastante atenção para não serem negligenciados.

Mas o respeito às pessoas, que os líderes lean devem propagar, vai além disso. Inclui também princípios que precisam ser incorporados à própria forma como o trabalho é projetado e como as pessoas interagem com os processos.

Manter nas empresas processos ruins, que desperdiçam o tempo das pessoas em retrabalhos ou atividades que não agregam valor é, a meu ver, um grande desrespeito com todos que estão envolvidos diariamente nesses processos.

Por outro lado, utilizar plenamente na companhia a capacidade de cada profissional, através de mecanismos que mostrem rapidamente os desvios em relação ao objetivo planejado e incorporem as pessoas, com suas experiências, às discussões sobre as soluções dos problemas, é o maior respeito que podemos ter pela inteligência.

No sistema lean, esse respeito às pessoas se refere a todos: não só aos trabalhadores, mas também aos clientes, fornecedores, acionistas, e toda a sociedade.

Esse respeito às pessoas se reflete numa série de questionamentos típicos do sistema lean: estamos efetivamente empenhados em entregar um produto seguro e de qualidade aos clientes? Buscamos uma relação de ganha-ganha com nossos fornecedores? Eliminamos diariamente os desperdícios de forma a atingir os resultados do negócio? Contribuímos com a sociedade de maneira ética e sustentável?

Tudo isso também é liderar com respeito, em relação a todas as pessoas envolvidas.

Assim como a polêmica das marchinhas está trazendo um interessante debate sobre o que era aceitável no passado e já não é mais, que tal analisar o estilo de liderança em sua empresa e perguntar: será que evoluímos nosso conceito do que significa respeitar as pessoas, em todos os sentidos, em nosso ambiente de trabalho?

A resposta pode gerar uma boa discussão em prol da evolução da organização.

Fonte: Revista Época Negócios



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