Internet das coisas. Mas com propósito

Enxuga aí
José Roberto Ferro - 24/11/2016

Somos capazes de ter muito mais informações. Mas para fazer o que com elas? E daí? Qual problema isso resolve?

Uma gigante do setor de eletrônica e de máquinas elétricas anunciou recentemente sua megainiciativa ligada à internet das coisas. Ela promete, entre outras coisas, que otimizar o controle sobre os produtos através da ampliação da conectividade cada vez mais inteligente entre os ativos poderia aumentar a produtividade, reduzir o tempo de entrega, aumentar a visibilidade e a acuracidade dos dados e melhorar a segurança cibernética.

Não havia uma palavra clara, porém, sobre como isso seria feito. Essas promessas mágicas que estão, recentemente, aparecendo cada vez mais me lembraram de várias outras grandes promessas tecnológicas que entregaram pouco do que prometiam.

Por exemplo, há cerca de duas décadas vendia-se a ideia de que um sistema completo e integrado de TI permitiria que o presidente da empresa fosse capaz de saber tudo o que acontecia na companhia a todo o momento, apenas com um toque em seu teclado e na tela do seu computador, sem precisar sair de sua sala.

Supondo que isso fosse verdade, que seria possível ter acesso, a todo o momento, a todas as informações relativas à empresa, qual seria o benefício disso?

O que aconteceu, na verdade, foi que se investiu bilhões com limitados resultados na melhoria do fluxo de informações. Somos capazes de ter muito mais informações. Mas para fazer o que com elas? E daí? Qual problema isso resolve? Que melhoria isso traz?

Outro exemplo. Uma empresa do setor de cartões de crédito investiu centenas de milhões há cerca de quinze anos para conectar todas suas máquinas de passar cartões de crédito à internet, para poder vender anúncios que seriam exibidos enquanto os clientes esperariam passar o cartão. Foi um grande fracasso. Você quer ver anúncio enquanto espera? Quem quer ver anúncio? Quem quer perder tempo aguardando passar o cartão de crédito, na verdade?

Ou, se voltarmos mais ainda no tempo, havia vídeos maravilhosos das fábricas totalmente robotizadas, sem nenhum funcionário, nos anos 70 e 80 no Japão. Precisaria apenas de uma pessoa para ligar e desligar a fábrica. Quase meio século se passou e ainda se trata de ficção científica.

Por outro lado, há alternativas interessantes na busca por novas tecnologias. Tive uma experiência muito agradável na semana passada. Visitei uma empresa de robótica no norte da Califórnia, nos EUA. A empresa produz equipamentos sofisticados que vão ao fundo do mar.

Quais práticas avançadas estão usando para tornar a companhia mais competitiva? Vejamos alguns exemplos muito simples.

Estão implementando práticas ligadas ao desenvolvimento lean de produtos e processos. Por exemplo, foram aprendendo a usar um quadro visual simples, que chamamos de obeya, que foi tema de uma recente coluna. Nesse quadro, eles gerenciam a programação e o acompanhamento de projetos complexos que duram vários anos. Agora, toda a gestão ocorre em reuniões diárias, feitas em pé em frente ao quadro usando post-its.

Desligaram um complexo sistema de planejamento e acompanhamento de projetos feitos no computador, e ninguém sente saudades. Agora, as coisas estão sendo acompanhadas mais de perto, os problemas aparecem e são resolvidos de forma rápida e colaborativa. Os prazos não apenas estão sendo apenas cumpridos, mas reduzidos, pois entregam antes do tempo. E sem adicionar recursos.

Outros exemplos simples são os protótipos rápidos feitos de papel ou madeira para gerar aprendizado, validar ou abandonar conceitos e ideias. Ou engenheiros de produto e de processo trabalhando juntos para criar produtos mais fáceis de montar.

A melhoria dos processos e a capacitação das pessoas ocorrem em paralelo. Com isso, a empresa prepara-se para lançar um revolucionário novo produto em mais alguns meses. Já tem, inclusive, um sistema de localização dos veículos nas profundezas dos oceanos, o que é necessário, pois seus produtos ficam em locais remotos.

Essa companhia de alta tecnologia e produtos complexos usa técnicas e práticas lean para simplificar o trabalho e ajudar as pessoas a se desenvolver e trabalhar melhor. Assim, consegue gerar mais valor para os clientes.

Esse exemplo ilustra as alternativas que existem para não se embarcar no pretenso “vagão da modernidade” sem saber por quê. Qual é o propósito? Como novas tecnologias podem ajudar sua empresa e, em particular, seus clientes? Que valor elas agregam a eles?

Progressos recentes da internet e da inteligência artificial abrem uma enorme oportunidade e desafios para todas as companhias. Mas esses esforços devem ser focalizados no que interessa.

A internet das coisas e a manufatura 4.0 prometem conectar tudo com tudo. Parece bom. Mas e daí? Com que propósito? Cuidado em buscar soluções para problemas que ainda não existem. É muito importante a preocupação com os fundamentos do negócio. Desenvolver novos produtos que interessem aos clientes, melhorar processos, desenvolver capacitações, introduzir novas maneiras de pensar e de liderar.

Pouco adianta trazer um pacote de novas tecnologias sofisticadas e avançadas se a empresa não estiver preparada, com seus fundamentos adequadamente estabelecidos. E se isso não tiver um propósito claro.

Fonte: Revista Época Negócios



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